Em 'Curvas da Vida', Clint Eastwood faz a defesa dos velhos tempos

Filme do estreante diretor Robert Lorenz usa o beisebol para criticar o excessivo papel da tecnologia na vida moderna

Luísa Pécora - iG São Paulo |

Brad Pitt concorreu ao Oscar de Melhor Ator neste ano por “O Homem que Virou o Jogo” , no qual interpreta um gerente de time de beisebol que transforma o esporte apostando suas fichas em uma ideia nova e ousada: escolher os jogadores com base em um sistema de estatísticas, deixando de depender do trabalho dos tradicionais olheiros. Em um filme sem vilões, o antagonista de Pitt era a resistência à mudança de grande parte dos demais personagens que diziam: “Você não pode montar um time com um computador”.

Em “Curvas da Vida”, outra produção norte-americana sobre beisebol que chega aos cinemas brasileiros nesta sexta (23), Clint Eastwood enfrenta o inimigo oposto: a ideia de que a tecnologia pode substituir o talento e a intuição, aquilo que há de único nos seres humanos - ou, no caso, nos experientes profissionais que sabem identificar novos talentos do esporte como dados ou máquinas jamais conseguirão.

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Eastwood é Gus, veterano olheiro de um importante time de beisebol pressionado a provar sua relevância diante das inovações tecnológicas propostas por um funcionário mais jovem. A prova de fogo é uma viagem à Carolina do Norte na qual tem a missão de avaliar se um badalado jogador da liga estudantil deve ou não ser contratado. Gus tem um problema adicional: seu principal instrumento de trabalho – os olhos – dão sinais de cansaço e ele, aos poucos, enxerga cada vez menos.

Quem o ajuda é a filha, Mickey (Amy Adams), uma bem-sucedida advogada que se ressente do fato de que o beisebol – e não ela – foi a prioridade da vida de seu pai. Ao mesmo tempo, Mickey não consegue ignorar o carinho e a preocupação com Gus, de quem herdou o amor pelo esporte e o jeito durão de quem não leva desaforo para casa. Atendendo ao pedido de um amigo da família, ela topa acompanhar o pai na viagem, uma ideia à qual ele, naturalmente, é contra. Naturalmente, também, a temporada na Carolina do Norte se transforma em uma oportunidade para que os dois lidem com os problemas do passado e se aproximem um do outro.

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Vários dos temas de “Curvas da Vida” já foram abordados na filmografia recente de Eastwood. Em “Cowboys do Espaço” (2000), por exemplo, ele interpretou um astronauta aposentado que, idoso, embarca em uma missão para consertar um satélite a despeito das reservas dos jovens colegas de profissão. Seu personagem em “Menina de Ouro” (2004), Frankie, forja com Maggie, a lutadora de boxe interpretada por Hillary Swank, a relação de pai que não tinha com a própria filha. E em “Gran Torino” (2008), Eastwood é um velho rabugento e incomodado com as mudanças sociais ao seu redor que encontra no contato com o vizinho imigrante a chance de aprender a ser mais tolerante.

Divulgação
O diretor e ator Clint Eastwood

Diferentemente de todos esses filmes, “Curvas da Vida” não foi dirigido por Eastwood, mas por Robert Lorenz, seu assistente há cerca de duas décadas – na primeira vez em que o octogenário artista americano atua para outro diretor desde “Na Linha de Fogo”, lançado por Wolfgang Petersen em 1993.

Estreante, Lorenz consegue fazer um filme correto e por vezes capaz de genuinamente entreter o espectador, especialmente aquele que for fã de Eastwood e estiver ansioso por uma nova chance de vê-lo em cena. Mas “Curvas da Vida” não tem a mesma força emocional das produções de Clint, em parte porque Lorenz falha na construção de personagens, justamente um dos pontos fortes de seu mentor.

Os típicos heróis dos filmes de Eastwood são solitários e marcados por um passado que o público conhece aos poucos e, às vezes, não totalmente – ninguém sabe, por exemplo, o que causou o rompimento entre pai e filha em “Menina de Ouro”. Se Clint gosta de deixar dúvidas e desenvolver a narrativa em ritmo lento, Lorenz, ao contrário, quer contar tudo e tem pressa. Por isso, elege uma ou duas cenas para que cada personagem faça um breve resumo de sua trajetória e explique seus sentimentos e ações, numa espécie de “briefing" ao espectador que resulta em um filme previsível e pouco desafiador.

Da mesma forma, a promissora discussão sobre a passagem do tempo e as implicações da vida moderna perde força ao se basear em uma fórmula excessivamente esquemática, que demoniza a tecnologia, sem meio-termo. Na temporada que passa ao lado do pai, Mickey questiona o seu estilo de vida, a correria do escritório, a solidão no apartamento perfeitamente decorado, a dependência em relação ao computador da Apple que leva na mala e ao smartphone que a acompanha por toda parte. Conforme as roupas caretas de executiva são substituídas por informais camisas xadrez, Lorenz parece defender a volta ao passado e à simplicidade como uma espécie de salvação. Fosse menos simplista, sua proposta seria mais eficaz.

Curioso mesmo é notar que, para fazer essa ferrenha defesa do antigo, “Curvas da Vida” tenha que ceder à fórmula juvenil e escalar o astro pop Justin Timberlake como Johnny, um olheiro novato que se apaixona por Mickey e vence a distância emocional imposta por ela com uma dança em um bar country e um mergulho noturno no rio, cenas típicas de um episódio de “Dawson’s Creek” (ou seja lá qual for a série atual preferida dos adolescentes).

Numa Hollywood cada vez mais obcecada pela juventude e bancada pelos espectadores mais novos, um filme protagonizado por um homem de 82 anos, sem efeitos especiais ou super-heróis precisa buscar apelo em dois jovens e bonitos atores que troquem diálogos rápidos e frases espertinhas com referências às irmãs Kardashian. Ah, os novos tempos.

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