Luto orienta o drama de "Noites de Reis"

Trama do longa-metragem de Vinícius Reis, exibido no Festival de Brasília, se passa no litoral fluminense, durante a Folia de Reis

Marco Tomazzoni - iG São Paulo |

Uma tragédia familiar funciona como núcleo de "Noites de Reis", exibido neste sábado (22) na
competição de longas de ficção do 45º Festival de Brasília . Filmado em Paraty, no litoral do Rio
de Janeiro, a trama dirigida por Vinícius Reis ("Praça Saens Peña") se situa nos folguedos da
Folia de Reis, festa folclórica de final de ano, entre o Natal e o início de janeiro. Em meio a
música, dança e adereços coloridos, mãe e filha tentam levar uma vida normal, enquanto remoem, nem tão secretamente, a perda de um ente querido.

Divulgação
Bianca Byington e Enrique Diaz em "Noites de Reis"

A professora Dora (Bianca Byington) nunca superou a morte do filho num incêndio, sabe-se lá quando. Ao lado da pequena Júlia (Raquel Bonfante), ela tem problemas em retomar a vida social e prefere se refugiar em longos mergulhos nas águas do mar – a relação é explicitada ao longo da narrativa. O marido, Jorge (Enrique Diaz), abandonou a família depois do desastre. Quando Dora parece finalmente começar a sair de seu casulo e até demostrar interesse pelo homem que faz a reforma da casa vizinha (Flávio Bauraqui), Jorge ressurge sem explicação. Os desdobramentos do retorno despertam a espiral de dor da família.

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Escrito por Rita Toledo, a estrutura de "Noites de Reis" é simples como uma peça de teatro de câmara, centrada em como cada um dos personagens reage a seus sentimentos de luto. Um roteiro difícil, aberto, sem muitos diálogos, em que olhares e o silêncio são valorizados mais do que palavras – quando Jorge volta para casa, Dora tem a princípio uma reação quase apática, mas depois da explosão longe de todos, se limita a perguntar ao marido, sempre calado: "Você não vai me contar nada?".

A resposta parece não importar para o diretor, embora a lacuna, que deveria apenas acentuar o drama de lidar com a perda, pareça mesmo algo faltando na história. E elas não são poucas, o que enfraquece o filme como um todo. Apesar da entrega a seus papéis, os protagonistas não podem resolver sozinhos os problemas de dramaturgia. Já a jovem Raquel Bonfante teve responsabilidade demais ao assumir um personagem tão difícil e se não compromete, também não ajuda a segurar a complexidade do todo.

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Com um processo circular, focado na Folia de Reis, num belo registro do folclore regional, "Noites de Reis" carece de verdade, na medida em que a resolução da trajetória de cada membro da família parece quase mágica, tamanha a simplicidade com que eles deixam seus conflitos para trás. O que antes soava crucial, impossível de transpor, torna-se corriqueiro. Se no início se acreditava nos personagens, no final essa confiança não é mais tão forte. Uma aposta arriscada, de certo valor, que não paga todos seus dividendos.

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