"Holy Motors" conta fábula bizarra sobre cinema e mundo contemporâneo

Com poucos bons momentos, filme de Leos Carax olha para para como o grotesco se relaciona com o belo

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Em "Cosmópolis" , de David Cronenberg, o protagonista passa o dia inteiro dentro de uma limusine atravessando Nova York para cortar o cabelo. A certa altura, ele diz: "Sempre me pergunto para onde vão as limusines à noite".

A resposta pode estar em outro filme - como "Cosmópolis", também concorrente no Festival de Cannes , em maio passado, mas bastante inferior ao do diretor canadense - que estreia no circuito brasileiro neste final de semana.

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Trata-se de "Holy Motors", do francês Leos Carax, um filme que sugere a suspensão da realidade convencional. Mais do que isso, pede uma entrega sem restrições ao seu universo bizarro, no qual as relações humanas são apenas encenadas e não de fato vividas.

É uma narrativa que se contenta em construir-se em cima de repetições - não a mesma cena, mas situações com o mesmo significado, que, esvaziado, perde o sentido.

Monsieur Oscar (Denis Lavant) é o protagonista, um personagem que se reinventa ao longo do filme. Entra na pele de várias pessoas, desde uma mendiga idosa a uma figura curiosa que vive nos esgotos de Paris, conhecido como Merde (já apresentado no segmento dirigido por Carax, no longa coletivo "Tóquio", de 2008).

Ele passa o dia em uma limusine branca, dirigida por Celine (Edith Scob) pelas ruas de Paris. No carro, cujo interior mais parece um camarim de teatro, o protagonista tem figurinos, maquiagem, espelho - enfim, tudo que precisa para tornar-se outras pessoas.

Leia também: Leos Carax quer provar suposta superioridade com "Holy Motors"

Para cada novo trabalho, Monsieur Oscar se caracteriza apropriadamente, recebendo dentro de uma pasta as informações necessárias para desempenhar a nova função. Qual o real significado de seu trabalho? Conforto? Confronto? Catarse? As razões variam conforme o freguês. Mas a Carax - que também assina o roteiro - isso pouco importa. Sua investigação parece olhar para o grotesco, para como este se relaciona com o belo.

Nas cenas envolvendo Merde, por exemplo, uma criatura que mais parece um duende deformado sai do esgoto dentro de um cemitério, aterroriza a todos, rouba e come flores até chegar a uma sessão de fotos que ocorre no local, raptando a modelo (Eva Mendes) e, dentro de uma caverna, transformando o figurino dela - cobrindo-lhe o rosto com uma espécie de burca improvisada.

Carax, um diretor bissexto, não fazia um longa desde 1999, quando assinou "Pola X". E "Holy Motors", ao final, mais parece um rascunho de um amontoado de repetições de uma mesma ideia do que a execução propriamente dita. É difícil mesmo encontrar bons momentos.

A alegoria a que o filme se propõe parece não encontrar seu interlocutor para estabelecer um diálogo. De que ele tanto fala? Do cinema? Da representação? Da vida? De tudo isso?

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