"Rasgo meu coração em todos os filmes", diz Tata Amaral sobre "Hoje"

Por Luísa Pécora , iG São Paulo | - Atualizada às

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Longa com Denise Fraga sobre um casal que revive traumas da ditadura militar é o mais pessoal da diretora

A diretora paulistana Tata Amaral tinha três anos quando o golpe de 1964 instaurou no Brasil a ditadura militar, tema de seu novo trabalho, "Hoje", que estreia nesta sexta-feira (19). Ainda assim, este quarto longa é o mais pessoal da cineasta de "Um Céu de Estrelas", "Através da Janela" e "Antônia". "Rasgo meu coração em todos os filmes, mas este é o mais íntimo", afirmou, em entrevista ao iG.

Vencedor do Festival de Brasília de 2011, "Hoje" se passa em 1998 e conta a história de Vera (Denise Fraga), ex-militante política que está de mudança para um novo apartamento no centro de São Paulo. A conquista só foi possível com a indenização recebida pelo desaparecimento durante a ditadura do marido, Luis (o uruguaio Cesar Trancoso, de "O Banheiro do Papa"), e se vê ameaçada quando ele reaparece, após 30 anos.

Crítica: "Hoje" usa história de amor para discutir traumas da ditadura

Imagem do filme 'Hoje'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Hoje'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Hoje'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Hoje'. Foto: Divulgação

O reencontro força um acerto de contas dos dois com os acontecimentos do passado, principalmente ligados à tortura. Mas o tom intimista faz com que "Hoje" seja, também, uma história de amor. "É um filme sobre saudade e perda", disse Amaral, que ficou viúva do primeiro marido aos 19 anos, quando a filha do casal tinha três meses.

Foi principalmente esse aspecto de sua trajetória pessoal que a ligou ao livro de "Prova Contrária", de Fernando Bonassi, que inspirou o roteiro de Jean-Claude Bernardet. "Me chamou muito a atenção quando, no livro, Vera diz que sentiu tanta falta de Luis que pensou em morrer", contou Amaral. "Eu também pensei em me matar quando meu marido morreu. O que Vera descreve em cena vem de mim, é algo que escrevi porque vivi."

Divulgação
Filmagens de 'Hoje' em SP

Diante de um roteiro tão focado em emoções, a diretora buscou expressar os conflitos internos dos personagens também nos aspectos formais do longa.

Por isso, optou por uma história com poucos personagens (além de Vera e Luis, apenas dois carregadores, uma vizinha e uma amiga), que durasse apenas um dia e tivesse praticamente apenas um cenário: o apartamento. Sem o uso de flashback, os detalhes da trama são conhecidos aos poucos pelo espectador.

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Amaral também inseriu projeções visuais que quebram o realismo da narrativa e dão um aspecto teatral a "Hoje" que ela diz não ver. "Acho que o filme é muito de cinema e que esse tipo de coisa é muito de cinema", afirmou. "Busquei encontrar uma forma de expressão que desse às emoções um status de coisa concreta. O que Vera e Luis sentem está no mesmo plano que as caixas e os carregadores que fazem a mudança."

O título, "Hoje", busca mostrar a relevância de se discutir o período militar, baseado na ideia de que o passado molda o presente e o futuro. "Não contamos uma história que aconteceu naquela época, mas, sim, sobre como as pessoas que passaram por ela chegaram aos dias atuais", disse a diretora. "Vivemos um momento de pujança econômica e uma democracia, mas ainda não discutimos a tortura verdadeiramente. É importante iluminar estes episódios."

Documentários reunidos por Amaral para a minissérie "Trago Comigo", da TV Cultura, foram o principal material de pesquisa dos atores. Trancoso não sentiu necessidade de fazer uma laboratório específico sobre a situação brasileira. "A ditadura no Uruguai foi muito parecida, com desaparecimentos, tortura. Já tinha muita informação sobre isso", afirmou. "Nos dois casos, tenho a impressão de que estes temas não estão bem fechados. Há muito a ser esclarecido."

Conhecida principalmente pelos papéis cômicos, Fraga considera Vera sua personagem mais dramática e uma das mais complexas. “Ela tem muitas camadas: quer esquecer, quer lembrar, tem orgulho, tem ódio. Tudo é muito ambíguo, há um show de contradições dentro dela”, disse a atriz. “Acho que histórias íntimas como essas, que falam sobre o misto de sentimentos que envolve esse período, podem nos ajudar a ir sovando a massa.”

Sem “um tostão” para divulgação, Amaral conta com o boca a boca do público para que o filme possa ser visto nas 12 salas em que entra em cartaz em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Maceió. “Não tenho nenhuma estratégia a não ser torcer para que as pessoas queiram ver um filme brasileiro”, afirmou.

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