Com baixo orçamento, diretor estreante e elenco amador, longa estrelado pela talentosa Quvenzhané Wallis consegue traçar incomum trajetória de sucesso

Orçamento nanico, diretor estreante, elenco formado basicamente por atores amadores e uma protagonista que tinha apenas seis anos durante as filmagens. “Indomável Sonhadora”, que estreia nesta sexta-feira (22), é o último dos nove indicados a melhor filme no Oscar 2013 a chegar ao Brasil e, talvez, o que vai mais contra o gosto usual da Academia.

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A surpreendentemente bem-sucedida trajetória do longa começou em janeiro do ano passado, quando conquistou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Sundance. Quatro meses depois, levou o troféu dedicado a diretores estreantes em Cannes, consolidando um sucesso de crítica que se transformou, também, em público acima do esperado. Nos Estados Unidos, o filme arrecadou US$ 12,6 milhões (R$ 24,7 milhões), muito mais do que o orçamento de US$ 1,8 milhão (R$ 3,5 milhões).

Só por essa cifra, “Indomável Sonhadora” já mereceria o título de “indie” do Oscar – o segundo orçamento mais baixo entre os indicados é o do austríaco “Amor” , que custou US$ 11,8 milhões (R$ 23,1 milhões), enquanto o mais alto é o de “As Aventuras de Pi” (US$ 120 milhões, ou R$ 235 milhões). Mas outros elementos diferenciam este filme dos que costumam ser lembrados pela Academia, entre eles o fato de o cineasta Benh Zeitlin, 30 anos e também indicado a diretor, ter escolhido filmar em uma parte remota do sul do Estado da Louisiana, e não em grandes cidades norte-americanas como Los Angeles e Nova York, onde nasceu.

É na Louisiana que está localizada Nova Orleans, duramente castigada pelo furacão Katrina  em 2005. Nem a cidade nem a tragédia são mencionadas em “Indomável Sonhadora”, apesar de parecerem presentes em grande parte das cenas. Poupando o espectador de mensagens "eco-chatas", Zeitlin leva ao cinema a história de uma comunidade alternativa que vive à beira de um rio, separada da civilização moderna por uma barragem.

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Quvenzhané Wallis posa para fotos no prêmio do Sindicato dos Diretores em Los Angeles
AP
Quvenzhané Wallis posa para fotos no prêmio do Sindicato dos Diretores em Los Angeles

No local, apelidado de “Banheira”, a criativa Hushpuppy (Quvenzhané Wallis), de seis anos, vive com o pai, Wink (Dwight Henry). Abandonada pela mãe, ela passa seus dias rodeada por plantas e animais em uma cabana tomada por enorme quantidade de objetos descartados e lixo, numa espécie de ferro-velho. A condição é de pobreza e dificuldade, mas, assim como o restante da comunidade, pai e filha não pensam em sair dali.

Tal convicção é abalada pela passagem de uma forte tempestade que cria um verdadeiro cenário de apocalipse. Muitos deixam a Banheira e os que decidem ficar, como Wink e Hushpuppy, têm de buscar abrigo e procurar comida, enquanto a água se recusa a descer e os animais também começam a ser vítimas da tragédia.

O escape da menina é a própria imaginação, seja nas conversas imaginárias com a mãe, nas histórias desenhadas em caixas e no chão, ou na criação de episódios fantásticos como o estouro de uma manada de auroques (espécie de boi selvagem já extinto), sempre em paralelo à tempestade. Esse tipo de sonho permite que Zeitlin crie cenas visualmente belas, ainda que insuficientes para compensar a falta de um enredo envolvente. O excesso de narração feita por Hushpuppy agrava a falta de ritmo, tirando um pouco da força de "Indomável Sonhadora".

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O diretor se sai melhor quando centra o enredo na forte relação entre pai e filha, marcada por um afeto profundo, mas escondido pela dureza e violência com que Wink trata Hushpuppy. Alcoólatra e acometido por uma grave doença, ele tenta ensiná-la, do jeito que sabe, a sobreviver sozinha em um mundo inóspito. Dono de uma padaria de Nova Orleans na vida real, Henry tem ar de quem carrega o peso do mundo nas costas e foi uma excelente escolha para o papel de Wink.

Wallis também nunca tinha atuado e conseguiu a vaga após ser escolhida entre mais de 3,5 mil crianças da Louisiana. Hoje aos nove anos, a mais jovem indicada ao Oscar de melhor atriz da história tem talento de verdade e recursos dramáticos que vão além do carisma típico da idade. É, sem dúvida, a alma de um filme bonito e original, ainda que imperfeito.

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