Uruguaio "La Vida Útil" cativa ao explorar paixão pelo cinema

Em preto e branco, longa-metragem de Federico Veiroj segue funcionário de cinemateca atrás do amor pelas ruas de Montevidéu

Marco Tomazzoni - iG São Paulo |

A safra cinematográfica do Uruguai é tão pequena que quando algum filme de lá aparece, merece ser visto. A impressão que se tem é que as dificuldades de produção são tantas que depuram os projetos: só sai do chão o que realmente importa. "Gigante" , "Norberto Apenas Tarde", "O Banheiro da Papa" e o vindouro " Artigas" são exemplos dessa qualidade. É como se o cinema uruguaio fosse uma versão enxuta do vizinho argentino, marcado por roteiros maduros e diretores instigantes.

"La Vida Útil", de 2010, mas que só agora entra em cartaz em São Paulo, não é exceção. Representante uruguaio no Oscar do ano passado e com uma carreira celebrada no circuito de festivais, o longa-metragem em preto e branco presta tributo à cinefilia em geral, embora tenha ligação direta com a cena de Montevidéu – o crítico Jorge Jellinek e o diretor da Cinemateca Uruguaia, Manuel Martinez Carril, estreiam como atores nos papéis principais.

Escrito e dirigido por Federico Veiroj, o filme começa mostrando com tom naturalista os percalços da cinemateca local, uma das mais importantes da América do Sul. Se uma cartela no início adverte para a ficcionalidade da história, a impressão é de um quase documentário. Jorge, grandalhão de meia-idade sem lá muitos atrativos, interpreta um funcionário que trabalha ali há 25 anos. Faz de tudo: introduz filmes para o público, grava informativos no rádio, testa poltronas atrás de defeitos, lida com equipamentos velhos de projeção e com a falta endêmica de dinheiro e sócios da instituição. Ao mesmo tempo, programa ciclos temáticos, de uma homenagem ao centenário do diretor português Manoel de Oliveira a um panorama do cinema islandês.

Divulgação
Elenco e equipe do filme uruguaio "Vida Útil"

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Esse ambiente é muito familiar para quem frequenta o meio e os recursos parcos, um retrato fiel das salas independentes que brigam por manter uma programação revelante em meio à homogeneização dos multiplexes. Mas eis que silenciosamente a trama de "La Vida Útil" ganha um lado B, quando a cinemateca é fechada por falta de patrocínio.

Como se finalmente despertasse para a vida, Jorge, com uma maleta a tiracolo, vai para as ruas de Montevidéu e tem como única preocupação fazer com que Paola (Paola Venditto), uma professora de Direito, aceite o convite para ir ao cinema. Aí a cumplicidade com o espectador aumenta ainda mais e o subtítulo nacional, "Um Conto de Cinema", ganha cara de definitivo.

"La Vida Útil" perde a aura documental e flerta com a simpatia das comédias do cinema mudo, que antes já era expressa na trilha orquestrada. Não que não haja diálogos (há, aliás, um belo monólogo de Jorge sobre a mentira, baseado num texto de Mark Twain), mas é na busca pela simplicidade que se dá esse parentesco. Seja travesso, jogando moedas numa fonte, cortando o cabelo ou ensaiando passos de dança numa escadaria, Jorge vira um herói cômico improvável, pelo qual se torce mesmo sem querer.

É por ampliar esse espectro do amor pelo cinema, dos prazeres mais simples a meter a mão na massa, que "La Vida Útil" conquista, sem ser nada cansativo – tudo se passa em pouco mais de uma hora de projeção, o ponto certo para se ficar querendo mais.

Assista ao trailer de "La Vida Útil":

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