Atores que falam inglês fazem 'carreira paralela' em filmes estrangeiros

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Artistas como Viggo Mortensen, fluente em espanhol, e Kristin Scott Thomas, que domina o francês, aceitam os riscos de dar um tempo de Hollywood para se aventurar em outro idioma

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Em seu mais recente filme, um suspense chamado "Todos Tenemos un Plan" (Todo Mundo Tem um Plano, em tradução literal), Viggo Mortensen interpreta dois irmãos gêmeos, um médico passando por uma crise de meia idade e um sujeito mal sucedido envolvido em diversos tipos de negócios obscuros.

Em seu mais recente papel, no longa "Dentro da Casa", Kristin Scott Thomas interpreta uma diretora de galeria de arte cujo casamento começa a passar por problemas quando seu marido, um professor de literatura do ensino médio, desperta um interesse excessivo por uma aluna.

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Mortensen já interpretou personagens com problemas existenciais anteriormente, é claro, em filmes como "Senhores do Crime" e "Uma História de Violência". Como demonstraram "O Paciente Inglês" e "Assassinato em Gosford Park", Scott Thomas frequentemente interpreta personagens friamente elegantes. Desta vez, no entanto, há uma enorme diferença: no filme, filmado ao redor da cidade de Buenos Aires, na Argentina, Mortensen fala apenas espanhol; Scott Thomas fala apaenas francês em "Dentro da Casa", que se passa nos arredores de uma cidade sem nome na França.

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Viggo Mortensen em cena de 'Todos Tenemos un Plan'

Ambos os artistas, que já foram indicados ao Oscar, são exemplos de atores que falam inglês e construíram carreiras paralelas em outras línguas. Scott Thomas fez mais de uma dúzia de filmes em francês, recebendo várias indicações ao Cesar, o equivalente da França ao Oscar. Mortensen ganhou elogios semelhantes por sua interpretação (em espanhol) de um soldado do século 17 no filme "Alatriste". O longa lhe rendeu uma indicação em 2006 a um prêmio Goya, o Oscar espanhol.

"Gosto de desafios", disse Mortensen, questionado sobre o motivo de ter atuado em "Todos Tenemos Un Plan", que estreou no dia 22 de março nos Estados Unidos. "Leio tudo que recebo e mantenho a mente aberta. Enquanto continuar tentando fazer coisas novas, estarei sempre me reinventando".

Leia também: Ozon faz jogo entre imaginação e realidade em "Dentro de Casa"

Devido ao fato de tão poucos filmes estrangeiros entrarem no mercado americano, há pouca consciência por parte do público de que muitos outros nomes consagrados também se aventuraram nesse território.

Gillian Anderson recentemente atuou em um filme francês da diretora Ursula Meier, "Minha Irmã". Kevin Kline também atuou no filme francês "Xeque-Mate", no qual interpreta um médico americano viúvo que vive na Córsega e recupera seu entusiasmo pela vida através do ensino de xadrez para sua faxineira, interpretada por Sandrine Bonnaire.

Mais atores, incluindo aqueles com grande apelo de bilheteria em Hollywood, poderiam seguir o mesmo caminho, se quisessem. Afinal, Sandra Bullock é fluente em alemão, Bradley Cooper e Emma Thompson falam francês e Colin Firth fala italiano (embora com sotaque).

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Kristin Scott Thomas no filme 'Dentro de Casa'

Porém, Mortensen acredita que a estrutura da indústria cinematográfica pode desencorajar americanos e outros atores de língua inglesa a aceitarem papéis em filmes de língua estrangeira. Embora seja comum para europeus irem a Hollywood para interpretar papéis em inglês (algo que remonta aos tempos de Charles Boyer ou Sophia Loren), quando um ator americano decide se aventurar no mercado estrangeiro, pode haver consequências.

"Se você possui uma carreira sólida na televisão ou no cinema nos Estados Unidos e está indo bem, sair e fazer um filme que é obscuro para o mercado americano, em outro país e outra língua, pode ser uma aventura divertida, mas certamente não será algo que você gostaria de fazer mais do que uma ou duas vezes", disse Mortensen. "Isso significa que estaria fora do circuito, perderia notoriedade. Há um certo perigo. Muitas pessoas em Los Angeles poderão se esquecer de você."

Embora Mortensen esteja atualmente vivendo em Madri, na Espanha, onde no ano passado foi destaque na peça "Purgatorio", de Ariel Dorfman, ele disse que não necessariamente busca "fazer algo em um idioma diferente do inglês".

Ele viaja regularmente para a Argentina e, durante uma de suas visitas, a diretora e roteirista Ana Piterbarg se aproximou dele para lhe mostrar um roteiro que havia co-escrito. "Sempre presto atenção à história e o que ela me mostrou era uma grande história", explicou. "Eu não faria um filme argentino só por fazer um filme argentino".

François Ozon, que dirigiu Scott Thomas em "Dentro da Casa" e Charlotte Rampling em "A Piscina", sustentou que "a tradição francesa é muito especial" em acolher artistas da língua inglesa, “pois adoramos atrizes estrangeiras e sotaques".

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Kevin Kline em cena de 'Xeque-Mate'

Há, de fato, uma longa tradição de atrizes e atores americanos esculpindo nichos no cinema francês: Jean Seberg, nascida em Iowa, foi uma das musas da nouvelle vague, e Jane Fonda fez incursões em filme franceses no início de sua carreira e recentemente voltou para interpretar Stephane Robelin em "E se Vivêssemos Todos Juntos?". Eddie Constantine atuou em filmes de gângster e no filme "Alphaville", de Godard, após sua carreira americana ter estagnado, e John Malkovich participou de dois filmes e séries de televisão para o mercado francês.

Não está claro se optar por uma carreira paralela em uma língua estrangeira é um fenômeno que se tornará mais comum, ou se pessoas como Mortensen e Scott Thomas estão destinadas a permanecer uma exceção à regra. Certamente o grupo de atores na faixa dos 20 e 30 anos com conhecimentos suficientes de uma outra língua está aumentando: Mila Kunis falava apenas russo até imigrar para os Estados Unidos aos 7 anos de idade, Natalie Portman fala fluentemente hebraico, Morena Baccarin e Jordana Brewster são bilingues em português e Joseph Gordon-Levitt ganhou elogios na França por seu domínio do idioma francês.

Será que mais atores deveriam se arriscar nesse nicho de mercado? Quando questionado sobre isso, Mortensen, que está prestes a fazer outro filme em espanhol com o diretor argentino Lisandro Alonso e ainda este ano interpretará seu primeiro papel na adaptação francesa da história "L'Hote", de Albert Camus, por David Oelhoffen, deu uma resposta encorajadora.

"Claro, por que não?", disse. "Isso não vai te matar. Você definitivamente aprenderá alguma coisa com essa experiência. É tão agradável atuar em um idioma diferente quanto é interpretar alguém de uma época diferente ou de uma região diferente dos Estados Unidos. Então se você tem uma certa facilidade com idiomas estrangeiros, eu diria: vá em frente”.

Por Larry Rohter

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