Festival de Brasília inicia com dobro de longas na competição

Mais antigo evento do gênero do Brasil divide ficção e documentário em duas categorias; mesmo com problemas de patrocínio, premiação de R$ 635 mil é a maior do país

Marco Tomazzoni - iG São Paulo |

Completando 45 anos, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o mais antigo do país, dobrou de tamanho. Isso porque a mostra competitiva de longas-metragens dividiu ficção e documentário em categorias específicas, cada uma com seis concorrentes, o que era até então o total de cada edição. Outros 18 curtas, divididos em animação, ficção e documentário, também brigam por um troféu Candango, numa premiação agora ampla, que distribuirá no total R$ 635 mil, a maior do país. O evento será aberto nesta segunda-feira (17) com a exibição hours-cours de "A Última Estação", de Márcio Curi, e se estende até o dia 24, data da cerimônia de encerramento.

No ano passado, os organizadores aboliram o ineditismo como requisito para inscrição dos filmes e receberam críticas. Embora a regra ainda esteja valendo, desta vez todos os longas selecionados vão estrear em Brasília. Segundo o diretor-geral do evento, Sérgio Fidalgo, é uma coincidência, originária das comissões de seleção, alteradas a cada edição.

Esse é outro ponto polêmico. Não é de hoje que se ouvem vozes contrárias à rotatividade – a mais recente é a do cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho, de "O Som ao Redor" , que será exibido paralelamente –, que não daria personalidade ou continuidade ao festival. Para Fidalgo, essa proposta não está descartada.

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"O festival está aberto a tantas mudanças desde o ano passado – abriu para o formato digital, para a falta de ineditismo. É uma coisa a se pensar, de ver se na próxima edição vale a pena formar uma curadoria, e dar a ela a responsabilidade de definir qual será a linha da programação. Mas ao mesmo tempo acho que o festival não pode ficar pausterizado em um par de cabeças pensantes. Sao duas questões a serem analisadas. Se eu continuar na coordenação, é uma discussão que vou abrir."

Curiosamente, os seis longas de ficção deste ano se dividem entre dois estados: Rio de Janeiro ("A Memória que Me Contam", de Lúcia Murat; "Esse Amor que Nos Consome", de Allan Ribeiro; e "Noites de Reis", de Vinicius Reis) e Pernambuco ("Boa Sorte, Meu Amor", de Daniel Aragão; "Eles Voltam", de Marcelo Lordello; e "Era Uma Vez Eu, Verônica", de Marcelo Gomes). Desses, dois já foram exibidos no exterior – "Boa Sorte, Meu Amor" foi selecionado para o Festival de Locarno, na Suíça, e "Era Uma Vez Eu, Verônica", do mesmo diretor de "Cinema, Aspirinas e Urubus", integrou a programação de Toronto e em breve vai para San Sebastián, na Espanha.

Divulgação
Ney Matogrosso no documentário 'Olho Nu', de Joel Pizzini

A competição de documentários, por outro lado, tem uma mistura maior de regiões. De Minas Gerais, por exemplo, vem "Otto", do premiado videoartista Cao Guimarães, enquanto o Paraná comparece com "Um Filme para Dirceu" e o Piauí com "Kátia", sobre a primeira travesti brasileira eleita para um cargo político. Verdadeira febre entre os documentaristas do país, a música é tema tanto de "Um Filme para Dirceu" quanto de "Olho Nu", focado na vida de Ney Matogrosso.

Por conta de divisão de categoria entre ficção e documentário, a premiação subiu de R$ 460 mil para R$ 635 mil. O que não quer dizer que o orçamento do festival, cerca de R$ 4 milhões, tenha aumentado, pelo contrário. Conforme Fidalgo, a ausência de patrocinadores fez a organização apertar os cintos – enxugando gastos, reduzindo a equipe de produção – e repassar 70% dos custos para as mãos da Secretaria de Cultura do Distrito Federal.

Casa nova

A 45ª edição do Festival de Brasília terá um seminário comemorativo em memória ao crítico e historiador Paulo Emílio Salles Gomes, fundador do evento. Os debates e parte da programação paralela serão realizados no Kubitschek Plaza Hotel, enquanto as projeções oficiais ganham nova casa: saem do Cine Brasília, em reforma, e passam para o Teatro Nacional Cláudio Santoro, com três salas.

Só a maior, Villa-Lobos, tem capacidade para 1,3 mil espectadores, mais do que o dobro do Cine Brasília. Mesmo assim, a ideia é que no próximo ano o festival retorne para seu local de origem, repaginado com novas poltronas e ampliado para 800 lugares. "O Cine Brasília é o templo do festival", justifica Sérgio Fidalgo.

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Em paralelo às exibições no Teatro Nacional, os filmes da competição são projetados simultaneamente em teatros nas cidades-satélite de Ceilândia, Sobradinho, Taguatinga e Gama. "É um investimento na formação de público, a longo prazo", afirma o diretor do festival. "Não são filmes de fácil digestão que já saíram no mercado, que são sucesso. Às vezes esse público que não está habituado nem a ir ao cinema acha estranho. A ideia é mostrar que existem outras formas de se fazer cinema no país."

Veja abaixo os filmes selecionados para a competição do Festival de Brasília 2012.

Longas-metragens de ficção
"A Memória que Me Contam", de Lucia Murat
"Boa Sorte, Meu Amor", de Daniel Aragão
"Eles Voltam", de Marcelo Lordello
"Era Uma Vez Eu, Verônica", de Marcelo Gomes
"Esse Amor que Nos Consome", de Allan Ribeiro
"Noites de Reis", de Vinicius Reis

Longas-metragens documentário
"Doméstica", de Gabriel Mascaro
"Elena", de Petra Costa
"Kátia", de Karla Holanda
"Olho Nu", de Joel Pizzini
"Otto", de Cao Guimarães
"Um Filme Para Dirceu", de Ana Johann

Curtas-metragens de ficção
"A Mão que Afaga", de Gabriela Amaral Almeida
"Canção para Minha Irmã", de Pedro Severien
"Eu Nunca Deveria Ter Voltado", de Eduardo Morotó, Marcelo Martins Santiago e Renan Brandão
"Menino Peixe", de Eva Randolph
"Vereda", de Diego Florentino
"Vestido de Laerte", de Claudia Priscilla e Pedro Marques

Curtas-metragens documentário
"A Cidade", de Liliana Sulzbach
"A Ditadura da Especulação", de Zé furtado
"A Guerra dos Gibis", de Thiago Brandimarte Mendonça e Rafael Terpins
"A Onda Traz, o Vento Leva", de Gabriel Mascaro
"Câmara Escura", de Marcelo Pedroso
"Empurrando o Dia", de Felipe Chimicatti, Pedro Carvalho e Rafael Bottaro

Curtas-metragens de animação
"Destimação", de Ricardo de Podestà
"Linear", de Amir Admoni
"Mais Valia", de Marco Túlio Ramos Vieira
"O Gigante", de Luís da Matta Almeida
"Phantasma", de Alessandro Corrêa
"Valquíria", de Luiz Henrique Marques

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