Em novo filme, Marcelo Gomes quer revelar "diário íntimo" de mulheres jovens

Cineasta pernambucano fala da abordagem naturalista de "Era Uma Vez Eu, Verônica"; diretor até tirou a roupa para deixar atores à vontade em cenas explícitas

Marco Tomazzoni - enviado a Brasília |

Junior Aragão
O diretor Marcelo Gomes, de "Era Uma Vez Eu, Verônica", no Festival de Brasília

Depois do sucesso de "Cinema, Aspirinas e Urubus" (2005), premiado em Cannes e com boa recepção no circuito internacional, esperava-se com expectativa um novo longa-metragem do pernambucano Marcelo Gomes. Em 2009, apareceu "Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo", dirigido com o parceiro Karim Ainouz, mas era um projeto de certa forma experimental, sem atores. "Era Uma Vez Eu, Verônica", exibido na competição do 45º Festival de Brasília , encerra esse intervalo, depois de seis anos em desenvolvimento.

Siga o iG Cultura no Twitter

Já exibido em Toronto e com presença garantida no Festival de San Sebastián, na Espanha, o filme nasceu como veículo para Hermila Guedes ("O Céu de Suely", "Assalto ao Banco Central" ), com quem o diretor havia trabalhado em "Aspirinas". "Fiquei muito encantado, é uma atriz maravilhosa", conta Gomes ao iG . "Ela tem uma presença etérea. A câmera fica hipnotizada, assim como eu fiquei."

Era ainda, segundo ele, a oportunidade de construir um personagem feminino, parente de mulheres "incríveis e em crise" no cinema, como a protagonista de "Monika e o Desejo" (1953), de Ingmar Bergman, e a Blanche DuBois de "Um Bonde Chamado Desejo" (1951), e também de filmar pela primeira vez um longa no Recife. "Quando mais jovem, depois de ver nos cineclubes filmes de Bergman, Ruy Guerra, Glauber Rocha, François Truffaut, todo mundo, caminhava pelas ruas imaginando como ia ser um filme ali."

O roteiro foi escrito na sequência de "Aspirinas" e inscrito ainda em 2006 para captação na
Ancine, mas Gomes não estava satisfeito com a primeira versão: queria investigar mais a fundo a
jovens de hoje. A partir disso, entrevistou cerca de 20 mulheres na faixa dos 30 anos para tentar
entender os dilemas e conflitos contemporâneos.

Leia também:  "Doméstica" investiga dinâmica de empregadas na família brasileira

"Nossos avôs casavam com 20 anos e eram obrigados a ficar maduros antes, eram quase idosos aos 25", diz. "Hoje em dia a adolescência dura mais, a fase jovem dura mais, ou seja, a
maturidade vem muito tarde. Nessa sociedade cada vez mais capitalista, existe uma obrigação do
jovem de ter sucesso na profissão, e nesse sentido às vezes é preciso ter uma maturidade
profissional tão grande que se esquece a afetiva."

Daí surgiu Verônica – nome que o diretor escolheu por significar "verdadeira imagem" –, uma estudante recém-formada em Medicina, residente em psiquiatria num hospital público do Recife. Morando com o pai doente (W.J. Solha), ela está em dúvida quanto à profissão e não consegue engatar um namoro com Gustavo (João Miguel), usado só em encontros para sexo casual.

Para o diretor, esse vazio existencial está relacionado à liberdade exacerbada que essa geração
experimenta em comparação às anteriores. "Sartre dizia que a questão é, entre 100
possibilidades, ter de escolher apenas uma, deixando as outras 99 de fora. Acho que a Verônica
sofre desse mal-estar de não saber, de quem sabe casar, ou ir embora, de deixar de trabalhar e
virar cantora, essas dúvidas muito complicadas. Personagens em geral são muito assertivos, quase super-heróis na medida em que decidem as coisas de maneira muito displicente. O desafio era como transformar essa poesia do cotidiano num samba do desamor."

Divulgação
Hermila Guedes e João Miguel no filme "Era Uma Vez Eu, Verônica"

Sexo-documentário

A liberdade de Verônica também pressupõe o sexo, mostrado em cenas explícitas, com a nudez
constante dos protagonistas. Segundo o diretor, como o objetivo era construir um diário íntimo
das mulheres de hoje, seria impossível deixar isso de lado. "Se a gente abrir esse diário
guardado a sete chaves e não ver cenas de sexo, é porque faltou coragem de mostrar."

Gomes defende que buscou filmar as relações de forma naturalista, sem afetações. "É
sexo-documentário, no sentido de que a gente construiu uma coreografia, que começava como uma grande brincadeira, e ia filmando, filmando, com um respeito e confiança muito grandes pelos atores, no quarto só eu, Mauro (Pinheiro Jr, diretor de fotografia), João Miguel e Hermila."

Uma cena de orgia abre o filme, com vários atores nus na beira da praia. O trabalho de preparação incluiu um workshop para todos se sentirem à vontade com os corpos dos outros – até o próprio diretor entrou no jogo e tirou a roupa.

Divulgação
Hermila Guedes no filme: em crise

"Acho que isso fez parte de um processo para constituir essa naturalidade. Se os atores me pedem para tirar a roupa porque não estão se sentindo à vontade com o diretor dirigindo eles vestido, eu tiro! Se isso vai ajudar nesse compromisso, na compreensão de cena e confiança, está tudo certo."

Leia também: "Gosto de sair da zona de conforto", diz Daniel Aragão

Gomes aponta uma contradição no Brasil entre os trajes de banho sumários, "uma tirinha em cima e outro embaixo", e o pudor catolicista que até hoje assombra nossa sociedade. Mas isso não é privilégio nosso.

"Em 2002, fui a Cannes com 'Madame Satã' (no qual colaborou com o roteiro de Karim Ainouz) e no convite para a exibição estava escrito 'x-rated: se você é sensível a cenas de sexo, não assista a esse filme'. Estava marcado com um X. Isso em 2002! Estamos em 2012 e ainda falamos sobre essas mesmas coisas."

"Brasil ficou muito caro"

Depois de quatro anos na elaboração do roteiro e das filmagens em 2010, "Eu Uma Vez Eu, Verônica" ficou mais de um ano em montagem. "Como o filme é muito livre de narrativa, são recortes da vida do personagem, ele podia ser construído de várias formas. Também existe o elemento da voz em off, escrito como um bordado, pouco a pouco", comenta Gomes, que na reta final convocou o amigo Karim para ajudar.

"Estava há muito tempo imerso e precisava da voz de alguém de fora. Tinham cenas maravilhosas da Hermila, me deixaram encantado, mas que não faziam mais sentido no caminho que estávamos seguindo e era muito díficil de cortar."

Assista a um teaser de "Era Uma Vez Eu, Verônica":

A demora na finalização, no entanto, também foi por falta de dinheiro. "Depois do 'Aspirinas' eu achava que ia ser tudo mais fácil, mas 'Viajo' foi díficil, 'Verônica' também, e o próximo vai ser ainda mais. O Brasil ficou muito caro, alimentação, transporte, tudo encareceu demais. Além disso, existem muito mais projetos, então a concorrência é bem maior."

Esse périplo para se conseguir fazer cinema no Brasil será o tema de "O Homem das Multidões", filme que Gomes desenvolve com o mineiro Cao Guimarães, que exibiu o documentário "Otto" em Brasília . Ele também prepara uma adaptação do romance "Relato de um Certo Oriente", de Milton Hatoum, e um longa-metragem sobre Tiradentes, integrante de um projeto da TV espanhola sobre os libertadores da América Latina.

Paralisado por conta da crise europeia, "Tiradentes" pretende investigar os bastidores do que resultou na Inconfidência Mineira. "A ideia é imaginar como era essa região que de uma hora para outra recebeu uma migração imensa, a maior das Américas, até mesmo do que corrida do ouro nos EUA, uma babel de línguas, culturas, e a sociedade que gerou uma figura como Tiradentes."

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG