Ursinho de pelúcia drogado e louco por sexo é a estrela de "Ted"

Seth MacFarlane, criador de "Uma Família da Pesada", estreia no cinema com sátiras e piadas ácidas que fizeram fama da série

Marco Tomazzoni - iG São Paulo |

Hollywood finalmente acordou para o potencial das comédias politicamente incorretas para adultos. Em 2011, "Missão Madrinha de Casamento" , sucesso de público e crítica, esculhambou com a fábula cor-de-rosa e conseguiu até uma indicação ao Oscar.

Neste ano, é a vez de "Ted", em cartaz a partir desta sexta-feira (21) no Brasil, que provou ser um fenômeno comercial ainda maior: faturou mais de US$ 400 milhões (cerca de R$ 800 milhões) no mundo e já garantiu uma sequência. Afinal de contas, quem não quer ver um ursinho de pelúcia drogado e fã de garotas de programa? Se não é o ideal de cinema de qualidade, certamente chama a atenção.

É o primeiro longa-metragem dirigido por Seth MacFarlane, criador e dublador da série de animação "Uma Família da Pesada". Se antes "Os Simpsons" era considerada ácida e crítica, "Uma Família da Pesada" foi muito mais além, sem medo de escandalizar com sexo, celebridades e uma especial predileção por satirizar cultura pop. Um desenho animado anárquico da escola "South Park", mas na TV aberta dos Estados Unidos – a animação, não é de hoje, serve como guarda-chuva para falar o que não se tem coragem com atores.

Siga o iG Cultura no Twitter

MacFarlane levou a mesma fórmula para o cinema, a começar por corromper um dos gêneros mais sagrados da cultura norte-americana: o especial de Natal. No início de "Ted", um narrador com entonação de conto de fadas (Patrick Stewart, de "Jornada nas Estrelas", uma das taras de MacFarlane, junto com "Guerra nas Estrelas") apresenta a história de John Bennett, um garoto de 8 anos solitário, sem amigos. Na noite de Natal, ele deseja que seu ursinho de pelúcia, Ted, ganhe vida e seja seu companheiro para sempre. "Nada é mais poderoso do que o desejo de um menininho", lembra o narrador, com doçura, "exceto um helicóptero Apache".

Pois uma estrela cadente passa bem na hora e atende ao pedido da criança, para desespero de seus pais, que não conseguem disfarçar o terror ao ver um boneco vivo. Com mentalidade e voz infantil, Ted se torna uma celebridade, alvo de matérias de telejornais e convidado para programas de auditório. Mesmo com a fama, ele nunca deixa John, seu fiel amigo, de lado.

Corte para mais de duas décadas depois. Sentado num sofá vendo "Flash Gordon" (1980), Ted (com a voz de MacFarlane) fuma maconha e imita as mulheres de Boston fazendo sexo. É a deixa para entender que os tempos de ursinho de pelúcia ficaram para trás.

Divulgação
Seth MacFarlane no set de 'Ted': diretor ainda escreveu, dublou e fez captura de movimentos

Sem se importar muito com o futuro, John, agora interpretado por Mark Wahlberg, vai na mesma levada. Tem 35 anos e trabalha numa locadora de carros. Sua ideia de entretenimento perfeito é ficar chapado e ver porcarias na TV com Ted. Um eterno adolescente, e portanto apelo fácil para o público dessa faixa etária.

A questão é que os dois moram com Lori ( Mila Kunis , também dubladora de "Uma Família da Pesada"), namorada há quatro anos de John. Bem-sucedida, ela não aguenta mais ver o namorado perder tempo com Ted, nem encontrar no tapete da sala um cocô feito por uma prostituta chamada Sauvignon Blanc (fruto de uma rodada de "Verdade ou Consequência", justifica Ted). Constantemente assediada pelo chefe (Joel McHale, de "Community"), Lori dá um ultimato para o namorado e pede para Ted se mudar: "Preciso de um homem, não de um garotinho com o ursinho".

Essa é a trama que sustenta o filme, mas são as piadas que fazem a história avançar. Elas são muitas, e vêm na mesma velocidade de "Uma Família da Pesada" – uma comédia, portanto, incansável, com ritmo de sitcom de 20 minutos. Sobram alfinetadas para o último Super-Homem no cinema, Brandon Routh, Susan Boyle, Adam Sandler, Joan Crawford e dá-lhe paródias e referências, de "Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu" (uma sequência da comédia é recriada em detalhes) a "Indiana Jones", "O Silêncio dos Inocentes" e "007 Contra Octopussy".

Destaque também para as participações especiais. Ryan Reynolds faz uma ponta como um homossexual fã de sadomasoquismo. Já Norah Jones, no papel dela mesma, vive uma ex-namorada de Ted (uma boa transa para "alguém que não tem um pênis"), mas as bizarrices ficam mesmo por conta de Sam Jones, estrela de "Flash Gordon", e Tom Skeritt, alvo de uma fascinação inexplicável.

Pode-se acusar MacFarlane de falta de originalidade, já que o mote do roteiro, escrito em parceria com Alec Sulkin e Wellesley Wild, colaboradores de "Uma Família da Pesada", veio diretamente da animação: Ted é uma cópia clara de Brian, o cachorro da série, que também se comporta como humano. O ursinho até mesmo arranja uma namorada burra nos mesmos moldes, Tami-Lynn, muleta para MacFarlane tirar sarro dos brancos caipiras dos EUA, um dos alvos favoritos do diretor.

Isso seria um empecilho se o procedimento não funcionasse tão bem. Além de humorista afiado, MacFarlane conseguiu imprimir personalidade ao ursinho através da técnica de captura de movimentos: enquanto os atores contracenavam olhando para o vazio (destaque para Wahlberg, cada vez mais versátil), o diretor, fora de cena, dizia os diálogos e gesticulava no set, usando um equipamento especial. Dessa forma, Ted realmente ganhou vida.

Além da puerilidade óbvia, "Ted", o filme, perde pontos numa subtrama rocambolesca com Giovanni Ribisi, fã maníaco do ursinho, e em especial por se render ao gênero que queria transgredir – no fim das contas, a pieguice do conto de fadas prevalece. Para quem se esbaldava na radicalidade e coragem do roteiro, a sensação é a de um belo balde de água fria, uma concessão de MacFarlane, que passa a mão na cabeça da plateia. Não tira a graça, ainda bem, da melhor comédia do ano.

    Leia tudo sobre: tedseth macfarlanemark wahlbergcomédia

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG