Cao Guimarães registra beleza do cotidiano em "Otto"

Videoartista faz declaração de amor à mulher, grávida, e ao filho em pretenso documentário

Marco Tomazzoni - enviado a Brasília |

Artista consagrado, o mineiro Cao Guimarães sempre se mostrou atento ao cotidiano para produzir fotografias e curtas exibidos com destaque afora no mundo das artes plásticas. Enquanto cineasta, tem uma produção respeitável e experimental – seus filmes mais recentes são "Andarilho" e "ExIsto", muito bem recebidos, que confundiam a linha entre cinema e videoarte.

Na noite de quinta-feira (20), o diretor apresentou no 45º Festival de Brasília o documentário "Otto", que leva seu interesse pela rotina ao extremo: ele registra sua intimidade com a mulher, a uruguaia Florencia Martínez, até o nascimento de seu filho, que dá nome ao longa.

Divulgação
Cena de 'Otto', dirigido por Cao Guimarães

É um mergulho no dia-a-dia do casal, contado através de imagens com som ambiente e de uma narração em off bastante esparsa. São, na verdade, textos em forma de poesia, que explicitam a paixão arrebatadora de Guimarães por sua musa.

Esse mesmo sentimento amoroso orienta a filmagem, tarefa que o diretor encara, parece, obsessivamente. A impressão é que ele mantinha a câmera na mão em todo e qualquer momento, para não deixar qualquer vislumbre de beleza escapar. É assim numa espécie de prólogo, durante uma viagem da dupla pela Turquia, até a gravidez, acompanhada em Belo Horizonte.

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Mergulhar nos detalhes em primeiro plano e brincar com o foco são os procedimentos favoritos do cineasta, na tentativa de consagrar as pequenas coisas. Ele filma com insistência o rosto da mulher e sua pinta delicada no nariz, carinhas desenhadas nos dedos dos pés, gotas pingando no varal depois da chuva, um filme de Werner Herzog no cinema, o ato de amassar o pão, a barriga enorme com o filho prestes a nascer.

Uma declaração de amor, sem meio termo, que exceto a plasticidade, não tem maior apelo. É como se as homenagens que Terrence Malick faz em pequenas doses em seus filmes à perfeição religiosa da natureza fossem estendidas para um filme inteiro, sem uma fotografia impecável impressa em película e restrita à realidade de Guimarães e sua família.

O interesse do público num trabalho assim é questionável, assim como até mesmo a validade de "Otto" enquanto documentário.

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