"Boca" traça biografia de famoso bandido paulista dos anos 1960

Com Daniel de Oliveira como o criminoso Hiroito de Moraes, longa resgata histórias que assombram o centro velho de São Paulo

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Cinebiografia de um dos mais famosos criminosos da história de São Paulo, Hiroito de Moraes Joanides (1936-1992), "Boca", de Flávio Frederico, não deixa igualmente de ser um cuidadoso retrato de um ambiente e de uma época.

Apesar de pronto desde 2010 e de ter sido premiado em dois grandes festivais nacionais - Festival do Rio (2010) e Cine PE (2012) -, o drama custou a chegar aos cinemas brasileiros.

Ironicamente, foi distribuído no exterior para cerca de 15 países antes de chegar ao País, testemunhando por si mesmo o gargalo do circuito cinematográfico nacional que afeta particularmente a produção local.

Contando com a interpretação empenhada de Daniel de Oliveira na pele de Hiroito, o filme, com roteiro do próprio Frederico e de Mariana Pamplona, partindo de uma autobiografia escrita pelo personagem, traça o perfil de um homem violento e contraditório.

Filho de uma família de posses de origem grega, com um pai que admirava o último imperador japonês, Hiroito teve boa formação cultural. Mesmo após a entrada na vida do crime, que se deu ainda na juventude, ele continuou um fiel fã da literatura, com preferências que iam de Charles Baudelaire a Jack London.

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O verdadeiro Hiroito de Moraes Joanides após ser preso em 1982, em São Paulo

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Não raro, sua trajetória apresentou paralelos com as tragédias gregas, como a acusação de que teria assassinado o próprio pai - o que ele sempre negou.

Mas foi na chamada Boca do Lixo, no centro velho da capital paulistana, que Hiroito estabeleceu sua fama, dominando a lucrativa exploração do baixo meretrício e do tráfico de drogas da região com um estilo impiedoso de lidar com os rivais e inimigos. Vários assassinatos rechearam sua ficha policial, que se estendia por dezenas de páginas.

Filmado em boa parte no centro histórico de Santos, amparando-se na bela fotografia de Adrian Teijido, "Boca" define os limites do mundo claustrofóbico de Hiroito, desfrutando de luxo em sua casa, ao lado da mulher, a ex-prostituta Alaíde (Hermila Guedes), mas também vivendo boa parte do tempo como fugitivo.

Na pele do delegado Honório (Paulo César Pereio), cristaliza-se a figura de um policial corrupto, que prefere usufruir dos frequentes subornos a prender Hiroito - o que faz, de vez em quando, para manter as aparências.

Acompanhando essa vertigem alucinante do auge e do declínio do personagem, "Boca" equilibra-se como perfil. Algumas belas sequências visuais, como a que retrata o Hiroito menino observando o Hiroito adulto pela janela de um automóvel, são particularmente eficientes para humanizar o personagem, sem satanizá-lo ou muito menos endeusá-lo.

Tal como fizera em seu primeiro longa, "Urbânia" (2001), o diretor Flávio Frederico resgata, aqui ficcionalmente, uma parte do rico acervo de histórias que ainda assombram o centro velho de São Paulo, apesar da permanente tentativa de descaracterização imposta pela incessante reconstrução da cidade pela especulação imobiliária.


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