"Já vivi momentos muito melhores", afirma Lúcia Murat

Diretora apresenta no Festival de Brasília "A Memória que Me Contam", que recupera geração engajada contra a ditadura militar, e lamenta desinteresse do público em "cinema pensante"

Marco Tomazzoni - enviado especial a Brasília |

O fantasma da ditadura militar assombra a obra de Lúcia Murat. Presa e torturada na década de 1970, a diretora carioca não consegue fugir do tema, abordado recentemente no documentário pessoal "Uma Longa Viagem" e em seu primeiro longa-metragem, "Que Bom Te Ver Viva", premiado há 23 anos no Festival de Brasília. Dizendo-se obcecada por essas histórias de violência, a cineasta voltou ao evento com um filme análogo, "A Memória Que Me Contam", exibido na noite de quarta-feira (19) na competição.

Desta vez a aproximação se deu através da ficção, por mais autobiográficos que fossem os contornos. Na trama, um grupo de amigos engajados na resistência rememora o passado enquanto vela pela amiga Ana, o farol de todos eles, internada em estado grave num hospital. Irene Ravache, a protagonista de "Que Bom Te Ver Viva", interpreta uma cineasta feita aos moldes de Murat. A diretora admite que o personagem possa inspirar uma comparação, mas sustenta que o roteiro, elaborado em parceria com a escritora Tatiana Salem Levy, não tem compromisso formal com a realidade.

"É um filme ficcional no sentido de que usa toda a liberdade que a ficção permite", conta Murat ao iG. "Trata-se da memória vista de uma maneira mais livre, íntima, que é totalmente diferente do registro histórico. Permite brincar, aumentar, diminuir, criar outros personagens, inventar. Por isso mudei os nomes."

Porém, a inspiração para a personagem de Ana, retratada na juventude por Simone Spoladore, é claríssima: a socióloga e guerrilheira Vera Sílvia Magalhães, única mulher a participar do sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, em 1969, e a quem o filme é dedicado. Assim como foi representada na ficção, Vera, vítima de um infarto em 2007, sofreu muito com as sequelas da luta armada, mas, intensa e apaixonada, serviu como musa para toda aquela geração. Na tela, sua presença é luminosa.

"Vários diálogos da Ana são, na verdade, de Vera. Tirei de entrevistas e de um livro que estávamos fazendo com declarações dela. Diria que os textos mais bonitos do filme são da Vera", afirma Murat.

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Por mais que "A Memória Que Me Contam" seja, como defende a diretora, sobre amizade, há um inegável traço de desilusão e tragédia permeando toda a narrativa. Além de reprocessar com ar crítico momentos e iniciativas recentes da história brasileira, como o caso Cesare Battisti e a Comissão da Verdade, o longa ainda comenta a posição delicada de dissidentes da ditadura que chegaram ao poder. Na ficção, essa parcela foi representada pelo ator Zecarlos Machado, no papel do ministro da Justiça.

"Acho que o filme trata de limites", reflete Murat. "De alguma maneira todas aquelas pessoas que sobreviveram tiveram que encará-los, coisa que Ana/Vera não conseguiu. A postura dela é muito bonita, apaixonante, mas ela pagou o preço."

Por mais que "A Memória Que Me Contam" reflita sobre o passado do país, a cineasta reconhece a dificuldade que o filme terá para chegar ao público. "O cinema independente de hoje, de autor, pensante, está virando cinema de festival. Já vivi momentos muito melhores. Lançamos dois longas recentemente ("Uma Longa Viagem" e "Histórias que Só Existem Quando Lembradas", de Júlia Murat, filha da diretora), muito bem recebidos, mas que tiveram números ridículos de público."

Isso é um sintoma do que a diretora chama de uma "tragédia" na distribuição no país. "Estão se abrindo cinemas em cidades pequenas, onde não se tem cultura e educação, mas os exibidores não estão preocupados em trazer cultura e educação, e sim mostrar o que a televisão está fazendo, e as pessoas vão querer ver porque é isso o que elas conhecem. Não sei se chego a esse público."

Murat diz ainda que o Brasil não costuma encarar os aspectos mais funestos de nossa história. "A gente não consegue lidar com o horror do passado, mas precisamos abrir esses arquivos e aprender a se relacionar de alguma maneira com a nossa história."

Ao mesmo tempo, ela diz ter tido suas esperanças renovadas com a Comissão da Verdade e protestos recentes de universitários contra torturadores e agentes ligados à ditadura. "Nunca pensei que essa bandeira fosse ser levantada por outra geração", afirma. "Me senti satisfeita com a humanidade e com fé no futuro do país."

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