Longo, cansativo e com muita cantoria, "Os Miseráveis" é só para fãs de musicais

Por Luísa Pécora - iG São Paulo |

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Indicado a oito Oscar, longa estrelado por Hugh Jackman, Russell Crowe e Anne Hathaway tem praticamente todas as falas cantadas

É bastante provável que a sua apreciação de “Os Miseráveis”, que estreia nos cinemas brasileiros nesta sexta-feira (1º), dependa da resposta dada à seguinte pergunta: “Você gosta muito de musicais?”. Se sim, deverá se emocionar com esta superprodução cheia de astros. Se não, bem-vindo à tortura: um filme de 2 horas e 38 minutos no qual praticamente todas as falas são cantadas.

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Anne Hathaway em  'Os Miseráveis'. Foto: DivulgaçãoAnne Hathaway em  'Os Miseráveis'. Foto: DivulgaçãoHugh Jackman em 'Os Miseráveis'. Foto: DivulgaçãoAnne Hathaway em  'Os Miseráveis'. Foto: DivulgaçãoRussell Crowe em 'Os Miseráveis'. Foto: DivulgaçãoCena de 'Os Miseráveis', dirigido por Tom Hooper. Foto: DivulgaçãoAnne Hathaway em  'Os Miseráveis'. Foto: DivulgaçãoHugh Jackman em 'Os Miseráveis'. Foto: DivulgaçãoRussell Crowe e Hugh Jackman em 'Os Miseráveis'. Foto: DivulgaçãoCena de 'Os Miseráveis', dirigido por Tom Hooper. Foto: DivulgaçãoCena de 'Os Miseráveis', dirigido por Tom Hooper. Foto: Divulgação

Alguns dos musicais mais bem-sucedidos da última década, como “Chicago” e “Mamma Mia!”, conseguiram atrair um público diversificado ao intercalar canções e cenas “normais”, nas quais os personagens apenas dialogam, sem cantarolar. Não é o caso de “Os Miseráveis”, inspirado no romance de Victor Hugo, que opta por contar sua história totalmente através da música.

Ambientado na França entre 1815 e 1832, o filme pode ser dividido em duas partes. Na primeira, somos apresentados a Jean Valjean (Hugh Jackman), homem pobre preso por roubar um pão. Após cumprir pena de 19 anos sob os maus-tratos do inspetor Javert (Russell Crowe), ele obtém liberdade condicional, mas continua marginalizado e impedido de reconstruir sua vida. Sem alternativa, foge, assume outra identidade e, anos depois, torna-se prefeito de uma cidade francesa.

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Cena de "Os Miseráveis"

Na segunda parte, Valjean volta à condição de foragido, após ser identificado por Javert, que o persegue por toda parte. Dessa vez, ele foge junto com Cosette (Amanda Seyfried), menina que cria como filha desde que a mãe, Fantine (Anne Hathaway), caiu em desgraça nas ruas. Agora uma bela jovem, Cosette se apaixona por Marius (Eddie Redmayne), garoto rico que se finge de pobre para se unir ao movimento que tenta derrubar o rei Luís Filipe.

Com tanta história para contar, o diretor Tom Hooper, vencedor do Oscar por “O Discurso do Rei”, não economiza na grandiosidade de cenários e figurinos, bem como nos constantes movimentos de câmera e no uso de close-up.

Hooper também tomou a arriscada decisão de fazer com que os atores cantassem suas músicas de verdade, sem o playback usado na imensa maioria dos musicais. A louvável tentativa de dar naturalidade às cenas, porém, requer um elenco altamente qualificado, capaz de dar conta do recado sem a ajuda da gravação em estúdio.

Em "Os Miseráveis", os resultados são mistos. Hathaway vai bem em seu único momento de destaque, mostrando talento vocal com “I Dreamed a Dream” (que voltou a ser hit recentemente na voz da britânica Susan Boyle). É uma cena com toda a cara de Oscar, e não por acaso a atriz já está praticamente com as mãos na estatueta de coadjuvante.

Seyfried, que atuou em “Mamma Mia!”, é muito superior ao fraco Redmayne, mas não o suficiente para salvar as cenas de amor adolescente melosas e sem graça entre os dois. Como um casal de vigaristas, Helena Bonham Carter e Sasha Baron Cohen parecem deslocados, tentando dar humor a um roteiro pesado - sem sucesso.

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Russell Crowe em "Os Miseráveis"

Vencedor do Tony por seu trabalho na Broadway, Jackman tem ótima voz e a usa ao máximo para carregar o filme nas costas. Nem sempre dá certo, mas sua presença na tela é quase um conforto - a aparição de um ator carismático que parece saber o que está fazendo.

É o completo oposto de Russell Crowe, um verdadeiro desastre no papel de Javert, não apenas pelo pouco alcance vocal mas por simplesmente não combinar com o gênero musical. Claramente desconfortável, Crowe é encarregado de alguns dos momentos mais tensos do filme. Mas quando ele aparece com seu uniforme azul em um telhado de Paris cantando para as estrelas, fica difícil conter o riso.

Outros elementos parecem destoantes, como o fato de um momento histórico tão francês ser contado – ou cantado – por atores de outros países e em inglês. Nada contra a licença poética, mas chega a ser ridículo ver Hathaway soltando “bonjour” e “pardon” aqui e ali, ou personagens com fortíssimos sotaques britânicos, e até caracterizados como tal, gritando “Vive La France!”.

Gritando e cantando, claro, porque no meio de tamanha bagunça a música não pode parar. Na balada “In My Life”, Valjean diz à filha que “algumas palavras é melhor não ouvir, não dizer”. Após “Os Miseráveis”, tendo a concordar.

Veja o trailer:


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