Criança indígena que não sabia falar português vira atriz de "Tainá - A Origem"

Por Luísa Pécora - iG São Paulo |

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Aos cinco anos, Wiranu Tembé foi escolhida para protagonizar terceiro filme de saga que aposta na cultura brasileira como diversão para o público infantil

O que era para ser uma entrevista formal com o elenco do filme “Tainá – A Origem”, que estreia nesta sexta-feira (8), começou de forma inusitada: três crianças descalças, cantando uma música indígena e correndo pela sala de um hotel em São Paulo. A cena dá o tom de brincadeira que reinou durante as filmagens do longa, uma fantasia ambientada na Amazônia e cuja protagonista, Wiranu Tembé, é uma índia de verdade que até ganhar o papel-título nunca tinha saído de sua tribo e não falava português.

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Imagem de "Tainá - A Origem". Foto: DivulgaçãoImagem de "Tainá - A Origem". Foto: DivulgaçãoImagem de "Tainá - A Origem". Foto: DivulgaçãoImagem de "Tainá - A Origem". Foto: DivulgaçãoImagem de "Tainá - A Origem". Foto: DivulgaçãoImagem de "Tainá - A Origem". Foto: DivulgaçãoImagem de "Tainá - A Origem". Foto: DivulgaçãoImagem de "Tainá - A Origem". Foto: DivulgaçãoImagem de "Tainá - A Origem". Foto: DivulgaçãoImagem de "Tainá - A Origem". Foto: DivulgaçãoImagem de "Tainá - A Origem". Foto: DivulgaçãoImagem de "Tainá - A Origem". Foto: DivulgaçãoImagem de "Tainá - A Origem". Foto: DivulgaçãoImagem de "Tainá - A Origem". Foto: DivulgaçãoImagem de "Tainá - A Origem". Foto: DivulgaçãoImagem de "Tainá - A Origem". Foto: Divulgação

O filme é o terceiro da saga infantil que estreou há 12 anos (juntos, os dois primeiros levaram mais de 1,5 milhão de brasileiros ao cinema), mas sua história é a primeira cronologicamente. Hoje com 20 anos, a intérprete original de Tainá, Eunice Baia, teve de ser substituída no longa que mostra a protagonista ainda criança, combatendo um inimigo ancestral de sua família para evitar a destruição da floresta.

A produção saiu em busca de uma nova atriz e descobriu Wiranu, então com cinco anos, na Aldeia Tekohaw, no Pará. Sem experiência profissional e falando apenas tupi, a menina se destacou em meio a 2,2 mil garotas selecionadas para testes, ficou entre as 13 finalistas e finalmente conseguiu o papel. “Ela tinha um olhar virgem, sem expectativa, e respondia muito rápido aos comandos. Era a Tainá em todos os sentidos”, garantiu o preparador de elenco, Claudio Barros, em entrevista ao iG.

Luísa Pécora
Igor Ozzy, Wirany Tembé e Beatriz Noskoski com o preparador de elenco, Claudio Barros

O primeiro passo foi familiarizar Wiranu com o português, que em sua aldeia é ensinado apenas a crianças mais velhas. Hoje com oito anos, ela afirma que não foi difícil aprender e que já se sente à vontade ao lado de pessoas de fora e em ambientes diferentes do seu. “Está sendo normal, gostoso”, afirmou, sobre a experiência.

De poucas palavras, Wiranu só abandonou o modo calmo de falar ao ser questionada sobre se gostaria de dar sequência à carreira de atriz. “Siiiim!”, gritou, erguendo os braços.

O treinamento de Wiranu e das outras crianças do elenco (o paulista Igor Ozzi e a paranaense Beatriz Noskoski), ficou a cargo de Barros e aconteceu em plena floresta Amazônica. Durante três meses, não houve menção a personagens ou cenas, apenas jogos como correr com um arco e flecha ou subir em uma árvore e depois pular no rio. “Nosso objetivo era criar um universo natural e dentro da dinâmica que eles conhecem, que é a brincadeira. Essa era a linguagem que eles dominavam”, disse.

No set, a diretora Rosane Svartman tentou preservar o mesmo clima. “Não dá para passar o peso do set para o elenco infantil”, explicou. “O grande desafio de um filme para crianças com crianças protagonistas é deixá-las à vontade, brincando. É preciso convencê-las a fazer o que você acha que é importante para o filme, mas de forma leve, sem que pareça tão importante quanto é.”

Outro desafio foi encontrar o tom adequado para tratar de temas como a morte (Tainá é órfã) e incluir cenas de confronto sem assustar a plateia. “Em desenho é possível mostrar mais. Aqui não podíamos ter sangue ou violência”, disse a diretora. “Tivemos grande dificuldade em saber até onde o vilão poderia ir, para as crianças não chorarem e saírem correndo. Mas elas também tinham de acreditar no bandido, porque uma heroína sempre está à altura de seu antagonista.”

Divulgação
Wiranu Tembé sendo caracterizada como Tainá

Svartman batalhou para que o filme fosse inteiramente rodado na Amazônia e não na Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro, como sugeriu um dos produtores na tentativa de cortar gastos. Quando conseguiu o sinal verde, a diretora se comprometeu a não extrapolar o prazo de oito semanas de filmagem e a cortar do roteiro o que não pudesse ser filmado neste período. Apesar das dificuldades de firmar com crianças, animais e condições climáticas imprevisíveis, ela disse ter voltado para casa com todos os takes que queria e dentro do orçamento de cerca de R$ 10 milhões.

Mãe de dois meninos e preparando a versão cinematográfica da peça “Pluft, o Fantasminha”, Svartman vê o cinema infantil como um nicho pouco explorado da produção nacional – apesar de estar ciente das dificuldades comerciais do gênero, como a impossibilidade de sessões noturnas e a estreia nas férias, época em que blockbusters estrangeiros dominam as salas.

“Temos poucos filmes voltados para esse público, mas só é possível formar plateia com quantidade”, afirmou. “Estamos falando da construção de uma identidade brasileira, de crianças que estão vendo a nossa floresta e personagens que falam a nossa língua. Tudo bem, é legal ver esquilos em Nova York. Mas será que ver uma onça na Floresta Amazônica não é legal também?”

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