"007 - Operação Skyfall" une drama e humor e é um dos melhores filmes da série

Diretor Sam Mendes acerta ao aprofundar drama dos personagens, ao mesmo tempo em que presta homenagem aos filmes do agente secreto

Marco Tomazzoni - iG São Paulo | - Atualizada às

O pedido de falência da MGM fez bem a James Bond. O período de instabilidade financeira do estúdio, em 2010, colocou "Operação Skyfall", prioridade depois de "Quantum of Solace" (2008), na geladeira e provocou uma dança de cadeiras. Daniel Craig, claro, continuou no papel principal, mas Sam Mendes assumiu como diretor e o roteirista John Logan, indicado ao Oscar por "A Invenção de Hugo Cabret" e "O Aviador", se uniu à dupla Neal Purvis e Robert Wade, que cuida dos roteiros do espião desde 1999.

INFOGRÁFICO: James Bond - 50 Anos

A partir desta sexta-feira (26) em cartaz no Brasil, o resultado enche os olhos e agrada a quem gosta de bom cinema: "Operação Skyfall" é, sem pestanejar, um dos melhores filmes da série cinquentenária .

Muito tem se falado da mistura do moderno e do clássico , mas o grande trunfo de "Skyfall" é realmente dramático. No final do prólogo, durante uma perseguição eletrizante em Istambul , Bond é baleado e dado como morto. O tiro era para o bandido que ele perseguia – apesar do risco de atingir 007, M (Judi Dench, majestosa), chefe do serviço secreto britânico, o MI6, autorizou o disparo. Com o erro, um disco com os dados de todos os agentes infiltrados em células terroristas cai nas mãos erradas.

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Anônimo numa praia, amargurado, Bond passa os dias na cama, na companhia de uma bela morena, e enche a cara no bar local. A explosão da sede do MI6 por um ciberterrorista o motiva a deixar o ostracismo e voltar à ativa, mas a situação não anda lá muito bem. Tachado como alcoólatra, ele precisa passar por uma bateria de exames para provar que está apto a reassumir o posto, enquanto M responde a um inquérito e sofre pressão para sair de cena. Na opinião do burocrata Gareth Mallory (Ralph Fiennes), tanto Bond quanto M deveriam se aposentar. "Estamos velhos", reconhece 007, e a barba branca de Craig não deixa que se pense o contrário.

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Daniel Craig: velho demais para a função?

Essa questão permanece latente ao longo de todo o filme – eles estariam velhos demais para continuar? –, e apresenta uma chave inédita em relação aos outros capítulos da franquia, em geral ocupados demais com a ação ou o humor para se dedicar a assuntos sérios. Verdade que o reinício com Craig desde "Casino Royale" (2006) indicava uma preocupação maior com o mundo real, mas "Skyfall" surpreende pela complexidade dos temas. Há ainda uma inesperada história de origem, no desfecho na casa onde Bond cresceu, no pantanoso interior da Escócia (atenção para o pequeno papel de Albert Finney), e o triângulo doentio entre M, Bond e o vilão.

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Se não é o maior antagonista da cinessérie, Raoul Silva é com certeza um dos melhor construídos. Apresentado num espetacular plano sequência, Javier Bardem colocou uma prótese nos dentes e platinou os cabelos e sobrancelhas para dar vida a um ex-agente com uma senhora mágoa de M. Há aí uma curiosa relação de amor e ódio, já que Silva amava M como uma mãe.

Ele compartilha a megalomania habitual dos vilões (controla uma ilha, tem um exército de capangas, pode provocar o caos com um clique no computador), embora sua psicopatia realmente dê medo – Silva é uma mistura de Hannibal, Coringa e Buffalo Bill, o maníaco de "O Silêncio dos Inocentes". Como se Bardem já não tivesse material o suficiente, Silva ainda é gay. Numa cena que deve entrar para a história da franquia, ele desabotoa a camisa de Bond, amarrado numa cadeira, e passa a mão em sua perna, enquanto flerta com o herói, que dá uma resposta desconcertante.

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Esta é outra novidade de "Skyfall": o humor. Daniel Craig havia comentado que o filme teria essa característica, tão presente nos outros filmes da série e deixada de lado em sua gestão. O ator continua carrancudo, mas tem tiradas excelentes, assim como o resto do elenco. Não há o escracho ou o exagero da era Roger Moore , por exemplo – é uma opção pelo humor pontual e certeiro, exclusivamente nos diálogos.

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Sam Mendes no set do filme "Operação Skyfall"

Um retorno, portanto, ao estilo 007 clássico, que mesmo com as mudanças se mantém fiel ao original. O formato continua o mesmo, com as Bond girls (Naomie Harris e a belíssima Bérénice Marlohe) e os apetrechos de Q (Ben Whishaw), o fornecedor de bugigangas de espionagem, de volta à franquia. Há até uma homenagem formal (e cômicas) aos 50 anos de James Bond no cinema , com o Aston Martin prateado de Sean Connery em "Goldfinger" e "007 contra a Chantagem Atômica".

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Tudo isso não teria o mesmo efeito sem a presença de uma equipe técnica de primeiro time. Os principais destaques são a trilha sonora de Thomas Newman, eficiente ao misturar o tema original de 007, a música de Adele e momentos retumbantes a la James Horner, e a direção de fotografia mágica de Roger Deakins. Responsável por praticamente todos os filmes dos irmãos Coen, Deakins produz pinturas na tela – as cenas em Xangai, por exemplo, são de arrepiar, assim como o uso de contornos e sombras, de certa forma relacionadas à trama.

Diretor tarimbado de produções como "A Beleza Americana" e "Foi Apenas Um Sonho", Sam Mendes rege o espetáculo como se fosse um drama, não um filme de Bond. Verdade que é impossível fugir do espalhafato que acompanha um produto do gênero, mas optar pela construção de personagens, conflitos reais e atuações convincentes só tornam "Skyfall" ainda mais poderoso. O final abre caminho para uma nova fase na franquia e deixa o gostinho de quero mais. Quem assistiu já está falando em ver de novo – "Skyfall" é tão bom assim.

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