"Gosto de sair da zona de conforto", diz o diretor Daniel Aragão

Realizador pernambucano comenta "Boa Sorte, Meu Amor", exibido em Brasília, e da importância da trilha sonora: "a música é mais importante que tudo"

Marco Tomazzoni - enviado a Brasília |

Junior Aragão
O diretor Daniel Aragão conversa com a atriz Christiana Ubach no Festival de Brasília

Exibido no 45º Festival de Brasília, o longa-metragem "Boa Sorte, Meu Amor" se mostrou um dos filmes mais ousados da competição de ficção até agora. O romance no Recife entre uma garota do interior, aspirante a pianista, e um playboy de família tradicional rememora a relação perdida entre o campo e a metrópole. Fugindo das convenções, o diretor pernambucano Daniel Aragão fez um filme mais sensorial do que narrativo, nada previsível.

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"Gosto de me surpreender, de sair da zona de conforto", comentou ele durante conversa na tarde desta sexta-feira (21), afirmando que transfere essa postura para seu trabalho. "(No cinema) É saudável brincar com o sentimento das pessoas. Ver alguém se contorcer na cadeira é uma experiência muito agradável."

Filmado com R$ 700 mil, fruto de incentivo do governo estadual, "Boa Sorte, Meu Amor" nasceu de uma inquietação de Aragão após o enterro da avó, momento em que histórias de um passado esquecido da família foram resgatadas. O sentimento rendeu um roteiro muito mais complexo, escrito em parceria com Luiz Otavio Pereira e Gregorio Graziosi, outros nomes atuantes da cena local.

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Foi na montagem, no entanto, que o filme ganhou seu formato final – antes dividida em cinco capítulos, a história durante a edição ficou com apenas três. Um processo criterioso, que teve na música ingrediente fundamental.

"Talvez a música tenha sido mais referência do que cineastas", comentou Aragão, que diz gostar de realizadores da década de 1970 (Bob Rafelson, Hal Ashby, Rainer Werner Fassbinder) e do Cinema Novo, admiração expressa na bela fotografia em preto e branco de Petro Sotero.

"Escrevo num lugar que tem cinco mil vinis, escuto música o tempo todo. A música é mais importante que tudo."

Dessa imersão, surgiu, por exemplo, a balada de Donny Hathaway usada ao longo de todo o filme. Já a trilha sonora original foi composta pela finlandês Jimi Tenor, num troca-troca pela internet. "Era fã dele e resolvi mandar um email, deu certo. No meu próximo filme, vou convidar Burt Bacharach, não tenho limites", contou o diretor, bem-humorado.

Assista a um trecho de "Boa Sorte, Meu Amor":

O elenco tem nomes como Vinicius Zinn, no papel do protagonista Dirceu, Maeve Jinkings e Carlo Mossy, ídolo da pornochanchada. A escalação da outra personagem principal foi um desafio, segundo Aragão, sanado com a chegada de Christiana Ubach, uma carioca.

"O pessoal do Recife tem medo de usar gente de fora, por conta do sotaque e tudo mais. Quando Chris fez o teste, respirei aliviado, não ia precisar usar a Hermila", brincou ele, se referindo à pernambucana Hermila Guedes, escalada, por exemplo, em "Era Uma Vez Eu, Verônica", do conterrâneo Marcelo Gomes, também na competição do festival.

Conhecida como Cristiana Peres na época em que trabalhou em "Malhação" na Globo, Christiana reconheceu o desafio regional. "É muito difícil falar aquela língua", disse.

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No Recife, os profissionais de cinema se revezam trabalhando uns nos filmes dos outros. Além de ter sido assistente de Gomes em "Cinema, Aspirinas e Urubus", Aragão fez, por exemplo, o casting de "O Som ao Redor", de Kleber Mendonça Filho.

Questionado sobre a coincidência de seu filme e o de Kleber abordarem o interior rural, o diretor afirmou ter ficado contente. "É uma prova da longevidade do cinema que a gente faz, já que são parecidos e completamente diferentes. Sinto que posso fazer mais dez filmes, meus amigos também, e vai seguir sendo assim."

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