Ken Loach junta comédia social e uísque escocês em "A Parte dos Anjos"

Por Reuters |

compartilhe

Tamanho do texto

Diretor retrata história de homem que tem de cumprir 300 horas de serviço comunitário

Reuters

A autenticidade do ator estreante Paul Brannigan, na pele de Robbie, o protagonista desempregado e na mira da lei de "A Parte dos Anjos", de Ken Loach, é total.

A vida real de Brannigan, ex-presidiário e viciado, é até bem pior do que a de seu personagem, mas ele está dando a volta por cima, dentro e fora da tela. O filme venceu o Prêmio do Júri do Festival de Cannes 2012.

Como no inédito no Brasil "Sweet Sixteen" (2002), também de Loach, o cenário é a sombria Glasgow. Em compensação, mudou da água para o uísque, por assim dizer, o clima da história.

Divulgação
Os desajustados de 'A Parte dos Anjos'

Se o contexto continua o mesmo - desemprego e violência entre os jovens -, o tom fortemente dramático do filme de 11 anos atrás é suavizado aqui por um tom de comédia, o que não quer dizer que se procure maquiar uma dura e permanente realidade.

Robbie está num dilema. Tem um largo histórico de brigas e agressões, o que lhe garantiu uma robusta ficha policial. Agora mesmo, acaba de se envolver em mais um episódio de violência.

Leia também: Ken Loach faz comédia subversiva sobre crise e uísque

Escapa por um triz de um período na cadeia. Em compensação, tem 300 horas de serviço comunitário a cumprir. Bem agora, um filho acaba de chegar: Luke, bebê que ele teve com a namorada Leonie (Siobhan Reilly) que, com toda a razão, lhe cobra que tome juízo de uma vez por todas.

Divulgação
Cena de 'A Parte dos Anjos'

Não é muito fácil escapar de encrencas quando o próprio "sogro", dono de alguns negócios escusos, e seus comparsas, além de outros desafetos de Robbie, vivem no seu encalço, querendo dar uma sova no garoto franzino, mas valentão. Mas ele está disposto a tentar.

Harry (John Henshaw), o supervisor do serviço comunitário, é uma figura paternal, que tem a maior paciência com as confusões criadas por Robbie, Rhino (William Ruane), Albert (Gary Maitland), Mo (Jasmin Riggins) e seus outros protegidos. Tanto que leva todo mundo a uma visita a uma das muitas destilarias do renomado uísque escocês.

Além do turismo e das amostras da preciosa bebida, Robbie aproveita ali uma descoberta inesperada - submetido a uma prova, ele percebe que tem um paladar refinado para identificar os diferentes maltes.

O novo talento abre caminhos - nem todos legais. O que leva a uma reflexão sobre o que é ou não legítimo, especialmente tendo em mente a velha máxima de Robin Hood, tomar dos ricos para dar aos pobres.

Nem poderia ser de outra maneira num filme do sempre engajado diretor inglês, com roteiro escrito por seu habitual parceiro, o escocês (nascido na Índia) Paul Laverty.

Pensando em toda a longa carreira de Loach e nos filmes da dupla, a diferença de "A Parte dos Anjos" está no humor - que sempre comparece em alguns momentos de seus filmes, mas raramente predomina como aqui.

Nem por isso se abre mão do comentário social, que fica nas entrelinhas, menos ostensivo do que nos recentes "Rota Irlandesa" (2010) e "Ventos da Liberdade" (Palma de Ouro em 2006), mas costurado no contexto.

Loach e Laverty nunca abandonam seu território, o dos deserdados da sorte e da economia. Mas, desta vez, injetaram todo o humor possível. Como sempre, da ternura eles nunca abrem mão.

Leia tudo sobre: a parte dos anjosken loachcinema

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas