Para diretor de 'Jorge Mautner', TV Globo faz 'um filme argentino por dia'

Por Luísa Pécora - iG São Paulo |

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Parceiro de Pedro Bial em documentário sobre o músico, Heitor D'Alincourt diz que Brasil tem de aprender a fazer cinema; leia entrevista com os três e veja cena exclusiva

Um dos músicos mais irreverentes do Brasil virou tema de um documentário com cara de ficção nas mãos dos cineastas Pedro Bial e Heitor D’Alincourt. Em “Jorge Mautner – O Filho do Holocausto”, que estreia nesta sexta-feira (1º), a dupla estabelece um objetivo claro: apresentar a carreira do cantor e compositor às gerações que só conhecem “Maracatu Atômico” na voz de Chico Science.

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Os já iniciados na obra de Mautner também têm motivos para ir ao cinema: as tradicionais entrevistas e imagens de arquivo são combinadas a um show gravado em estúdio especialmente para o filme, no qual o artista interpreta 26 canções, algumas na companhia de Gilberto Gil e Caetano Veloso, amigos que ganharam maior fama. Juntos, todos os recursos narrativos e musicais mostram como a trajetória incomum do cantor influenciou diretamente a sua obra.

Imagem de 'Jorge Mautner - O Filho do Holocausto'. Foto: Juliana TorresImagem de 'Jorge Mautner - O Filho do Holocausto'. Foto: Juliana TorresImagem de 'Jorge Mautner - O Filho do Holocausto'. Foto: ReproduçãoImagem de 'Jorge Mautner - O Filho do Holocausto'. Foto: ReproduçãoImagem de 'Jorge Mautner - O Filho do Holocausto'. Foto: Juliana TorresImagem de 'Jorge Mautner - O Filho do Holocausto'. Foto: Juliana TorresImagem de 'Jorge Mautner - O Filho do Holocausto'. Foto: Juliana TorresImagem de 'Jorge Mautner - O Filho do Holocausto'. Foto: Juliana TorresImagem de 'Jorge Mautner - O Filho do Holocausto'. Foto: Juliana TorresImagem de 'Jorge Mautner - O Filho do Holocausto'. Foto: Juliana TorresImagem de 'Jorge Mautner - O Filho do Holocausto'. Foto: Juliana Torres

Filho de um judeu austríaco e uma católica iugoslava que fugiram da Europa Oriental ocupada pelo governo nazista no início da década de 1940, Mautner viveu os primeiros anos da infância no Rio de Janeiro sob os cuidados da babá adepta do candomblé. Dessa mistura resultou um artista com um profundo amor pelo Brasil, que não tem dúvidas de que a diversa e original cultura do País "é e será a esperança da humanidade”.

Leia também: “O processo de ‘brasilificação’ está em avanço absoluto”, diz Mautner

Para contar essa história, Bial e D'Alincourt incorporaram elementos nem sempre comuns ao gênero documental. Os momentos em que Mautner lê trechos de "O Filho do Holocausto", livro autobiográfico que lançou em 2006, dão cara de ficção ao filme, assim como a luz, fotografia e direção de arte que quase funcionam como personagens. "A gente nunca quis aquele tipo de gravação com 300 câmeras, meio reality show. Pensamos em cada movimento", afirmou Bial, famoso pela apresentação do programa "Big Brother Brasil". "Diante da obra monumental do Jorge, o filme tinha que ser belo. Nada de cabeças falando em frente a estantes de livros ou samambaias.”

Com fotografia, edição e roteiro premiados no Festival de Gramado, o documentário produzido apenas com financiamento privado agora encara os obstáculos necessários para chegar até o público. O filme entrará em cartaz no Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife, Salvador, Juiz de Fora, Brasília e Macapá, num total de 30 salas - pouco se comparadas às 490 que atualmente exibem "De Pernas Para o Ar 2", mas acima das 18 de "O Som ao Redor".

Em termos de divulgação, o apoio da Globo Filmes deixa o documentário em posição mais confortável do que a maior parte dos títulos do gênero, garantindo inserções comerciais na TV Globo e até uma exibição para os participantes do "Big Brother Brasil".

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Dispostos a enfrentar a enxurrada de indicados ao Oscar que dominam os cinemas brasileiros nesta época do ano, os diretores de "Jorge Mautner" são contra a adoção de mecanismos que estabeleçam cotas para grandes produções internacionais. “O Brasil tem de aprender a fazer filme”, disse D’Alincourt. “O que o cinema argentino faz hoje também é feito na TV Globo, com muito gabarito e categoria. A TV Globo faz um (filme argentino) por dia em suas novelas. E as pessoas assistem."

Foto Rio News
Durante a coletiva de imprensa do filme 'Jorge Mautner – Filho do Holocausto' nesta quarta-feira (23) no Rio, apresentador contou que o documentário será exibido no BBB

Na entrevista ao iG, Bial e D’Alincourt falam sobre o processo de produção enquanto Mautner explica sua visão sobre o País. Autointitulado profeta, ele faz também uma previsão: “Todos os problemas do Brasil serão triturados”, afirmou. "Vocês vão viver 300, 400 anos e vão ver tudo isso acontecer."

iG: Por que vocês quiseram apresentar o Jorge Mautner às novas gerações?
Pedro Bial: É maravilhoso que essas gerações virgens de Jorge Mautner possam conhecê-lo. É uma delícia poder apresentá-los a ele e dizer: olha que livro interminável vocês têm para ler. E Jorge era adiante de seu tempo. Em certas pílulas ele foi palatável durante sua biografia, mas agora, no século 21, já nasceram as crianças que podem recebê-lo não como o maldito que ele foi tido por muito tempo, mas como alguém que sempre "bem disse".
Heitor D’Alincourt: Eu, particularmente, tenho muita admiração pelo Jorge. E achava inacreditável que ninguém tivesse pensado em fazer um projeto sobre ele. Então a gente fez.

iG: Como foi o processo de captação de recursos?
Bial: Este filme conta a história da geração do Jorge, que chegou ao poder com o Gilberto Gil (ministro da Cultura entre 2003 e 2008). No entanto, o filme não tem um tostão incentivado, ao contrário de toda a produção cinematográfica brasileira. Tudo foi patrocinado diretamente pela iniciativa privada. Essa independência era um desejo nosso por uma questão ética. Como vou pedir dinheiro para o Ministério da Cultura, chefiado pelo Gilberto Gil, para fazer um filme sobre o amigo dele? Sou cara de pau, mas nem tanto.

iG: E foi difícil bancar o filme sem dinheiro do governo?
Bial: Foi menos difícil do que a gente imaginava. A Unip (Universidade Paulista) percebeu que esse filme tem grande importância didática e educacional, porque a história do Jorge é a história do Brasil. Claro que para fazer documentário você usa recursos mínimos. A gente não vai competir com o Quentin Tarantino ou o Steven Spielberg. Temos o nosso nicho. E para atender a esse nicho é preciso trabalhar com orçamentos correspondentes.

Reprodução
Jorge Mautner e a filha, Amora

iG: O documentário estreia em um momento em que os cinemas estão cheios de lançamentos de grandes produções concorrentes ao Oscar. Como conseguir que o filme seja visto?
D’Alincourt: A (distribuidora) H20 quis lançar o filme nesse momento justamente porque há tanta oferta de blockbusters. Há um público carente que pode, por exemplo, querer assistir a um documentário musical. Então todos aqueles que tiverem vontade de ver algo mais alternativo poderão ver “O Filho do Holocausto”. É uma opção mesmo: encarar os blockbusters.

iG: Vocês são a favor de mecanismos que limitem o número de salas para grandes produções, deixando mais espaço para filmes menores?
D’Alincourt: Acho que o mercado é soberano. O Brasil tem de aprender a fazer filme. Isso aqui é uma potência? Isso aqui é um país de primeiro mundo agora? Então vamos aprender a fazer cinema e tirar as pessoas de casa para ver um filme. Na minha opinião, o que o cinema argentino faz hoje também é feito na TV Globo, com muito gabarito e categoria. A TV Globo faz um (filme argentino) por dia em suas novelas. E as pessoas assistem. Quem quiser fazer filme vai ter que ter esse padrão de qualidade para tirar alguém de casa. É o desafio dos produtores culturais dessa nação.
Bial: Tendo a concordar com o Heitor, ressaltando que isso já está sendo feito. A gente já tem produções brasileiras que demonstram que nosso cinema deu um grande salto de qualidade. Uma vez dado esse salto, resta ao nosso mercado exibidor se adaptar à nova realidade. No momento em que você se torna interessante como produto, o mercado abre caminho para você.
D'Alincourt: Temos a nossa querida Amora (Mautner, filha de Jorge e diretora da TV Globo, além de uma das entrevistadas no documentário), que segurou todo mundo em casa com (a novela) “Avenida Brasil”. Então vamos fazer também.

Exclusivo: Assista à apresentação de "Maracatu Atômico" em "Jorge Mautner":

iG: Jorge, o que foi mais emocionante para você durante as gravações: o depoimento da sua filha ou ver Gil e Caetano interpretando suas canções?
Jorge Mautner: O filme é todo emocionante, do primeiro ao último segundo. A presença da Amora foi impressionante, mas aconteceu o mesmo com Gil, Caetano, Nelson Jacobina, todos grandes amigos. Todos os artistas ali são irmãos, é tudo muito envolvente para mim. Além disso, é um documentário de primeira categoria estética, que tem emoção além do rigor. E com a emoção fica mais rigoroso ainda.

iG: Um dos pontos principais do filme é mostrar um amor pelo Brasil que o acompanha durante toda a vida e carreira. Como você vê o País hoje?
Mautner: O Brasil de hoje é o mesmo que eu via em 1956. A nova era nasceu no Brasil e hoje resplandece. No ano passado fiz uma continuação do Hino da Independência para o jornal O Globo que diz: “o mundo não bebe, não come e não respira sem o Brasil, mas o mais importante é o povo brasileiro”. Isso é um fato total, por isso que tudo está acontecendo aqui: pré-Copa, Copa, Olimpíada, visita do papa, tudo. Entre todos os povos e culturas, nós somos a amálgama (mistura de influências e opiniões que cria um novo caminho). Ela foi torpedeada de 1945 até a fundação de Brasília e a redemocratização por cronistas que queriam castigar Getúlio Vargas. E aí eles diziam: “O Brasil é coitadinho, temos que imitar a Bélgica, de produto nacional basta o índio”. Mas hoje essa amálgama é a esperança da humanidade. Ou o mundo se “brasilifica” ou se tornará nazista.

iG: Como autodenominado profeta, o que você vê para o futuro do País?
Mautner: A profecia é a seguinte: o Brasil é a esperança concreta da humanidade e do planeta. Nós temos o lugar mais fértil do globo terrestre. Os outros países que são continentes não têm floresta, matagal, não têm rios. Nós temos todos os aquíferos, as maiores bacias do mundo. A seca do Nordeste é uma bobagem, é só para receber dinheiro do departamento de secas. Na verdade tudo aquilo está em cima de aquíferos infinitos. Nós temos lugar para 2 bilhões de seres humanos tranquilamente. E nós temos só um terço da polícia necessária para o país - é a própria generosidade do povo brasileiro que constrói sua cidadania, com solidariedade e respeito. É a generosidade do povo brasileiro que faz o Brasil existir. Então todos os problemas do Brasil serão triturados perante tudo o que nós temos: urânio, tungstênio, cobalto, água, chuva e o povo brasileiro. O mundo precisa da postura do povo brasileiro, que tem sabedoria e cultura há muito tempo. Só faltou a educação linear, que lhe foi proibida, mas agora vai mudar com os royalties do petróleo. Vocês vão viver 300, 400 anos e vão ver tudo isso acontecer.

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