Kleber Mendonça Filho: 'Cinema do Brasil está achatado por megalançamentos'

Por Luísa Pécora - iG São Paulo |

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Em entrevista ao iG, diretor do premiado "O Som ao Redor" defende mecanismos para ajudar filmes brasileiros a serem vistos em meio a blockbusters estrangeiros

O cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho, 44 anos, recebeu uma grata surpresa no fim de 2012 quando seu primeiro longa-metragem, “O Som ao Redor”, foi incluído na lista de dez melhores filmes do ano do jornal americano “The New York Times”. Agora, ele espera que o reconhecimento internacional o ajude a atingir seu principal objetivo: que o filme, que estreia nesta sexta-feira (4), seja visto aqui mesmo, no Brasil.

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“Seria bom sair um pouco do cercadinho da cultura e ser descoberto por outras pessoas”, afirmou Mendonça Filho, em entrevista ao iG. Entre as dificuldades, segundo ele, está competir com blockbusters como “O Hobbit”e “Amanhecer”, que contam com divulgação ostensiva na imprensa, na internet e nas ruas e estão em cartaz em centenas de salas ao redor do País, enquanto “O Som ao Redor” consegue espaço em apenas alguns cinemas de São Paulo, Recife e Rio de Janeiro.

Divulgação
Kleber Mendonça Filho, diretor de "O Som ao Redor"

A expectativa de Mendonça Filho é que o sucesso do filme no circuito de festivais – “O Som ao Redor” foi premiado, por exemplo, na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, no Festival do Rio e no Festival de Roterdã, na Holanda – e boas notícias como a lista do “New York Times” furem o bloqueio dos grandes lançamentos.

Autor de seis curtas metragens, entre eles "Eletrodoméstica" (2005) e "Recife Frio" (2009), Mendonça Filho escreveu a primeira versão do roteiro de "O Som ao Redor" em apenas uma semana, para atender ao prazo do edital de Filmes de Baixo Orçamento do Ministério da Cultura. Venceu e, contando também com o apoio do governo de Pernambuco e da Petrobras, arrecadou os quase US$ 2 milhões utilizados para realizar o longa.

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Inicialmente intitulado “Histórico de Violência”, mas rebatizado para ser mais enigmático, “O Som ao Redor” retrata a rotina de uma rua de classe média na zona sul do Recife, transformada pela chegada de seguranças particulares que oferecem seus serviços aos moradores. Neste pequeno espaço, Mendonça Filho faz um retrato de uma cidade e de um País em transformação, no qual o crescimento não reduz o medo e onde as relações de classe se parecem com as do passado. Não por acaso, o diretor parece totalmente à vontade ao falar sobre o tema: a rua do filme é a que ele mora, a paranoia da insegurança também já foi dele e até o cachorro que enlouquece Bia, uma das personagens, tem paralelo na vida real. Há anos Mendonça Filho sofre com os latidos do weimaraner do vizinho. “Todos os filmes que fiz são extremamente pessoais e sobre coisas das quais acho que entendo”, afirmou.

Na entrevista ao iG, o diretor explica o motivo de ter fugido da fórmula do “favela movie”, conta sobre o processo de realização de “O Som ao Redor” e defende mecanismos governamentais que ajudem os filmes brasileiros a competir com os blockbusters internacionais, na tentativa de promover diversidade cultural. “Nosso cinema está completamente achatado por esses megalançamentos”, opinou.

iG: O “New York Times” disse que “O Som ao Redor” é o primeiro filme brasileiro sobre as mudanças recentes no País. Sua intenção era retratar este momento de transformação?

Kleber Mendonça Filho: Acho que o Brasil mudou muito, mas, ao mesmo tempo, ficou a mesma coisa. Esse é um dos temas que quis abordar. Tenho 44 anos e vivi em um Brasil pobre. Hoje temos acesso a coisas que há 20 ou 30 anos eram inatingíveis, ou atingíveis apenas para a classe alta. Mas acho que as relações de classe continuam arcaicas, principalmente em Pernambuco, que tem o DNA da escravidão. Uma cena muito discutida durante a filmagem foi a que mostra Bia (interpretada por Maeve Jinkings) dando um escândalo com a empregada. Eu disse para Maeve: “Você precisa buscar aquela senhorinha de engenho que está dentro de você”. E aí uma pessoa legal, bacana, de esquerda, bota os cachorros para fora e você vê que ela vem de uma cultura patriarcal. Acho que essa união de moderno e arcaico é Pernambuco. A Bia é moderna, legal, mas a gente sabe de onde ela vem porque ela trata a empregada daquele jeito. A gente entende o motivo do escândalo, mas ele não deixa de ser violento. E foi muito curioso que, durante uma sessão no Recife, uma espectadora disse para Maeve que estava gostando da personagem até ela ser malvada com o cachorro. Quase como quem fala que tratar a empregada daquele jeito é normal, mas o cachorro...

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'O Som ao Redor', dirigido por Kleber Mendonça Filho

iG: Houve preocupação em fugir de uma ambientação na favela, que em muitos momentos marcou o cinema brasileiro?

Mendonça Filho: Sim, porque todos os filmes que fiz até agora são extremamente pessoais e sobre coisas das quais acho que entendo.Talvez eu pudesse fazer um filme sobre a corrida espacial, mas teria que pesquisar um ano e ler muito sobre isso. E acho que fazer um filme sobre a corrida espacial é diferente de fazer um filme sobre uma favela, que é uma comunidade extremamente complexa, um ambiente social que não conheço e que é muito rico. Para retratar esse ambiente é preciso ter um envolvimento muito real com ele. Então eu risco do meu caderninho a possibilidade de fazer um filme assim. “O Som ao Redor” tem uma favela, mas vista do topo de um prédio, quase com um binóculo. Dou um zoom naquela favela, mas não entro nela e não retrato o morador. Acho que muitas vezes o cinema brasileiro derrapa, capota e pega fogo quando retrata um ambiente que os realizadores não conhecem. E aí duas coisas acontecem: uma é um preconceito puro e simples e a outra é o preconceito bem-intencionado. Como aquele filme que diz: “Nossa, esses negros são tão legais, eles são como a gente!”. E aí podem ser negros, índios, favelas, sertanejos...Já tivemos belos filmes sobre isso, mas a maior parte derrapa.

iG: A naturalidade dos diálogos e atores ajuda a fazer com que o filme pareça muito real. Como foi o processo de escolha do elenco?

Mendonça Filho: Busquei gente normal, que falasse de um jeito normal, que tivesse cara de verdade. Foi talvez o processo mais prazeroso. Comecei vendo vídeos de pessoas comuns [que responderam a anúncios de jornal e internet] sentadas, falando seu nome, sua profissão. Podia ser um instrutor de karatê, mas tinha uma cara interessante, uma voz boa, então chamava para o teste. Quando o colocava na frente da câmera, ele era natural, normal, então entrava para o filme. Ao mesmo tempo, não poderia fazer meu primeiro longa só com atores amadores, então também localizei atores profissionais com quem gostaria de trabalhar.

iG: Como vem sendo a reação do público?

Mendonça Filho: A identificação [com os personagens e situações da história] é a melhor parte. Cheguei a ficar emocionado quando, após uma sessão no Recife, um homem me disse que o filme era verdadeiro, que aquilo fazia parte da vida dele. Estar no top 10 do “New York Times” é muito legal, mas ouvir isso é um grau a mais. É preciso ter cuidado com essa autenticidade. No cinema comercial brasileiro a gente vê [pouca naturalidade]. Digamos que fôssemos fazer uma cena neste café da rua Augusta [em São Paulo, onde a entrevista foi realizada]. É muito comum um diretor de arte vir aqui e dizer: “Não, essa mesa tá um pouco estragada”. E aí manda trazer uma mesa perfeita. E aí troca a árvore, as plantas, coloca lindas rosas vermelhas e tira completamente a identidade e a realidade do lugar em busca de sei lá o quê. Quando você assiste, você reage, ainda que inconscientemente. Você diz: “Esse lugar...não, sei, parece a [loja de móveis] Tok e Stok.” É diferente de você assistir e falar: “Olha, é aquele café da Augusta”. Isso gera vínculo. E eu gosto desse vínculo.

iG: Como fazer para que "O Som ao Redor" seja visto por um grande público no Brasil?

Mendonça Filho: É difícil. O mercado hoje tem mecanismos de convencimento, tudo é massificado. Faz semanas que só vejo “O Hobbit” na minha frente: cartaz, jornal, Facebook, email, outdoor, televisão. É impressionante o que o dinheiro faz. No fim, as pessoas naturalmente assistem a esses filmes. Elas veem “O Hobbit” sem saber direito o motivo. Mas veem. E aí você tem filmes bem menores e fica pensando que seria bom se eles saíssem um pouco do cercadinho da cultura e fossem descobertos por outras pessoas, por pessoas que talvez não o vissem, mas viram e gostaram. Esse é o meu desejo.

iG: Tem alguma estratégia para isso?

Mendonça Filho: Estamos divulgando bastante nas redes sociais. E tudo o que tem acontecido com o filme tem sido bom. Na Mostra de São Paulo, por exemplo, as exibições foram excelentes e nós fomos premiados. No Rio a mesma coisa. Agora a lista do “New York Times”. Tudo isso tem sido muito bom e ao mesmo tempo muito surpreendente. Então espero que esse “aquecimento” colabore para que o filme seja visto. E acho que será. Estamos tendo pequenos termômetros, ouvindo histórias de pessoas que perguntam sobre o filme e mostram interesse. Isso é muito raro, então vamos ver o que acontece.

iG: Acha que o Brasil deveria ter mecanismos que limitassem o número de salas de grandes produções como “O Hobbit”, por exemplo?

Mendonça Filho: Sim. A Argentina tem um sistema muito interessante: eles taxam o número de cópias e o dinheiro fica para o cinema argentino. Acho perfeito. Na França também. “Titanic”, por exemplo, deixou US$ 20 milhões para o cinema francês. E há um circuito maravilhoso de salas alternativas bancadas pelo governo da França, que têm a missão de exibir filmes franceses, estrangeiros e também alguns hollywoodianos. Não é totalmente restritivo, mas é um trabalho de cultura focado no incentivo a uma ideia de diversidade. O governo brasileiro precisa fazer esse tipo de coisa. Porque o cinema é identidade cultural. E nosso cinema está completamente achatado por esses megalançamentos. Ter 1,2 mil salas exibindo o mesmo filme não me parece sensato.

iG: O que acha do Vale-Cultura?

Mendonça Filho: Talvez seja positivo, mas me parece pular alguns estágios, porque não há investimento educacional no País. Acho que investir na educação de base já geraria cidadãos naturalmente inclinados para a cultura.

"O Som ao Redor", de Kléber Mendonça Filho. Foto: DivulgaçãoCena de "O Som ao Redor". Foto: CinemascópioCena de "O Som ao Redor". Foto: DivulgaçãoCena de "O Som ao Redor". Foto: DivulgaçãoCena de "O Som ao Redor". Foto: DivulgaçãoCena de "O Som ao Redor". Foto: Divulgação

iG: "O Som ao Redor" tem apoio do Minc, do governo de Pernambuco e da Petrobras. Foi difícil conseguir realizar o filme?

Mendonça Filho: Foi surpreendentemente rápido. As pessoas responderam muito bem ao roteiro e em seis meses conseguimos tudo. Foi muito diferente do processo para fazer “Eletrodoméstica”, por exemplo, que escrevi em 1994 e só consegui filmar em 2004. Fui recusado em todos os editais.

iG: Espera que seja mais fácil daqui para frente, com o sucesso de "O Som ao Redor"?

Mendonça Filho: Acho que tudo pode acontecer. Pode ser mais fácil, pode ser mais difícil. Talvez digam: “Ele já teve sucesso, vamos deixá-lo de castigo”. O bom é que já temos um quinto do dinheiro para o próximo projeto, “Bacurau”, um filme de horror e ficção científica que, se der certo, será bem assustador.

iG: O ano de 2012 foi muito bom para o cinema pernambucano, com filmes como "O Som ao Redor", "Boa Sorte, Meu Amor", "Era Uma Vez Eu, Verônica", entre outros. O que o Estado tem para concentrar a melhor produção nacional?

Mendonça Filho: Acho que Pernambuco é um grande mistério. A produção cultural sempre foi forte: tivemos um ciclo de cinema mudo importante nos anos 1920, outro de cinema super 8 nos anos 1970, literatura forte, música pop de impacto nos anos 1990, e nessa década o cinema vem crescendo cada vez mais. Há alguma coisa realmente muito particular e difícil de explicar. A minha suspeita é que Pernambuco é um dos poucos Estados que teve e ainda tem aristocracia com tendência para a esquerda. E os aristocratas valorizam a cultura e os artistas. É interessante que as escolas tenham vindo depois dos filmes, aos trancos e barrancos, depois de conquistarmos um edital de patrocínio realmente sólido. E tem outra coisa: entre todos os projetos que foram feitos nos últimos 20 anos, de “Baile Perfumado” a “O Som ao Redor”, passando por curtas e longas, nenhum tem a pretensão de ser sucesso de mercado, de ser da Globo Filmes, nenhum é “sex comedy” ou filme de assalto a banco. São sempre filmes autorais e estranhos. Um estranho bom.

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