Com strippers masculinos, "Magic Mike" se revela surpreendentemente moralista

Channing Tatum dá show como dançarino em filme inspirado em sua própria vida, com direção de Steven Soderbergh

Marco Tomazzoni - iG São Paulo |

Quando estreou nos Estados Unidos, "Magic Mike" foi um estouro. Um grande time de bombados de Hollywood aparecia em cena com pouquíssima roupa e danças explícitas, a partir de um história real do galã Channing Tatum , que antes da fama descolava uns trocados como stripper na Flórida. Se o pôster insinuante e uma bem bolada campanha de marketing já atraíam a atenção sem dificuldade, o nome de Steven Soderbergh ("Traffic", "Onze Homens e um Segredo") na direção tratava de dar um ar "sério" ao projeto.

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Deu certo. Rodado de forma independente, com US$ 7 milhões (baratíssimo para os padrões da indústria norte-americana), o filme já arrecadou até agora US$ 158 milhões no mundo inteiro. Em cartaz nesta sexta-feira (2) no Brasil, a ideia é também aqui aproveitar a fama e chamar o público interessado em peitorais definidos e coreografias ao som de "It's Raining Men". Não se pode esperar muito mais do que isso.

O roteiro do produtor Reid Carolin, em seu primeiro projeto de ficção, tem uma estrutura didática e para lá de moralista. Quem se encarrega de apresentar o universo dos "clubes das mulheres" para o espectador é o personagem de Alex Pettyfer ( "Eu Sou o Número Quatro" ), o novato da trama, conduzida por Soderbergh com aquele seu jeitão naturalista tão particular.

Durante um bico consertando telhados, ele conhece Mike (Tatum), o grande protagonista, que leva o amigo para a boate Xquisite. Lá o rapaz de 19 anos, sem rumo certo, ganha o nome de guerra de Garoto e conhece o restante da turma, formada por Dallas (Matthew McConaughey) e Richie "Pinto Grande" (Joe Manganiello, da série "True Blood"), entre outros dançarinos.

Getty Images
O diretor Steven Soderbergh e Channing Tatum na première de 'Magic Mike' em Los Angeles

Em pouco tempo o Garoto está com um punhado de notas de dólar estufando sua sunga noite após noite: nunca ganhar dinheiro foi tão fácil. Aí entra sua irmã, Brooke (a desconhecida Cody Horn), para alertá-lo de todos os perigos dessa vida, com acesso fácil a drogas e movida pela superficialidade. Ela não suporta ver o jovem numa carreira incerta e degradante – a palavra nunca é utilizada, embora essa seja a impressão que se tem. De olho em Brooke, Mike garante que vai abrigar o amigo debaixo de sua asa.

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O filme tenta a todo instante reforçar a vida sentimental vazia de Mike, como se esse fosse o destino inescapável de todo stripper. Por trás da rotina nos palcos, o herói, se é que podemos chamá-lo assim, alimenta o sonho de abrir um negócio de móveis customizados. É a maneira de provar que por trás daquele corpinho bonito há alguém de valor, numa espécie de feminismo às avessas.

Qualquer tentativa de fazer "Magic Mike" decolar, portanto, esbarra num juízo de valor fora de contexto, que longe de enaltecer, demoniza a profissão de stripper. É um sentimento bem diferente da diversão descompromissada que o filme esboçava no início, e por isso, um bocado decepcionante. O desfecho, por fim, comprova uma visão de mundo surpreendentemente direitista.

Se a ideia, porém, é apenas relaxar na poltrona e assistir aos números de strip-tease, o filme é um prato cheio. São tantas cenas de dança que chega a cansar, repletas daquele lugar-comum das fantasias femininas, com figurinos de bombeiro, boxeador, Tarzan, caubói, pedreiro... Tem para todos os gostos. Na tela grande, então, a impressão é de praticamente se estar ganhando um lap dance. E dos mais safados: na Xquisite, os dançarinos puxam as mulheres para o palco e simulam o ato sexual sem o menor constragimento – atenção para a classificação indicativa de 16 anos.

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Os destaques ficam por conta de Tatum e McConaughey. A coreografia até pode ser batida, mas Tatum, para quem desconfiava, revela ser um dançarino bem melhor do que ator. Se ele já esbanjava habilidade em "Ela Dança, Eu Danço" (2006), agora, mais forte e experiente, mostra uma desenvoltura impressionante, com direito a mortais, paradas de mão e outras acrobacias de tirar o fôlego. O cara realmente é muito, muito bom. Bem diferente de Cody Horn, sua colega de cena, que, sem beleza ou talento, compromete nas cenas dramáticas (o fato de ela ser filha do presidente da Warner, responsável pela distribuição do filme nos EUA, é mera coincidência).

McConaughey, por sua vez, comprova estar num momento muito especial da carreira. Se já estava afiadíssimo em "Killer Joe" , "Mud" e "Paperboy" (os dois últimos ainda inéditos no país), em "Magic Mike" ele combina seu carisma e habilidades físicas de maneira invejável. Aos 42 anos, McConaughey está no seu auge.

Assista: Channing Tatum e Matthew McConaughey lançam "Magic Mike" nos EUA


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