Irmãos Taviani filmam crônica shakespeariana em "César Deve Morrer"

Por Reuters |

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Atores do premiado longa foram escolhidos entre detentos de uma prisão de segurança máxima nos arredores de Roma

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Filme vencedor do Urso de Ouro do Festival de Berlim 2012, "César Deve Morrer" não parece ter sido feito por dois diretores octogenários, no caso, os irmãos italianos Paolo e Vittorio Taviani.

Filmando juntos há quase 60 anos, donos de uma Palma de Ouro em Cannes por "Pai Patrão" (1977) e várias obras que os consagraram, como "Allonsanfan" (1974), "Kaos" (1984) e "Bom Dia Babilônia" (1987), eles realizaram aqui seu primeiro filme em digital, quase inteiramente em preto-e-branco e, o que é mais inusitado ainda, escolheram como elenco detentos da prisão de segurança máxima Rebibbia, nos arredores de Roma.

Leia também: "É nosso prêmio mais importante", diz Paolo Taviani em Berlim

Divulgação
Cena de "César Deve Morrer"

A imensa prisão, aliás, é também o cenário da maior parte deste docudrama, que acompanha uma montagem da peça "Júlio César", de William Shakespeare, por um grupo de prisioneiros.

Contando com a parceria de um diretor teatral, Fabio Cavalli - creditado como corroteirista -, os Taviani lançam-se a esta experiência, começando pela escolha dos intérpretes. Colada ao rosto dos candidatos, a quem se pede apenas que digam seus nomes e de onde vêm, a câmera parece entrar por debaixo de sua pele e expor a impressionante afinidade entre seus semblantes marcados e a trama da peça, calcada na conspiração para assassinar o imperador Júlio César.

Getty Images
Os irmãos Vittorio e Paolo Taviani com o Urso de Ouro

Habilmente, os Tavianis exploram esse apagamento da fronteira entre vida e arte, entre realidade e encenação, usando o próprio ambiente da prisão como cenário principal, já que o filme se ocupa principalmente dos ensaios da peça.

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As paredes nuas e descascadas, a luz natural que escoa de janelas gradeadas, os altos muros transformam-se sem artifício nos corredores do Fórum Romano e dos palácios da ficção, sem que para isso o espectador precise mais do que acompanhar a impressionante dedicação de seus intérpretes - confirmando que neste lugar, em que toda a esperança parece perdida, pode igualmente renascer a essência de um teatro que se aproxime da complexidade da vida.

Ficam na memória as performances de Salvatore Striano, como Brutus, Cosimo Rega, como Cássio, e Giovanni Arcuri, como César, todos eles homens que têm nas costas crimes como assassinato ou tráfico. Não há como deixar de pensar na inquietante ambiguidade da natureza humana.


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