Nadine Labaki questiona papel da mulher em conflitos em "E Agora, Onde Vamos?"

Filme narra a história de muçulmanas e católicas em uma aldeia libanesa; leia entrevista

Marco Tomazzoni - iG São Paulo |

Reuters
A atriz e diretora libanesa Nadine Labaki no Festival de Veneza 2012

Um povoado perdido no interior do Líbano, cercado por minas terrestres, vive à beira de um conflito entre cristãos e muçulmanos. Enquanto os homens alimentam uma cultura beligerante, sempre dispostos a ir às vias de fato por qualquer pretexto, as mulheres fazem de tudo para acalmar os ânimos.

É esse microcosmo, inspirado pela guerra civil que sacudiu o Líbano por 15 anos, até 1990, que norteia "E Agora, Onde Vamos?", em cartaz no Brasil.

Siga o iG Cultura no Twitter

A construção dessa história com ares de fábula coube à diretora e atriz libanesa Nadine Labaki, em seu segundo longa-metragem depois do bem-sucedido "Caramelo" (2007).

Com uma beleza de tirar a fôlego, Nadine passou pelo Brasil em agosto, durante o Festival Varilux do Cinema Francês – o filme é uma coprodução entre Líbano, França, Egito e Itália.

Em entrevista ao iG , a cineasta – que conquistou com o filme o principal prêmio do prestigiado Festival de Toronto no ano passado – afirmou que o clima de instabilidade constante em seu país, nas mãos belicosas do Hezbollah, serviu de inspiração.

"Como artista, acho que você é como uma esponja, absorve o que está acontecendo e quer falar sobre isso", disse. "No Líbano estamos sempre com a sensação de que está prestes a acontecer alguma coisa, e quando se está numa situação frustante como essa, você não tem como evitar falar sobre isso. Não é exatamente sobre o conflito entre muçulmanos e cristãos, e sim sobre os seres humanos em geral, em qualquer lugar do mundo."

Por trás do espírito de mudança, estão as mulheres. Em "E Agora, Onde Vamos?", são elas as grandes conspiradoras (Nadine uma delas, dona do café do vilarejo), capazes de bolar os planos mais mirabolantes para distrair e aliviar a tensão entre os homens, inclusive apelando para drogas e dançarinas exóticas.

A diretora explicou que essa foi uma forma de explicitar a responsabilidade que as mulheres tem em conflitos armados e, de certa forma, despertar a consciência.

"O filme foi inspirado por eventos específicos, uma guerra que durou poucos dias em que as pessoas pegaram em armas, foram às ruas e começaram a matar umas às outras – vizinhos, amigos, pessoas cujos filhos iam para a mesma escola, e ainda assim elas foram capazes de se voltar umas contra as outras, da noite para o dia. Pouco antes de escrever o roteiro, descobri que ia ser mãe e senti uma mudança de perspectiva. Comecei a questionar o que eu sentiria se meu filho pegasse em armas. O que eu faria? Qual é a minha responsabilidade? O quão longe eu iria para pará-lo? Sou um pouco ingênua no modo como penso, mas acredito que temos realmente um papel a desempenhar e dividimos uma parte da responsabilidade."

Assista a uma cena exclusiva de Nadine Labaki em "E Agora, Onde Vamos?":

Sobre o humor que permeia seus filmes, por mais dramáticos que eles sejam, Nadine afirmou não conseguir separar uma coisa da outra. "A vida não é só preto ou branco. São os dois, com diferentes tons de cinza. Uso o humor em situações trágicas porque acredito que às vezes ele pode criar a distância necessária para que possamos rir sobre nossos erros e falhas. Talvez possamos, a partir disso, mudar nossa atitude. E a vida também não é tragédia o tempo inteiro. Fiquei fascinada por mulheres que mesmo depois de perder filhos na guerra, de passar por situações inimagináveis, ainda assim conseguem rir e fazer piadas, sorrir, sobreviver. Temos essa habilidade em nós mesmos, e queria evidenciá-la."

"E Agora, Onde Vamos?" venceu o prêmio do júri ecumênico do Festival de Cannes e roubo a cena em Toronto, quando foi escolhido como melhor filme segundo o público. A vitória rendeu muitos convites para a diretora, que ainda não sabe se deixará o Líbano.

"É muito tentador pensar em filmar no exterior, numa outra língua, talvez trabalhar com grandes estrelas, mas não sei se é isso mesmo que quero. Minha intenção é apenas fazer filmes que sejam significativos para mim e não sei se serei capaz de contar uma história numa língua ou cultura diferentes da minha. Vou ter, portanto, que ter uma boa razão para aceitar."

    Leia tudo sobre: e agora onde vamosnadine labakicinema

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG