Ben Affleck: "Estou preocupado em fazer seres humanos reais verem meu filme"

Ator e diretor fala sobre "Argo", elogiado longa sobre crise diplomática entre EUA e Irã, baseado em fatos reais

The New York Times | - Atualizada às

Não muito tempo atrás, o Ben Affleck de 20 e poucos anos era um dos atores mais requisitados de Hollywood. Nas telas, estrelava superproduções como "Armageddon" (1998), "Pearl Harbor" (2001) e "Demolidor" (2003). Fora das telas, badalava com mulheres como Gwyneth Paltrow e Jennifer Lopez.

Esses tempos acabaram. Affleck está com 40 anos, e já faz uma década desde o seu último sucesso como ator. Hoje ele evita a cena de festas e passa suas noites em casa com a atriz Jennifer Garner, sua mulher há sete anos, e os três filhos – Violet, de 6 anos, Seraphina, de 3, e o bebê Sam.

Ah, e ele é também um dos jovens cineastas mais elogiados de Hollywood, sendo aclamado pela crítica como roteirista/diretor de "Medo da Verdade" (2007) e "Atração Perigosa" (2010). Ele dirigiu e estrelou "Argo" , que estreia em 12 de outubro nos EUA (9 de novembro no Brasil) em meio a sérios rumores sobre um Oscar.

Segundo Jennifer Garner, porém, a segunda chegada de Affleck como a maior promessa de Hollywood vem acompanhada de um novo senso de perspectiva, que ela viu de perto no verão passado – quando ele voltou para casa após uma semana filmando em Porto Rico.

"Ele não via os filhos fazia uma semana", lembrou Garner durante uma entrevista no Toronto Film Festival. "No minuto em que pisou na entrada de casa, Ben tinha duas meninas no colo, uma em cada braço. Ele olhou para mim com o sorriso mais amplo e feliz deste mundo. Como marido e como pai, ele realmente merece isso."

Thriller baseado em fatos reais

Ambientado durante a crise iraniana de reféns em 1979, "Argo" é um thriller baseado em fatos reais que coloca Affleck como Tony Mendez, um agente da CIA trabalhando para extrair seis diplomatas que haviam se abrigado na embaixada canadense em Teerã. Sua solução: convencer um produtor de Hollywood (Alan Arkin) a montar um filme falso chamado "Argo", a ser filmado no Irã, e retirar os diplomatas como membros do elenco e da equipe.

Getty Images
Ben Affleck na pré-estreia de 'Argo' nos EUA

A conversa sobre múltiplas indicações ao Oscar não afetam Affleck, que já possui um prêmio da Academia por "Gênio Indomável" (1997) – melhor roteiro original, para ele e seu amigo Matt Damon.

"Não tenho ideia a respeito do Oscar", diz Affleck numa entrevista num hotel de Beverly Hills. "Neste momento, estou preocupado apenas em fazer seres humanos reais verem meu filme e comprarem um ingresso. Estou mantendo uma perspectiva saudável sobre todo o resto."

O filme chega aos cinemas na sequência de mais ataques recentes a representações diplomáticas americanas, mais notavelmente o assassinato, em setembro, do embaixador dos EUA na Líbia, em meio a uma manifestação em Benghazi.

"O mundo ainda é perigoso por aí", diz Affleck com um suspiro. "As consequências involuntárias da revolução estão se mostrando. Acho que devemos examinar qual vem sendo o nosso papel, historicamente, e quais os benefícios quando se trata de fazer algo com esses líderes. Acho que o filme é bastante relevante no mundo de hoje."

História com final conhecido

O presidente Bill Clinton divulgou a história da missão de resgate em 1997, e Mendez escreveu um livro revelando os detalhes da improvável história. O que representava um problema para Affleck, já que ele estava contando uma história cujo final já era amplamente conhecido.

Leia também: Ben Affleck prova que se reinventou como cineasta em "Argo"

Não houve problemas, diz ele com confiança. "Se você tem um roteiro realmente bom que é baseado na realidade, e se usa bons atores que oferecem atuações convincentes", explica o cineasta, "então o público se envolve na história em modo 'momento a momento'. Embora muitas pessoas saibam o final, eu tinha confiança de que o público provavelmente não ficará o tempo todo pensando: 'Eu sei que eles sobrevivem, pois ninguém faria um filme sobre seis pessoas fuziladas num corredor'".

Getty Images
Ben Affleck e atores de 'Argo' no Festival de Toronto

O filme não retrata exatamente como as coisas aconteceram na vida real, diz Affleck, mas respeita os fatos principais. "Há uma clara divisão em relação a documentários, onde você espera uma aplicação mais rígida da realidade", diz ele. "Tivemos de comprimir a história. No filme eles vão direto até a casa do embaixador canadense. Houve alguns outros passos na vida real, mas isso é um filme, e é impossível mostrar cada momento."

Felizmente, segundo ele, a história real era cinematográfica por si só.

"Tivemos muita sorte", explica Affleck. "O que aconteceu na vida real foi extremamente instigante. Os personagens eram interessantes. Isso tornou tudo um prazer, pois eu podia usar o que realmente aconteceu. A história real me deu sustentação."

Getty Images
Ben Affleck e Jennifer Garner

Imersão nos anos 1970

Assim que definiu o elenco, Affleck trancou os principais atores numa casa de Los Angeles por seis dias com discos de vinil, jornais, revistas, livros e programas de televisão sobre o final da década de 1970 e a crise de reféns. Ele até mesmo confiscou seus celulares.

Após uma semana de imersão no período, todos foram para a Turquia, que representou o Irã no filme. Três décadas se passaram, mas a história ainda é delicada demais para ser filmada no próprio Irã. Na verdade, segundo Affleck, foi muito difícil encontrar figurantes para as cenas de multidões, pois todos temem o governo iraniano.

"Não conseguimos nenhum iraniano na Turquia para participar do filme", afirmou ele. "Eles tinham medo da repercussão e do que poderia acontecer às suas famílias em casa. É um governo opressivo. Eles querem realmente controlar as imagens."

Vaidade

O Ben Affleck que estrela "Argo" está muito longe do protagonista de "Armageddon" e "A Soma de Todos os Medos" (2002). Para começar, há uma barba por fazer e uma cabeleira estilo anos 70, cultivada para interpretar Mendez. "Alan Arkin conseguiu manter seu corte de cabelo atual", diz Affleck com uma risada. "Eu tive de deixar crescer essa coisa meio Davy Jones/Barry Gibb na minha cabeça."

"Não tenho vaidade", acrescenta ele. "Eu nunca penso: 'Preciso ficar bonito para este filme', mas sim 'Como posso me parecer com as pessoas reais ou da mesma época?'."

Siga o iG Cultura no Twitter

O filme, com roteiro de Chris Terrio, é um thriller de roer as unhas, mas também encontra espaço para bastante humor – principalmente em sua visão de Hollywood. John Goodman brilha como um maquiador cínico, que está criando os efeitos para um filme que nunca será produzido de verdade.

"Para mim, o toque de humor foi o que John fez neste filme", diz Affleck. "Ele tem uma maneira muito natural de virar os olhos para Hollywood e dizer: 'Estou fazendo essa porcaria de filme de monstros'. Ele faz isso com muita elegância. Você acredita que ele trabalha em Hollywood – mas que ele também gosta de Hollywood, embora ele tenha esse cinismo saudável a respeito."

O segredo são os atores

Após seus anos à frente das câmeras, Affleck – que iniciou sua carreira em "Barrados no Shopping" (1995), "Procura-se Amy" (1997) e "Dogma" (1999), todos de Kevin Smith – não acha que dirigir seja tão difícil assim. O segredo, segundo ele, é contratar os atores certos, não só por seu talento, mas também por suas atitudes.

Ben Affleck: "A única coisa que aprendi foi contratar pessoas mais inteligentes que eu"

"A verdade é que é muito mais fácil dirigir quando você não precisa lidar com os atores", explica ele. "Em 'Argo', todos eram pontuais e todos trabalharam muito bem. Muitas vezes, eles apareciam com ideias bem mais interessantes do que as minhas. Esse elenco fez o trabalho de dirigir parecer muito fácil. Eu ficava pensando: 'Eu vou receber o crédito por isso, mas os atores realmente tocaram o barco'."

O Tony Mendez da vida real faz uma pequena participação no filme, e serviu como consultor no set. Seu veredito sobre "Argo"? Polegar para cima, segundo Affleck. "Encontrei com ele na noite passada, numa exibição do filme, e o vi fazendo o tapete vermelho", diz Affleck.

"Eu disse a ele: 'Todas essas pessoas estão aqui para ver a história de sua vida e das coisas que você fez. Como você se sente?'."

"E ele me respondeu: 'Bem!'."

    Leia tudo sobre: ben affleckargocinema

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG