O mundo particular de Wes Anderson

O cinema do diretor de "Moonrise Kingdom" é pontuado por uma preocupação extrema pelo visual e personagens excêntricos

Marco Tomazzoni - iG São Paulo |

Wes Anderson é um cara metódico. Embora canse de dizer que a cada novo filme procura contar uma história diferente, o diretor norte-americano acaba sempre reprocessando suas ideias por meio de um prisma único, que entrega temas e visuais idênticos aos anteriores, através dos mesmos atores-fetiche. Com "Moonrise Kingdom" , em cartaz a partir deste final de semana no Brasil, não foi diferente.

Mais do que ser repetitivo, isso faz de Anderson um autor, o mais evidente do novo cinema norte-americano, por essas características serem tão visíveis. É um estilo tão claro que só por um trailer já dá para se dizer que se trata de um filme dirigido por ele – foi assim, por exemplo, antes da première de "Moonrise Kingdom" no Festival de Cannes – e que virou grife, sendo empregado em propagandas de Anderson para cartões de crédito, empresas de telefonia e até para cerveja.

O diretor começou a desenvolver sua "visão de mundo", digamos, na Universidade do Texas, onde conspirou seus primeiros filmes com o amigo e colega de quarto Owen Wilson, que desde então participou de todos os seus longas-metragens (à exceção de "Moonrise"). Um curta escrito pela dupla e estrelado por Wilson e seu irmão, Luke, serviu de laboratório para uma versão maior, que se tornou "Pura Adrenalina" ("Bottle Rocket", 1996), uma espécie de "Cães de Aluguel" com nerds tentando bancar uma gangue de ladrões.

Divulgação
O diretor Wes Anderson (de terno branco) durante as filmagens de "Viagem a Darjeeling" (2007)

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O público ignorou o filme, mas a crítica não, o que abriu as portas para que Anderson fizesse outro, aquele que é, até hoje, seu trabalho mais celebrado. O título genérico em português – "Três É Demais" – esconde a complexidade de "Rushmore" (1998). Nele, um adolescente de 15 anos de uma escola tradicional, Max Fischer (Jason Schwartzman), é, apesar de brilhante, péssimo aluno, dedicando todo seu tempo a atividades extracurriculares excêntricas, como o clube de apicultura e o de carros de corrida. Apaixonado por uma professora (Olivia Williams), ele vira seu mundo do avesso para conquistá-la.

Além de iniciar parcerias importantes – foi o primeiro papel de Schwartzman, então com 17 anos, e a primeira colaboração do diretor com Bill Murray, que se tornou figura carimbada –, "Rushmore" é um grande exemplo da gramática de Anderson. Amparado por uma direção de arte de cores fortes, figurino vintage e sets elaborados, ele cria uma versão própria da realidade, excêntrica, exagerada e precisa.

Ao filmar qualquer coisa, uma mesa de trabalho, por exemplo, ela parecerá algo único no mundo, adornada por utensílios concebidos especialmente para aquele momento – uma referência são os produtos "Acme" que povoam os desenhos dos Looney Tunes. É uma ideia de manufatura que confere personalidade e enche os olhos do espectador, da mesma maneira que as produções infantis em stop-motion da década de 1960, que o diretor reproduziu na belíssima animação "O Fantástico Sr. Raposo".

Esse sentimento também se dá pela simetria dos enquadramentos. Famoso também por apresentar lugares e personagens com planos fixos (em "Moonrise Kingdom", isso se dá através de um narrador de touca vermelha, na obsessão do cineasta por Jacques Costeau), Anderson leva a rigidez para todo o filme, que é mapeado inteiramente em storyboards, desenhados por ele e seu irmão, o artista Eric Chase Anderson (os desenhos de traço infantil que aparecem em cena geralmente são dele). Tudo, então, é coreografado, e mesmo que Bill Murray faça uma improvisação, ela dificilmente vai se sobressair no conjunto desse balé.

Getty Images
Bill Murray e Wes Anderson na sessão de fotos de "Moonrise Kingdom" durante o Festival de Cannes 2012

Até mesmo o tipo de letra utilizada pelo diretor em produtos, placas e fachadas persiste de filme para filme. Mais do que anunciar para Woody Allen que ele não é o único com essa preocupação (o nova-iorquino usa sempre a mesma arte nos créditos iniciais), revela a tentativa de formalizar que aquelas histórias pertencem a um mesmo universo, hoje presente em sete longas-metragens e em breve, num próximo (o já confirmado "The Grand Budapest Hotel").

Universo esse em que a música parou nos anos 1960 ( Rolling Stones , pop francês e a trilha sonora de Mark Mothersbaugh são uma constante) e os personagens são crianças perdidas em corpos de adultos. "Os Excêntricos Tenenbaums" (2008), indicado ao Oscar de melhor roteiro e maior sucesso comercial do diretor, é rico em figuras assim.

Gene Hackman vive o patriarca pilantra de uma família disfuncional – com Anderson, elas sempre são desse jeito –, em que todos têm alguma habilidade fora do comum. O personagem de Gwyneth Paltrow é uma dramaturga precoce (o teatro sempre dá as caras no cinema de Anderson), o de Ben Stiller um mago das finanças e o de Luke Wilson, um prodígio do tênis. A trama serve de simulacro para a filmografia inteira do diretor, pontuada por conflitos entre irmãos, amizades postas à prova, amores idealizados, sentimentos de abandono, insegurança e de não-pertencimento, com uma tendência para o épico.

Leia também: Em "Moonrise Kingdom", Wes Anderson é pop, mas tem o que dizer

É quase que um resumo do que o cinema indie dos EUA mais gosta de retratar. Com tanta excentricidade, não é difícil que o humor venha atrelado ao pacote, mesmo que involuntariamente. O jogo entre tudo isso – comédia, estranheza, primor visual e drama – forma a base do cinema de Wes Anderson. Se a "A Vida Marinha com Steve Zissou" (2004), em que Seu Jorge não ajudou muito, e "O Expresso Darjeeling" (2007) foram filmes menores, "O Fantástico Sr. Raposo" e "Moonrise Kingdom" provaram que ele continua em plena forma, sem dar indícios de que irá mudar. Se o futuro não for lá muito original, aos menos vai será um bocado interessante.

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