"Se não for por inteiro, pra mim não vale a pena", conta Hermila Guedes

Uma das mais produtivas do cinema brasileiro, atriz está em cartaz com "Era Uma Vez Eu, Verônica", dirigido por Marcelo Gomes; leia entrevista

Marco Tomazzoni - iG São Paulo |

Ao lado de Dira Paes, Hermila Guedes é uma das atrizes mais constantes do cinema brasileiro. Recentemente, ela pôde ser vista nas telas em "Boca" , tem ao menos três longas-metragens prontos para estrear e é a grande estrela de "Era Uma Vez Eu, Verônica" , em cartaz no país, depois de vencer os festivais de Brasília, Amazonas e passar por Toronto (Canadá) e San Sebastián (Espanha).

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No novo filme dirigido por Marcelo Gomes ("Cinema, Aspirinas e Urubus"), Hermila, pernambucana da diminuta Cabrobó, vive Verônica, recém-formada em Medicina que se aventura por uma residência em psiquiatria no Hospital das Clínicas do Recife. Morando com o pai doente (W.J. Solha), ela está em dúvida quanto à profissão, ao futuro, e não consegue engatar um namoro com Gustavo (João Miguel), usado só em encontros para sexo casual.

O diretor e a atriz se conhecem há muito tempo, desde que ela estreou no cinema, no curta-metragem "O Pedido" (2000), que lhe rendeu prêmios no Festival do Recife e Cine Ceará. Fizeram juntos "Cinema, Aspirinas e Urubus" e pouco depois, quando Hermila filmava "O Céu de Suely" (2006), de Karim Aïnouz, seu primeiro trabalho como protagonista, Gomes prometeu que faria um filme só para ela. Demorou, mas o projeto saiu do papel.

A escalação, porém, não foi tão fácil assim. Enquanto a atriz rodava "Assalto ao Banco Central", o diretor começou os testes em busca de sua Verônica e nada de Hermila ser convidada. "Pensei, 'caramba, não vai ser meu'. Na época, eu tinha 31 anos e a Verônica devia ter 25, achei que estava fora", comentou Hermila ao iG , durante o Festival de Brasília.

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Era verdade: Gomes havia chamado algumas meninas mais jovens para o papel, mas acabou percebendo que não ia conseguir escapar do destino. "Fui a última a fazer o teste. Aí consegui fazer o filme que ele disse que era pra mim."

Mais do que isso, Hermila acredita que possa ter influenciado em parte o roteiro, já que os dois conviveram enquanto ela justamente atravessava as festas, carnavais e os trancos e barrancos próprios dos 20 anos. "Talvez eu tenha contribuído de alguma forma. Mas ele não fala isso, um dia vou perguntar."

Um componente dramático importante do filme são as cenas explícitas entre Hermila e João Miguel, nas quais a protagonista procura compensar o desnorteamento que sente na vida se entregando a uma relação essencialmente carnal. O fato de aparecer nua em cena não é nenhuma novidade para a atriz, embora ela esclareça que isso exige muito comprometimento.

Divulgação
Hermila Guedes no último Festival de Brasília

"Quando li o roteiro, percebi que o Marcelo ia filmar tudo o que uma menina faz em sua vida normal, para que as pessoas pudessem ver esses momentos íntimos. Sabia que tinha que ter essa entrega, a personagem precisava disso. Quando vejo o filme, não vejo a Hermila: é a personagem, não sou mais eu. É uma doação de corpo e alma. Se não for por inteiro, pra mim não vale a pena."

Ajudou o fato de João Miguel e Hermila serem parceiros há tempos, inclusive em momentos íntimos – foi assim em "Cinema, Aspirinas" e "O Céu de Suely". "Foi muito mais fácil fazer com o João do que com outro ator, conhecemos os corpos um do outro – a gente já se tocou, já beijou (risos). O Marcelo queria exatamente essa intimidade que nós tínhamos, imprimir isso para que fosse crível, que o público acreditasse naquela relação."

O resultado é de um naturalismo desconcertante, naquele que seja o melhor trabalho de Hermila até hoje. Apesar disso, essa entrega na frente das câmeras, segundo ela, nem é tão difícil quanto parece. "É difícil na televisão, quando você não está seguro e o personagem cada dia é uma coisa", explica a atriz.

Depois da série "Força Tarefa" e de interpretar Elis Regina em um episódio de "Por Toda a Minha Vida", Hermila fez neste ano a novela na rede Globo "Amor Eterno Amor". A atriz comemora o alcance que a televisão tem ("minha vó em Cabrobó pode assistir meu trabalho"), mas reconhece que ainda tem muito a aprender.

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"É um veículo que não domino ainda, tenho que praticar muito para me sentir à vontade. Na TV, quando você que encontrou o personagem, acabou a novela. Já no set eu passo 24 horas no personagem, sou quase obssessiva."

A dedicação plena é uma das características da atriz, junto com uma autocrítica severa. "Sou muito exigente comigo, ninguém consegue me julgar pior do que eu mesma", confessa. Foi por isso que ela não conseguiu reagir muito bem à primeira exibição de "Verônica" em Brasília.

"Você fica avaliando e criticando seu trabalho o tempo todo, com uma insegurança de que poderia ter feito muito melhor. Mas o filme tem cenas lindas e, vá lá, consigo tirar o chapéu para algumas delas."

Assista a uma cena exclusiva de "Era Uma Vez Eu, Verônica":

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