Convidada da Mostra Internacional de São Paulo, atriz italiana, musa do cinema mundial, recorda seus filmes e comenta por que nunca topou tirar a roupa em cena

Dona de beleza lendária, Claudia Cardinale trabalhou com grandes mestres do cinema – Federico Fellini, Luchino Visconti, Sergio Leone, Werner Herzog – e se tornou uma das mulheres mais desejadas do mundo na década de 1960. Grande estrela desta edição da Mostra Internacional de São Paulo, a atriz italiana, aos 74 anos, pode estar quase irreconhecível, mas ainda tem muita história para contar.

Na noite desta quinta-feira (31), em uma conversa descontraída com o público na Faap, mediada por Rubens Ewald Filho, Cardinale relembrou seus filmes e, no final, até cantou uma música: "E Se Domani", sucesso de Mina Mazzini.

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Claudia Cardinale no Teatro da Faap, em São Paulo
Aline Arruda/Agência Foto
Claudia Cardinale no Teatro da Faap, em São Paulo

Ao soltar a voz, ela deixou evidente seu famoso tom grave, que chegou a atrapalhar o início de sua carreira. Foi por isso que em seus primeiros filmes a atriz era sempre dublada. "Além disso, eu falava italiano com sotaque", afirmou Cardinale, que nasceu na Tunísia e foi criada falando apenas francês.

Claudia Cardinale nos anos 1960: ícone de beleza
Divulgação
Claudia Cardinale nos anos 1960: ícone de beleza

A dublagem era um procedimento comum na era de ouro do cinema italiano e padrão para os longas de Federico Fellini, com quem Cardinale trabalhou em "8 e meio" (1963). Improvisador nato, o cineasta pedia para os atores declamarem números nas filmagens e mais tarde escrevia as falas finais. A atriz, no entanto, diz que com ele nunca foi assim. "Fellini fazia isso com os outros. Comigo, conversávamos antes e eu na hora já dizia o texto pronto."

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A liberdade de Fellini era um contraponto à rigidez de Luchino Visconti, com quem Cardinale fez cinco filmes, entre eles clássicos como "Rocco e Seus Irmãos" (1960), "O Leopardo" (1963) e "Vagas Estrelas da Ursa" (1965). "Trabalhar com Luchino era como fazer teatro, nos reuníamos todos em volta de uma mesa para discutir o roteiro. Já com Fellini era improvisação pura, era mágico. Tive a sorte de ter grandes mestres."

A atriz lembrou ainda a convivência com o ator e diretor Vittorio De Sica ("adorava jogar, quando recebia ia direto para o cassino e perdia sempre"), o trabalho com Sergio Leone em "Era Uma Vez no Oeste" ("ele já tinha as músicas da trilha sonora prontas, colocava antes de cada cena no set") e as loucuras ao lado do alemão Werner Herzog na Amazônia peruana, quando filmou "Fitzcarraldo" no início dos anos 1980.

A célebre excentricidade do diretor e seu astro, Klaus Kinski, não intimidaram a atriz ("eu gosto dos loucos"), até porque logo no início ela teve de lidar com Jason Robards, originalmente escalado para o papel principal. "Depois de duas semanas, Robards disse que não tinha o que comer, subiu numa árvore e exigiu um bife de Nova York. Precisaram chamar um psiquiatra para tirá-lo de lá", comentou.

Com isso, Robards foi substituído por Kinski e na sequência, Mick Jagger, vocalista dos Rolling Stones, também desistiu de participar do elenco, por conta de compromissos com a banda.

"Adoro a aventura, e essa foi a mais bela de minha vida, mesmo com os todos os macacos que vinham atrás da gente."

Foi a comédia italiana "A Moça com a Valise" (61) que primeiro fez dela uma estrela. Dirigido por Valerio Zurlini – de quem Cardinale, sem saber, se despediu dias antes de ele se suicidar –, o filme tornou-a, em suas palavras, a "namoradinha dos italianos". Pouco depois, "O Leopardo" apresentou a beleza da atriz para o mundo inteiro, o que motivou declarações apaixonadas como a de David Niven, seu colega em "A Pantera Cor-de-Rosa". O britânico teria dito: "Junto com o espaguete, você é melhor coisa já inventada pelos italianos".

Claudia Cardinale:
Mario Miranda/Agência Foto
Claudia Cardinale: "nunca fiz nenhuma plástica"

Mesmo com todo o assédio, Cardinale nunca se despiu em cena. Depois de assistir no telão da Faap a um trecho de "Vagas Estrelas da Ursa", a atriz comentou que aquela era a única cena de toda sua carreira em que suas costas ficavam à mostra. Sobre o fato de jamais ter feito um filme nua, foi direta: "Não queria vender meu corpo".

A passagem dos anos, aliás, não a preocupa. Cardinale admitiu aceitar a velhice com compreensão e placidez, tanto que disse nunca ter feito uma cirurgia plástica. "Não dá para parar o tempo. Nunca fiz um lifting ou algo assim, preciso aceitar que os anos passam."

Do Brasil, Cardinale recordou a chanchada "Uma Rosa para Todos" (1967), rodada no Rio de Janeiro com estrangeiros se fazendo passar por cariocas. "Eu interpretava uma brasileira sambista, que tinha vários namorados no mesmo dia. Por isso o nome 'uma rosa para todos'." Ela não lembrava, no entanto, o trabalho com o direteor brasileiro Alberto Cavalcanti, com quem fez "A Primeira Noite" (1959) na Itália. "Fiz mais de 130 filmes, não consigo lembrar de todos."

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Cardinale participa da programação da Mostra de São Paulo com "O Gebo e a Sombra" , dirigido pelo veterano cineasta português Manoel de Oliveira. Ao falar de seu futuro no cinema, a atriz não mostrou nenhum interesse em se aposentar.

"Por que continuo? Porque me chamam. Continuo trabalhando e olho para Manoel de Oliveira, que tem 104 anos e ainda está na ativa. Gosto de ler roteiros e dos encontros com os diretores, principalmente dos que estão começando, porque sinto que posso ajudar."

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