'Ampliar papéis femininos era prioridade', diz roteirista de 'Homem de Ferro 3'

Por Luísa Pécora , iG São Paulo |

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Em entrevista ao iG, Drew Pearce fala sobre novidades do terceiro longa e diz torcer para que Hollywood vá além dos remakes: 'Adoraria um mundo com muitos filmes originais'

O britânico Drew Pearce teve de lidar com a decepção de ver o roteiro do longa "Runaways", que escreveu sob encomenda da Marvel, ser engavetado. Depois, veio a recompensa: ser escolhido para criar a história de "Homem de Ferro 3", o terceiro episódio da franquia estrelada pelo ator Robert Downey Jr.

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Pearce trabalhou em conjunto com Shane Black, que também assumiu a direção, substituindo Jon Favreau. A renovação representou uma série de mudanças, como a decisão de deixar o arrogante Tony Stark mais maduro e fortalecer as personagens femininas, geralmente deixadas de lado por filmes de super-heróis.

"Era uma prioridade para nós", afirma Pearce, em entrevista por telefone ao iG. "Em "Homem de Ferro 3" as mulheres são tratadas da mesma forma que os outros principais personagens."

Cena de 'Homem de Ferro 3'. Foto: DivulgaçãoRobert Downey Jr. e Don Cheadle em cena de 'Homem de Ferro 3'. Foto: DivulgaçãoCena de 'Homem de Ferro 3'. Foto: DivulgaçãoCena de 'Homem de Ferro 3'. Foto: DivulgaçãoCena de 'Homem de Ferro 3'. Foto: DivulgaçãoCena de 'Homem de Ferro 3'. Foto: DivulgaçãoCena de 'Homem de Ferro 3'. Foto: DivulgaçãoRobert Downey Jr em cena de "Homem de Ferro 3". Foto: DivulgaçãoImagem do filme "Homem de Ferro 3". Foto: DivulgaçãoGwyneth Paltrow e Robert Downey Jr em "Homem de Ferro 3". Foto: DivulgaçãoBen Kingsley como o Mandarim, vilão de "Homem de Ferro 3". Foto: DivulgaçãoImagem do filme "Homem de Ferro 3". Foto: DivulgaçãoImagem do set de "Homem de Ferro 3". Foto: Divulgação

O roteirista manteve a tradição da franquia de se apropriar de questões políticas internacionais, fazendo referências ao terrorismo que podem ser especialmente sensíveis desta vez, após o ataque durante a maratona de Boston, que deixou três mortos.

"Nosso filme tem um ponto de vista, ainda que muito sutil, sobre as questões atuais e a situação geopolítica. Para mim, trata-se de algo positivo", disse. "Mas nunca tentamos inserir questões reais para dar peso ao filme. Antes de qualquer coisa, somos um longa de entretenimento."

Na entrevista a seguir, Pearce fala sobre as principais mudanças dos personagens, nega que a participação da China na produção tenha significado qualquer influência criativa e discute a obsessão de Hollywood por sequências e remakes: "Adoraria um mundo com muitos filmes originais"

Getty Images
O roteirista de "Homem de Ferro 3", Drew Pearce

iG: O filme tem várias cenas em que os atores estão fora das armaduras. Foi um risco, considerando a expectativa dos fãs de super-heróis?
Drew Pearce: Shane e eu tínhamos esta ideia desde o início. Temos atores fantásticos e os colocamos em armaduras durante todo o filme, o que é um certo desperdício. No início pensamos que a decisão poderia representar um problema. Mas acho que quando as pessoas assistem elas se lembram: 'Robert Downey Jr. e Don Cheadle - eu quero vê-los". Então foi uma coisa muito consciente: queríamos tirar Tony Stark de sua armadura porque isso traria frescor à história, e porque queríamos usar Robert.

iG: Stark está mais maduro. Houve uma tentativa de deixá-lo mais simpático ao espectador?
Pearce: É delicado, porque, tradicionalmente, ele era mais excitante quando era menos simpático, como nos dez minutos iniciais do primeiro filme. Mas se você apenas contar com isso, eventualmente ele vai virar um escroto (risos) No começo é divertido, mas, a longo prazo, perde o charme. Além disso, não sentíamos que podíamos continuar usando essa carta porque quando vimos Tony pela última vez, em "Os Vingadores", ele salvou o mundo. Então parecia que essa parte da história tinha chegado ao fim. O difícil era pensar a quais outras cores da personalidade de Tony podíamos recorrer, mas sem transformá-lo em alguém muito sério. Embora isso caia bem em alguns filmes de super-heróis, não é o que há de excitante em Tony ou Robert.

Gwyneth Paltrow ao iG: "Pepper está mais forte e poderosa em 'Homem de Ferro 3'"

iG: O que motivou a decisão de fortalecer os papéis femininos?
Pearce: Era uma das prioridades para Shane e eu: deixar os papéis de Pepper e Maya o mais proeminentes possível. Aliás, havia muito mais espaço para Maya no filme, mas infelizmente nem tudo que é filmado pode ficar. Apesar disso, me orgulho muito do material final. Colocar Pepper nas cenas de ação era muito importante porque queríamos empoderá-la. Afinal, temos Gwyneth Paltrow, que é uma mulher muito poderosa. Nosso maior objetivo era ter duas personagens femininas que não apenas conversassem sobre Tony. Por isso há uma cena em que elas dividem um momento genuíno de conexão emocional e intelectual, que diz respeito apenas a quem elas são e suas ambições. Em "Homem de Ferro 3" as mulheres são tratadas da mesma forma que os outros principais personagens. E isso não deveria parecer estranho - é o que deveríamos fazer em todos os filmes. Não merecemos qualquer crédito.

iG: O filme tem coprodução chinesa num momento em que a China amplia sua influência em Hollywood, por ser o segundo maior mercado depois dos EUA. Houve algum impacto da parceria no seu trabalho?
Pearce: Sinceramente? Não. É verdade que não me aproximo muito da parte do negócio, e nem Shane. Mas acho que o que estávamos fazendo criativamente foi o que inspirou as oportunidades de negócio, e não o contrário. O mesmo vale para produtos relacionados ao filme, por exemplo. Ninguém nunca nos disse que tínhamos de ter vários robôs para vendermos brinquedos ou colocar três cenas de Tony usando um celular para poderem fazer negócio com uma empresa de telefonia. Tenho certeza de que isso acontece muito em outros grandes filmes. Mas não houve nada além de uma escrita criativa e livre no nosso caso. Talvez tenhamos sido protegidos do negócio. E se fomos, fico feliz.

Veja a entrevista de Don Cheadle ao iG:

iG: O filme tem muitas referências a terrorismo no momento em que o assunto é especialmente delicado por causa do atentado em Boston. Acha que pode ser difícil assisti-lo, especialmente nos Estados Unidos?
Pearce: Acho que seria um erro terrível para qualquer filme que é pensado primeiramente como entretenimento tentar fazer analogias muito óbvias com a realidade. Mas a verdade é que Tony é um personagem que vive em um mundo real, principalmente se comparado a outros heróis. Ele era um fabricante de armas do mundo moderno, e acho que era preciso ficar nesse mundo enquanto estávamos escrevendo. Mas também é preciso respeitar esse mundo e saber o que você está fazendo. E acho que nosso filme tem um ponto de vista, ainda que muito sutil, sobre as questões atuais e a situação geopolítica. Para mim, trata-se de algo positivo. Mas nunca tentamos inserir questões reais para dar peso ao filme. Antes de qualquer coisa, somos um longa de entretenimento. Tínhamos de contar uma história e o terrorismo era parte dela.

iG: Com tantos remakes e sequências, acha que Hollywood vive uma crise criativa?
Pearce: Robert Downey Jr. não precisa fazer outro filme e ele foi muito claro desde o começo: só quero voltar se tivermos algo novo a dizer. Gosto de pensar que conseguimos, que temos um sabor único no nosso gênero, que chegamos a pontos de vistas e temas que não estavam lá. Dito isso, adoraria um mundo em que existissem muitos filmes originais a cada verão. Não tenho nenhum problema com filmes que adaptam material que já existia. Se não fizéssemos isso, não teríamos "O Poderoso Chefão". Mas seria ótimo se isso fosse equilibrado com ideias originais e também reformulações, porque muitas refilmagens são tão diferentes que poderiam ser ideias originais. Fiquei muito animado em escrever "Círculo de Fogo" (ficção científica dirigida por Guillermo del Toro sobre batalhas entre criaturas gigantes e robôs, com estreia prevista para 9 de agosto no Brasil) e torço para que seja um sucesso gigante. Minha contribuição ao roteiro é muito menor do que em "Homem de Ferro 3", mas talvez o sucesso deste longa possa fazer com que outros cineastas tenham ideais originais, da mesma forma que George Lucas criou "Guerra nas Estrelas".

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