Arquivo do diretor Andrei Tarkóvski pode arrecadar R$ 325 mil em leilão

Lote com cartas, fotografias e gravações do celebrado cineasta russo é visto como "único"

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Um arquivo com milhares de cartas, fotografias e gravações que pertenceram a um dos maiores cineastas da Rússia será colocado à venda na Sotheby's em Londres este mês, informou a casa de leilões nesta quarta-feira (7).

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A coleção de Andrei Tarkóvski abrange os últimos 20 anos da vida do diretor de cinema e inclui o rascunho de uma carta ao líder soviético Leonid Brezhnev datada do final dos anos 1970, pedindo que ele suspendesse a proibição da exibição de seu filme clássico "Andrei Rublev", de 1966.

A carta coloca em evidência a longa contenda do diretor com as autoridades soviéticas por causa da censura, que acabou levando Tarkóvski a deixar o país natal e passar os últimos quatro anos de sua vida no exílio.

"Nenhum material significativo relacionado a Andrei Tarkóvski jamais foi colocado em leilão antes e é improvável que um arquivo como esse surja de novo", disse Stephen Roe, chefe de livros e manuscritos da Sotheby.

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O cineasta russo Andrei Tarkóvski

Ele afirmou que os lances para levar a coleção, estimada entre R$ 260 mil e R$ 325 mil (80 mil e 100 mil libras), deverão vir de uma série de fontes. O leilão ocorrerá no dia 28 de novembro.

"Acho que é tão russo que, se não houver nenhum interesse russo, será muito surpreendente", Roe disse à Reuters. "Entretanto, Tarkóvski é muito importante no cinema europeu e mundial e não ficaria surpreso se muitas pessoas também ficassem interessadas fora da Rússia. As oportunidades para adquirir algo como isso são muito, muito poucas."

Influência enorme

Tarkóvski é considerado um dos maiores cineastas do século 20 e talvez fique depois apenas de Sergei Eisenstein em termos do cinema russo.

Muitos diretores importantes ativos atualmente citam-no como uma inspiração, incluindo o premiado compatriota Alexander Sokurov , que conheceu Tarkóvski e é considerado por muitos como seu herdeiro.

Indiscutivelmente o documento mais importante do arquivo, que está sendo vendido pela pupila e amiga de Tarkóvski Olga Surkova, é o rascunho da carta que o diretor escreveu a Brezhnev sobre as restrições impostas ao seu épico medieval "Andrei Rublev".

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'Andrei Rublev' (1966), do diretor russo Andrei Tarkóvski: proibido na União Soviética

Baseado na vida do famoso pintor russo, o filme não foi exibido para o público na União Soviética durante vários anos depois de ser lançado no festival de Cannes em 1969 por causa da temática sobre religião e liberdade artística.

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"Por três anos e meio o filme foi mantido longe das telas", escreveu ele. "'Andrei Rublev' não foi e não poderia ser usado para nenhum tipo de propaganda antissoviética...Não tenho nenhuma oportunidade para pôr em prática minhas ideias criativas. Disseram-me que a questão está intimamente relacionada ao destino de 'Andrei Rublev'."

Ele continua descrevendo as dificuldades que enfrentava para ganhar a vida a fim de sustentar a mulher e o filho em um país que tratava seus filmes com profunda suspeita.

"Não me sinto confortável falando sobre isso, mas minha situação tem permanecido inalterada por tanto tempo que não posso mais manter silêncio", acrescentou ele.

O filme seguinte que dirigiu foi o longa de ficção científica "Solaris", também considerado uma obra prima pelos críticos do Ocidente e que inspirou uma adaptação de 2002 feita por Steven Soderbergh, com George Clooney.

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