"Doméstica" investiga dinâmica de empregadas na família brasileira

Imagens do documentário dirigido por Gabriel Mascaro foram feitas por adolescentes na intimidade de suas casas, em cinco cidades do país

Marco Tomazzoni - enviado a Brasília |

Na busca de retratar o cotidiano de empregadas domésticas em famílias Brasil afora, o diretor pernambucano Gabriel Mascaro teve uma ideia brilhante: colocar a câmera na mão de adolescentes entre 15 e 17 anos e deixar que eles filmassem por conta própria o dia-a-dia em suas casas. Com o material de volta, concebeu "Doméstica", documentário apresentado na noite de sexta-feira (21) no 45º Festival de Brasília .

Divulgação
Uma das personagens do documentário "Doméstica", de Gabriel Mascaro

No total, foram retratados sete casos, de cinco capitais (São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Manaus e Salvador), com imagens às vezes de qualidade duvidosa – são, afinal de contas, amadores gravando tudo. O grande ganho é tanto a diversidade de situações quanto a intimidade rara de conseguir ser registrada. Também motorista, uma empregada chora ao ouvir canções românticas de um amor perdido. Outra tem uma filha pequena, tratada como neta pela patroa. Uma terceira trabalha como empregada de uma empregada, na periferia de São Paulo, e ainda há lugar até para um "empregado doméstico".

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A equipe foi criteriosa ao escolher os personagens, donos de histórias ricas, que talvez por si só rendessem um filme – quase todos têm um passado de contornos trágicos, com drama suficiente para se conectar com o espectador. A complexidade de "Doméstica", porém, é bem maior do que descobrir se eles se sentem em casa ou não: tenta, isso sim, desvendar a dinâmica dentro de cada família, já que a empregada tem um papel tão tradicional na seio da sociedade brasileira.

É uma relação profissional e de afeto simbionte, em que sem dúvida há a presença de poder entre patrão e empregado, mesmo que subentendida. Exemplar, a cena em que uma das empregadas assina sem pestanejar a autorização de imagem entregue pelo filho da chefe revela bem essa situação – ela teria coragem de negar?

Também por conta disso há um ingrediente curioso de dramaturgia (impressa também, obviamente, pela montagem), já que, além de estarem diante de uma câmera, os personagens estão sendo filmados por seus empregadores. Sem dúvida há momentos comoventes de sinceridade, mas é impossível negar até que ponto os retratados não estão atuando ou dizendo apenas o que os patrões queriam ouvir.

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Documentarista já experiente, Mascaro tem uma produção constante, de filmes elogiados como
"Avenida Brasília Formosa", "Um Lugar ao Sol" e "KFZ-1348". Em Brasília, apresenta ainda um curta-metragem, "A Onda Traz, o Vento Leva". Em "Doméstica", o diretor não só usou um conceito interessante, mas conseguiu abarcar com segurança um assunto tão plural e difuso. Se não serve como investigação antropológica, com certeza contribui para esse debate.

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