"E Agora, Onde Vamos?" mostra a mulher como único lado para a paz

Filme conta como muçulmanas e católicas se unem para acabar com a rivalidade dos homens de uma aldeia libanesa

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A diretora franco-libanesa Nadine Labaki fez um "experimento" numa aldeia de uma região árida do Líbano para tentar entender como as relações humanas podem ser envenenadas pelos motivos mais banais e transformar a convivência harmônica em verdadeiro campo minado.

Como cristãos e muçulmanos daquela região, que sempre conviveram pacificamente e mantiveram relações de amizade sincera, podem, ao riscar de uma fagulha, se transformar em inimigos mortais.

"E Agora, Onde Vamos?", que estreia nesta quinta (15) em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Porto Alegre e Salvador, explora de forma engenhosa, com atores não profissionais e doses de humor, como o partidarismo político e as crenças religiosas podem ser um combustível poderoso na destruição da paz, principalmente numa região tão sensível a essas disputas, como o Oriente Médio.

E, de forma curiosa, como ficar ao largo dos problemas - como se eles não existissem - pode ser a solução para que não se manifestem.

Pois foi o que ocorreu numa aldeia libanesa que, logo nas primeiras imagens, mostra a excitação dos habitantes com a instalação de um aparelho de TV comunitário que, como todos esperam, trará alguma novidade à vida modorrenta que levam.

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Imagem do filme "E Agora, Aonde Vamos?"

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Num território que ainda possui minas terrestres enterradas - lembrança do clima bélico do passado que parece superado, ou em estado de hibernação, como veremos mais adiante - um pouco de diversão não faz mal a ninguém, não é mesmo?

Na prática não é bem isso o que ocorre, pois, junto com os programas de entretenimento, a TV também mostra o noticiário político, com os enfrentamentos armados entre cristãos e muçulmanos em outras regiões. As mulheres querem mudar de canal, pois sabem que o ambiente em que vivem pode ser contaminado pelas imagens da guerra.

Na pequena aldeia coexistem na praça central uma mesquita e um templo católico, ponto de encontro dos moradores quando se dirigem para as orações. Bem perto do único bar local, que está sendo reformado por Amale (a própria diretora Nadine Labaki) e outro ponto de encontro apartidário. Todos se conhecem há várias gerações e não existe motivo para desentendimentos.

Mas o noticiário da TV parece ter despertado nos homens aquele germe belicista que estava adormecido. Vizinhos começam a brigar, adolescentes se desentendem, enquanto as mulheres se preocupam com essa escalada.

Elas sabem o que é perder um filho ou o marido pelas armas e não querem que isso se repita. Não à toa, logo no início, elas marcham para o cemitério para limpar as lápides de seus parentes, todos homens e jovens.

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Um dia, a mesquita é invadida pelos animais de criação, enfurecendo os muçulmanos que culpam os cristãos pela heresia. Em represália, os muçulmanos quebram a imagem de uma santa. Falta pouco para que cada lado pegue em armas e inicie a matança.

E é nesse ponto que as mulheres decidem agir, tentando trazer racionalidade para a discussão. As soluções encontradas apresentam um alívio cômico à tensão reinante, mas tornam o filme irregular.

Nadine envereda por vários caminhos insólitos e torna a trama cada vez mais rocambolesca. Há certo clima de "Pantaleão e as visitadoras" (romance do peruano Mario Vargas Llosa , que também foi adaptado para o cinema) e semelhança com "Lisístrata", de Aristófanes, no qual as mulheres fazem greve de sexo para forçar atenienses e espartanos a obter a paz.

Nessa aldeia libanesa, elas não pensam numa estratégia tão radical, mas o que farão vai mexer com a testosterona de seus maridos e filhos e dar a eles outras preocupações, além de desenterrar as armas.

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