Daniel Aragão estreia na direção de longa-metragem filmando em preto e branco e preocupado com autoria e estética

Segundo longa-metragem pernambucano exibido na competição do 45º Festival de Brasília , na noite desta quinta-feira (21), "Boa Sorte, Meu Amor" continua seguindo firme a trilha do cinema
autoral. Assistente de direção de Marcelo Gomes (que exibe seu novo filme hoje) em "Cinema,
Aspirinas e Urubus", o estreante Daniel Aragão foge das convenções ao mesmo tempo que
fortemente tenta dialogar com elas. O resultado, além de inesperado, traz um certo frescor, já
reconhecido lá fora – o filme ganhou um prêmio no Festival de Locarno, na Suíça, famoso em sua
seleção por privilegiar novas tendências.

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Christiana Ubach em 'Boa Sorte, Meu Amor', de Daniel Aragão
Divulgação
Christiana Ubach em 'Boa Sorte, Meu Amor', de Daniel Aragão

"Boa Sorte, Meu Amor" começa com um discurso a respeito das raízes da classe oligárquica de
Pernambuco, diálogo com o passado e as relações de classe no Recife que Aragão mantém ao longo de todo o filme. Isso se dá através da relação de Maria (Christiana Ubach), uma estudante de música que sobrevive de bicos como promoter, e Dirceu (Vinicius Zinn, da série "Alice"),
empresário do ramo de demolição – crítica nada sutil ao descaso com prédios históricos – e
playboy convicto, aproveitando os recursos de uma família tradicional do interior.

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O romance mostra o embate entre essas duas realidades distintas, mas Aragão, que escreveu o roteiro com Gregorio Graziosi e Luiz Otávio Pereira, bagunça a narrativa e inverte as expectativas. Nos personagens espalhados pela história procura-se discutir temas como a desvalorização da arte, o conformismo, a fatalidade do amor, enquanto há uma preocupação estética evidente, valorizada na montagem. Daí explica-se a opção pela fotografia em preto e branco, os planos-sequência com zoom e a trilha sonora alternada entra o encaixe perfeito e a incongruência. A música, inclusive, é essencial para apresentação de Maria, belíssima, em câmera lenta – assista .

Essa estratégia se dá com maior efeito nas duas primeiras partes – o filme é dividido em capítulos. A terceira e última é quase um novo filme, quando Dirceu vai ao interior à procura de Maria e, claro, do passado sempre em pauta. Aí a estranheza predomina e a trama ganha contornos surrealistas, clima perfeito para criar situações cômicas e tirar sarro dos filmes de suspense, buscando tensão onde não há. No desfecho, fica claro que a ideia desde o início não era contar uma história convencional, mas partir ao encontro de sensações.

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"Boa Sorte, Meu Amor" só não é melhor pela vontade de abraçar o mundo. São tantos elementos, na ânsia de se mostrar tudo o que sabe, que o é bom de verdade acaba perdido na imensidão, inclusive as boas atuações – destaque para a participação especial de Maeve Jinkings e Christiana Ubach, que nos tempos de "Malhação", quando era par de Fiuk, assinava Cristiana Peres. O tempo só fará bem àmbição de Daniel Aragão.

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