Favorito ao Oscar, "Lincoln" é filme opaco com atuação brilhante de Day-Lewis

Por Luísa Pécora - iG São Paulo |

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Ator é o destaque de cinebiografia sobre o presidente que encarou riscos políticos para acabar com a escravidão nos Estados Unidos

Steven Spielberg está acostumado a dirigir e produzir filmes grandiosos, premiados e bons de bilheteria. Seu trabalho mais recente, "Lincoln", que estreia nesta sexta-feira (25) no Brasil, segue a mesma linha: só nos Estados Unidos já arrecadou mais do que o dobro do orçamento de US$ 65 milhões (cerca de R$ 132 milhões) e é o campeão de indicações ao Oscar deste ano - são 12, número que o diretor só tinha alcançado antes com "A Lista de Schindler", há 20 anos.

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Apesar dos números impressionantes, "Lincoln" é dos filmes mais intimistas de Spielberg, no qual as espetaculares cenas de batalha e os efeitos visuais dão lugar a negociações políticas a portas fechadas. É, também, um sonho realizado do cineasta, que há mais de uma década queria filmar a trajetória de Abraham Lincoln, o 16º presidente dos Estados Unidos e, até hoje, um dos mais celebrados.

Daniel Day Lewis em cena de "Lincoln". Foto: DivulgaçãoDaniel Day Lewis em cena de "Lincoln". Foto: DivulgaçãoImagem do drama histórico "Lincoln". Foto: DivulgaçãoSally Field e Daniel Day Lewis em cena de "Lincoln". Foto: DivulgaçãoImagem do drama histórico "Lincoln". Foto: DivulgaçãoDaniel Day Lewis em cena de "Lincoln". Foto: DivulgaçãoImagem do drama histórico "Lincoln". Foto: DivulgaçãoImagem do drama histórico "Lincoln". Foto: DivulgaçãoImagem do drama histórico "Lincoln". Foto: DivulgaçãoSally Field e Daniel Day Lewis em cena de "Lincoln". Foto: DivulgaçãoImagem do drama histórico "Lincoln". Foto: DivulgaçãoImagem do drama histórico "Lincoln". Foto: DivulgaçãoDaniel Day Lewis em cena de "Lincoln". Foto: DivulgaçãoImagem do drama histórico "Lincoln". Foto: DivulgaçãoImagem do drama histórico "Lincoln". Foto: Divulgação

A cinebiografia, porém, não acompanha o líder desde a infância ou mesmo desde a sua chegada ao poder. O roteiro, baseado no terço final do best-seller "Lincoln", de Doris Kearns Goodwin (lançado neste mês no Brasil), se concentra nos quatro últimos meses de vida do ex-presidente, entre janeiro e abril de 1865. Lincoln, em segundo mandato, liderava um país dividido pela Guerra Civil, que já ultrapassava quatro anos e tinha saldo de cerca de 600 mil mortos.

Com a situação se tornando cada vez mais favorável para a União, a guerra parecia perto do fim.  Mas Lincoln ainda tinha com o que se preocupar: quando o conflito acabasse, a Justiça poderia revogar a proclamação de liberdade aos escravos concedida por ele usando poderes de guerra, sem que uma proposta tivesse sido enviada ao Congresso. Para o presidente, a única forma de evitar que isso acontecesse era aprovar uma emenda constitucional que abolisse a escravidão em todo o país.

Leia também: Veja a carreira de Steven Spielberg em números

AP
O diretor Steven Spielberg

A tarefa não era fácil. De um lado, os membros da ala radical do Partido Republicano, ao qual Lincoln pertencia, queriam adiar a votação para um momento em que a aprovação fosse mais provável. De outro, os conservadores priorizavam as negociações para o fim da Guerra Civil, e não da escravidão. Para complicar, o presidente ainda precisaria contar com o apoio de alguns congressistas do Partido Democrata, seu rival, para obter o mínimo de votos necessários.

Lincoln dá início, então, a um complexo processo de negociações para unir grupos diferentes, o que inclui pressões, concessões e ofertas de cargos, num retrato de um modo de fazer política muito parecido com o de hoje - a despeito de todas as mudanças que ocorreram no mundo e nos EUA desde então, a ponto de o 44º e atual presidente americano, Barack Obama, ser negro.

Enquanto mostra como os dilemas políticos eram duros para Lincoln, Spielberg também retrata os dramas pessoais do presidente, que durante o mandato perdeu um filho, vítima de febre tifoide, e teve de lidar com a instabilidade emocional da mulher, Mary.

No centro deste perfil generoso está o meticuloso trabalho do britânico Daniel Day-Lewis, que relutou em aceitar o papel que agora deve lhe render o terceiro Oscar. O ator estudou seu personagem por um ano e, em cena, reproduz cada detalhe: o jeito pesado e desajeitado de andar, a voz marcante e o modo entusiasmado de contar histórias, muitas vezes engraçadas, para reforçar um ponto de vista.

Saiba mais: 'Lincoln' e 'As Aventuras de Pi' lideram indicações ao Oscar 2013

A atuação brilhante de Day-Lewis destoa de um filme um tanto quanto opaco, que por vezes se parece com uma arrastada aula de história sobre um episódio bastante americano, com o qual o público brasileiro pode ter dificuldade de se relacionar (não por acaso, a versão exibida no Brasil apresenta uma breve contextualização do momento histórico).

Isso não significa que o filme seja ruim, até porque Spielberg tem talento e know-how cinematográfico suficiente para riscar do caderninho todos os itens tidos como indispensáveis a uma produção bem-feita: bela direção de arte (check); fotografia inspirada (check); elenco afinado (check); trilha sonora grandiosa (check). Fica faltando, porém, fazer com que o trabalho formal impecável resulte em um longa capaz de emocionar o espectador. "Lincoln" é correto e informativo, mas pouco arrebatador.

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