Documentário "Kátia" retrata primeiro travesti político eleito no Brasil

Longa-metragem da diretora Karla Holanda segue rotina de transexual no sertão do Piauí

Marco Tomazzoni - enviado a Brasília |

Para um documentário, ter um bom personagem já é uma grande parte do trabalho. "Kátia", primeiro longa-metragem dirigido por Karla Holanda, se beneficia diretamente disso ao fazer o perfil de Kátia Tapety, primeira travesti eleita para um cargo político no Brasil. Exibido na noite de quarta-feira (19) no 45º Festival de Brasília de Cinema Brasileiro, o filme cativou a plateia do Teatro Nacional, que aplaudiu com gosto.

Divulgação
A transexual Kátia Tapety no documentário 'Kátia', de Karla Holanda

Eleita três vezes vereadora e vice-prefeita por um mandato, Kátia é apresentada em sua rotina em Colônia do Piauí, município perdido no sertão nordestino com estradas poeirentas e com tantos buracos que o asfalto mal aparece. Ela cuida dos bichos de sua fazenda – cabras, porcos, vacas – com a experiência de quem, vítima do preconceito do pai, ficou confinada no campo para não provocar vergonha à família tradicional indo estudar em Oeiras, a cidade mais próxima. "Sou mulher, mas faço serviço de homem. Sou pau para toda obra", garante.

Dona de uma personalidade exuberante, é no corpo a corpo com os eleitores que ela, por volta de 50 anos, mostra seu potencial político. Pergunta da saúde, dá atenção, conselhos e até criou uma Parada da Igualdade, com trio elétrico e música dance para reunir os homossexuais da região e estimular a tolerância.

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Como retrato, o documentário é bastante amplo. A equipe segue Kátia na sua tentativa de oficializar a adoção de uma menininha, nas viagens para eventos de temática LGBT, na promoção do sexo seguro, em conversas com parentes, reflete sua preocupação com a velhice, seus flertes constantes e uma vaidade a pleno vapor – tudo de uma simpatia arrasadora, e imbuído de uma aura de humor que naturalmente acompanha um personagem desses no interior brasileiro.

Se reforça a luta contra o preconceito e o empoderamento dos homossexuais, ao mesmo tempo "Kátia" deixa latente uma sensação de panfleto. Afinal de contas, está se falando de um personagem político, como as eleições retratadas no filme não deixam esquecer, que pede votos na rua, mesmo que nem sempre de maneira explícita. Não há dúvida de que no futuro Kátia, por melhores que sejam suas intenções, vai usar a fama obtida no cinema como forma de campanha na região. Uma fronteira perigosa, que pode colocar todo o encanto do longa-metragem a perder.

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