Ménage à trois, drogas e violência fazem de 'Selvagens' um filme vibrante

Oliver Stone retorna à boa forma em trama sobre jovem que é sequestrada por traficantes

Marco Tomazzoni - iG São Paulo |

Talvez o cineasta norte-americano mais consistente da década de 1980, quando produzia um filme impressionante por ano ("Salvador", "Platoon", "Wall Street", "Nascido em 4 de Julho"), Oliver Stone amargou uma gangorra dali para a frente. Virou um realizador de qualidade bissexta, em especial na virada do século para cá – difícil engolir, por exemplo, "Alexandre" e "W.". "Selvagens", que estreia nesta sexta-feira (5) no Brasil, representa uma volta à forma. É, sem nenhuma dificuldade, o filme mais vibrante do diretor em mais de dez anos.

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Adaptado por Stone, Shane Salerno ("Aliens vs. Predador 2") e pelo escritor Don Winslow a partir de seu próprio romance, "Selvagens" começa situando seu triângulo amoroso sui generis. Budista, Ben (Aaron Taylor-Johnson, o John Lennon de "O Garoto de Liverpool" ) tem formação em botânica, administração e mantém fundações na África e Ásia. Chon (Taylor Kitsch, de "John Carter" e "Battleship" ) é um fuzileiro naval de sangue frio, cheio de cicatrizes, veterano dos conflitos no Iraque e Afeganistão.

Festival do Rio: "Selvagens" diverte com história de triângulo amoroso e drogas

Divulgação
O diretor Oliver Stone no set de 'Selvagens'

A sensibilidade de um e a personalidade intempestiva do outro fazem deles sócios perfeitos para a produção de maconha no sul da Califórnia, que abastece o mercado ilegal e as lojas autorizadas da região.

Juntos, os dois formam "um homem completo", e a bela O (Blake Lively, da série "Gossip Girl") tira proveito disso com uma naturalidade surpreendente, assim como os próprios amigos. Um ménage à trois típico. "Pode ser errado, mas nos amamos muito", diz O (diminutivo, ela explica, de Ofélia, a "suicida bipolar de 'Hamlet'"), que narra a história.

Essa relação zen e colorida, em total comunhão com o espírito hippie californiano, entra em choque com o mundo real. Um poderoso cartel mexicano, comandado pela traficante Elena (Salma Hayek), sequestra a namorada da dupla para convencê-los na marra a compartilhar o know-how da maconha de alta qualidade que eles produzem. Entram em cena o policial Dennis (John Travolta), que acoberta o tráfico na região, o maníaco Lado (Benicio Del Toro) e o administrador Alex ( Demián Bichir, indicado ao Oscar deste ano ), capangas de Elena.

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Como se estivesse exercitando músculos há muito adormecidos, Stone aproveita para encher a tela com sangue em profusão, cabeças cortadas e tiros à vontade, aquela ultraviolência pop de "Assassinos por Natureza". O visual saturado (impossível não pensar no Instagram), a edição hiperativa e a trilha sonora potente podem parecer maneiristas, mas o diretor já fazia isso há 20 anos. De novidade, portanto, não têm nada.

E essa é uma questão interessante. Mais do que discutir o que é selvageria e a violência das drogas (o cineasta consome e defende a descriminalização da maconha), Stone queria era proporcionar diversão. Ele consegue, com maior sucesso na construção do clímax e dos personagens, até porque faz parte de sua fama levar os atores ao limite. É um prazer assistir a Del Toro e Hayek – o primeiro, criando com gosto um vilão com requintes de crueldade, e a atriz, linda como sempre, trazendo humanidade à chefona do tráfico.

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Já a trama... Bem, taí uma bela bagunça. "Selvagens" sofre um sério problema de foco, abrindo e se demorando em arcos dramáticos que não acrescentam muita coisa, inclusive num desfecho duplo desnecessário. Com mais de duas horas de duração, sentimos na poltrona que Stone falou mais do que deveria – entende-se por que ele declarou ter se debruçado na montagem até o último minuto, na semana anterior à estreia.

Se não é redondo, "Selvagens" ao menos entretém um bocado. Comparado com o que o diretor vinha fazendo, isso é uma ótima notícia.

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