Alessandra Negrini: 'As pessoas querem historinha, mas cinema é viagem maior'

Por Luísa Pécora , iG São Paulo |

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Famosa pelo trabalho na televisão, atriz interpreta mulher abandonada pelo marido em "O Abismo Prateado", de Karim Aïnouz; leia entrevista ao iG

Uma mulher comum, que fala pouco e interage mais com o tempo e o espaço do que com outras pessoas. Violeta, a personagem de Alessandra Negrini em "O Abismo Prateado", deve surpreender quem for ao cinema esperando dela algo parecido com a personagem-título da minissérie "Engraçadinha" (1995) ou as gêmeas Paula e Taís, da novela "Paraíso Tropical" (2007).

"Vai ser uma experiência nova para muita gente que não está acostumada a ver filmes como este, principalmente para quem for assistir porque me conhece", afirma a atriz, em entrevista ao iG. "Acho ótimo, porque o Brasil está caminhando para se educar esteticamente. As pessoas querem ver historinha, mas o cinema pode ser uma viagem maior."

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Alessandra Negrini em "O Abismo Prateado". Foto: DivulgaçãoAlessandra Negrini em "O Abismo Prateado", de Karim Ainouz. Foto: Mauro Pinheiro Jr. / DivulgaçãoCena de "O Abismo Prateado". Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'O Abismo Prateado'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'O Abismo Prateado'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'O Abismo Prateado'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'O Abismo Prateado'. Foto: Divulgação

Apesar de ser mais conhecida por seu trabalho na televisão, Negrini, 42 anos, está em seu nono longa e tem no currículo "Cleópatra", de Júlio Bressane, que lhe rendeu o prêmio de melhor atriz no Festival de Brasília de 2007.

Em "O Abismo Prateado", cujo roteiro é inspirado na canção "Olhos nos Olhos", de Chico Buarque, ela é Violeta, dentista que casou jovem, aos 22 anos, e aos 40 é mãe de um adolescente. Na academia, ouve um recado no celular no qual o marido, com quem tivera intensa relação sexual naquela mesma manhã, lhe diz que foi embora. “Eu não vou voltar. Eu não te amo mais”.

Entrevista: "Brasil não faz comédia, faz chanchada", diz Karim Aïnouz

Divulgação
Karim Aïnouz, Alessandra Negrini e Chico Buarque

O recado é o início de uma jornada de autodescobrimento para Violeta, pela qual passa basicamente sozinha, andando pela zona sul do Rio de Janeiro.

Cabe à Negrini segurar o espectador dizendo pouco ou nada, muitas vezes evidenciando a situação emocional da personagem apenas pelo modo como olha ou respira. 

“Pra mim, a respiração é o fio condutor de tudo. É como você consegue chegar na emoção em um filme cuja linguagem é o silêncio”, afirma.

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"O Abismo Prateado" ainda não tinha roteiro quando Negrini aceitou o convite, motivada pela admiração pelo diretor Karim Aïnouz, de "Madame Satã" e "O Céu de Suely".

O fato de ser a primeira atriz muito famosa a trabalhar com o cineasta não a intimidou. "Era problema dele, não meu", brinca.

Segundo Negrini, Aïnouz temia que ela chamasse muita atenção durante as filmagens externas. Mas o diretor também sabia que escolher uma protagonista tão conhecida pelo trabalho na televisão poderia dar cara "global" ao filme e fazer com que fosse mais difícil para o espectador enxergar Violeta.

“Alguns atores têm uma exposição pública tão grande que você não consegue voltar para o personagem – está sempre vendo o ator. Isso é exponencialmente mais complicado no Brasil, porque não são estrelas de cinema, são de televisão”, afirma Ainouz. "Em alguns planos vêm a Alessandra Negrini. Por isso você faz quatro, cinco takes."

Manuela Scarpa/Photo Rio News
Alessandra Negrini lança 'O Abismo Prateado' no Rio de Janeiro

O diretor também conversou com a atriz sobre a importância de utilizar todo o corpo em cena, ao contrário do que acontece na televisão, onde a falta de plano geral obriga que a atuação se concentre no rosto e nos braços.

"É como um bailarino que é filmado da cintura para cima e perde um pouco a musculatura de baixo. Tinha essa coisa de fazer com que esse bailarino de televisão se tornasse um bailarino do palco, de limpar o rosto e filmar o corpo, de trazer de volta a musculatura", explica.

Para Negrini, a sintonia dos dois foi fundamental para o filme. “Ele falava baixinho: ‘Vem mais pra cá, menos aqui, segura a emoção. Era como um maestro”, define.

Segundo ela, ambos encaravam "O Abismo Prateado" como um filme de ação. “O Karim gosta de falar da mulher, e a mulher dele é forte. Ela corre, anda, vai", afirma. "Ninguém vai no cinema para ver uma mulher sofrendo. Nesse caso, vai para vê-la tentando vencer a própria dor e encontrar o herói que mora dentro dela.”

Veja uma cena de "O Abismo Prateado":


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