"Filmes de biografia são chapa-branca", afirma diretor de "Gonzaga"

Breno Silveira explica que procurou fugir do formato para se concentrar na relação entre Gonzagão e Gonzaguinha; leia entrevista

Marco Tomazzoni - iG São Paulo |

Depois de "2 Filhos de Francisco", campeão nacional de público em 2005, com 5 milhões de espectadores, o diretor Breno Silveira não pensava em fazer mais nenhuma biografia. Recebia ofertas de dezenas de projetos do gênero, mas não se animava com nenhum. Até que apareceu "Gonzaga - De Pai pra Filho" , que estreou neste final de semana cercado da mesma expectativa: no centenário do Rei do Baião , se consagrar nas bilheterias.

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Não que Gonzaga seja exatamente um astro contemporâneo. O autor de "Asa Branca" continua soberano nas festas de São João, mas ao longo do ano, não é bem assim. "Para fazer um filme de sucesso, seria muito mais fácil pegar Aviões do Forró", comentou o diretor, durante conversa com jornalistas em São Paulo.

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A ideia partiu de Maria Hernandez, que há sete anos começou a investigar a vida de Gonzaga indiretamente, já que Daniel, filho de Gonzaguinha, havia sugerido resgatar a história do pai. Como não se pode falar de um sem o outro, toneladas de informações valiosas sobre Gonzagão foram desenterradas.

Em especial, fitas cassete gravadas por Gonzaguinha no início da década de 1980, em que ele conversava com o pai sobre sua vida e a relação dos dois, até então estremecida. Antes disso, pai e filho mal se falavam, fruto de uma infância e adolescência marcada por abandono, rebeldia, mágoa e embates violentos. As gravações marcaram a reconciliação da dupla, que logo depois saiu em turnê pelo país.

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Breno Silveira segura sanfona no set do filme

Silveira contou que se comoveu ao escutar as fitas e, a partir delas, percebeu o caminho que deria tomar: o filme seria sobre "um filho tentando entender o pai". Foi isso que o teria convencido a topar o projeto, mais do que a vida atribulada de Luiz Gonzaga.

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"Pouquíssimas cinebiografias no mundo me emocionam, porque elas viram um produto chapa-branca enumerando os fatos. Mas se você pegar uma história de pai e filho, tem outro motor dentro do filme, em que mostrar o drama é necessário. Cinema é drama, conflito: sem isso, não tem filme. Uma biografia por si só não se justificaria, por mais que fosse do Gonzaga. O filme não é só sobre ele, assim como '2 Filhos de Francisco' não era só sobre Zezé di Camargo e Luciano – é uma história de pai e filho brasileiros. Acho que de novo consegui juntar a nossa história, música e um belo drama."

O primeiro passo foi convencer a família Gonzaga, em conflito há muito tempo, representada por Daniel, o neto, e Rosinha, filha adotiva de Gonzagão. "Juntamos eles depois de 15 anos num jantar", lembrou o diretor. "A partir daí essa família passou a se unir de novo. Foi como se a gente tivesse dado nó em pingo d'água." Deu tão certo que hoje o gerenciamento dos direitos autorais de Luiz Gongaza, antes fragmentado, está todo nas mãos de Daniel, também músico.

Resolvida essa etapa, o próximo desafio foi escalar o elenco. Depois de testar vários atores conhecidos para o papel principal, Silveira desistiu. "Comecei a entender que ninguém era parecido, cantava ou tinha a voz de Gonzaga. Ninguém parecia completo. Mas sabia que em algum canto desse país devia ter um Gonzaga."

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A equipe iniciou, então, uma campanha Brasil afora e o retorno foi avassalador: apareceram cinco mil interessados. Depois de um processo descrito como "longo e desgastante", eles foram reduzidos a cinco e levados para um apartamento no Rio de Janeiro, numa espécie de "Big Brother" particular. De lá saiu o paulista Chambinho do Acordeon, sem nenhuma experiência no ramo, mas craque no baião. "Ele tinha voz, empostação e uma sanfona muito parecida com a do Gonzaga. Precisava de alguém que tivesse alma de sanfoneiro, não de ator", explicou Silveira.

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Júlio Andrade, o Gonzaguinha, e Adélio Lima em 'Gonzaga - De pra Filho': entrevistas reais inspiraram o roteiro

As outras duas encarnações de Gonzagão foram menos problemáticas: na adolescência, assumiu o mineiro Land Vieira, e na velhice, Adélio Lima, na vida real funcionário do museu dedicado ao músico em Exu (PE), sua cidade-natal.

Encontrar Gonzaguinha, por outro lado, não ofereceu nenhuma dificuldade. Fã do cantor desde os oito anos, Júlio Andrade ("Cão Sem Dono", "Hotel Atlântico") foi fazer o teste já transformado para o papel: roupa branca, barba comprida, peruca, cigarro e violão a tiracolo, tão diferente que nem amigos que também iam conversar com o diretor o reconheceram.

"Quando Júlio acabou, mandei todo mundo que ainda estava esperando embora", contou Silveira. "Era como se fosse um presente, depois de um ano tentando achar o Gonzaga, encontrar o Gonzaguinha na segunda pessoa a fazer o teste."

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Júlio Andrade e o diretor Breno Silveira: ator gaúcho foi fazer teste já caracterizado como Gonzaguinha

Filme mais popular possível

Diretor de fotografia competente ("Carlota Joaquina", "Eu Tu Eles"), formado na França, Breno Silveira se converteu num arauto do cinema popular quando comandou seu primeiro longa-metragem, "2 Filhos de Francisco". Ele não só seguiu pelo mesmo universo com "Era Uma Vez" e "À Beira do Caminho" , como o encara como missão.

"Queria muito recuperar o nosso público. Desde o começo, minha intenção era fazer alguma coisa brasileira, com vocação para trazer o público de volta para as salas. Sou um cara apaixonado por esse país, quero contar nossas histórias – a gente precisa se ver no cinema. Escolho histórias que me encantam e depois tento transformá-las no mais popular possível."

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Além do livro "Gonzaguinha e Gonzagão - Uma História Brasileira", de Regina Echeverria, o farto material de pesquisa do filme rendeu um roteiro inicial de 300 páginas, escrito por Patricia Andrade, colaboradora fiel de Silveira. Aos poucos, o texto foi enxugado, deixando de lado o extenso anedotário de Gonzaga, que tinha muitas histórias para contar da vida na estrada.

"Nada com Gonzaga é pequeno, é um personagem enorme", defendeu o diretor. "Nem dez filmes dariam conta. Até hoje recebo histórias de Gonzaga que infelizmente não estão no filme. Foi muito difícil para a gente emendar tudo isso."

Uma versão maior do longa-metragem será dividida em episódios e exibida na Rede Globo (a Globo Filmes é uma das coprodutoras), mas o cineasta quer ver é o público no cinema, num ano até agora fraco para o cinema nacional, em que apenas duas produções ultrapassaram a barreira de um milhão de espectadores ( "E Aí, Comeu?" e "Até que a Sorte nos Separe" ).

Silveira disse estar confiante que o boca a boca funcione, mas ele esperava o mesmo de "À Beira do Caminho", inspirado nas músicas de Roberto Carlos, que estreou em agosto e teve carreira decepcionante (200 mil espectadores).

"Era um filme mais íntimo, fechado, para dentro", justificou o diretor. "Todo mundo saía do cinema super emocionado, mas talvez ele não fosse capaz de irradiar para uma grande plateia. Ao mesmo tempo, 'Beira' estava subindo quando foi tirado de cartaz. Se o boca a boca ia funcionar mais para frente, não se sabe."

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No caso de "Gonzaga - De Pai pra Filho", além do apelo da figura do retratado, conta a favor a repercussão que o filme vem tendo. Conforme o diretor, "Gonzaga" foi o filme brasileiro com maior público no Festival do Rio , com aplausos ao final de cada sessão, mesmo sem ninguém da equipe estar presente.

"A pior coisa que pode acontecer é começar a andar para trás com o público", comentou Silveira. "Queria muito que 'Gonzaga' desse certo num ano que está ruim. Vai ser ele contra os vampiros (o final da 'Saga Amanhecer') e o 007 ."

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