"Temos nossos próprios super-heróis", diz diretor de "Tropicália"

Marcelo Machado fala sobre a realização do documentário que registra uma era de ouro da música brasileira, liderada por Caetano Veloso e Gilberto Gil

Marco Tomazzoni - iG São Paulo |

Tudo mudou na cultura brasileira depois de 1967. No auge da chamada era dos festivais, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Os Mutantes romperam com o bom mocismo e a aura casta da MPB ao incorporar a guitarra e a nascente cultura pop. Dali para a frente, a postura cada vez mais radical desse coletivo amplo de artistas, antenado com o rock e a contracultura, ganharia fãs e detratores até o ponto final imposto pela ditadura militar. Era o tropicalismo.

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O estompim do movimento foi muito bem resgatado em "Uma Noite em 67" , mas até hoje essa explosão nunca tinha ganhado um documentário específico. "Tropicália" , que entra em cartaz nesta sexta-feira (14), corrige o erro. Curioso foi que a iniciativa tenha surgido fora do país.

Em entrevista ao iG , o diretor Marcelo Machado comenta que em 2005 os norte-americanos Maurice James e Vaughn Glover, formandos numa universidade de Los Angeles, procuraram o agente de Fernando Meirelles em Hollywood com a proposta de um longa-metragem sobre o tropicalismo. O diretor de "Cidade de Deus" lembrou de Machado, vizinho e amigo de longa data, dos tempos da produtora Olhar Eletrônico, e, hoje com 54 anos, desde sempre interessado em música.

Por coincidência, na época ele lia justamente "Verdade Tropical", as memórias de Caetano sobre o período. Além disso, há pouco havia viajado o mundo (Los Angeles, Berlim, Londres) com seu primeiro longa, o documentário "Ginga", um painel a respeito do futebol tupiniquim.

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Para o diretor, a importância da tropicália nesse contexto começa justamente por ser completamente sui generis. "Não consigo imaginar outro momento das artes no Brasil com pessoas tão diferentes tão juntas, conseguindo trocar e criar tanta coisa em um período tão curto. Ainda mais naquele contexto político, social, do início da televisão, do uso das guitarras, das ferramentas da modernidade... Depois você olha o produto disso e compara com hoje, vê se tem a mesma qualidade de arranjo, de poética? É um momento genial que o mundo respeita."

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Marcelo Machado, diretor do filme 'Tropicália'

O roteiro proposto pela dupla norte-americana não agradou muito – "tinha os desvios que qualquer gringo faria e uma abordagem acadêmica, conversas com brasilianistas" –, mas o interesse confirmou o apelo que o movimento tem no exterior.

Por quase um ano Machado apostou na ideia de ter um narrador gringo, embrenhado no Brasil para investigar as origens tropicalistas. Ele imaginava que, pela tropicália ter se destacado por abrir espaço para influências do exterior, a reverência vinda de fora seria uma espécie de "troco".

O primeiro candidato foi o californiano Beck, fã declarado, que em 1998 chegou a batizar uma música como "Tropicalia". Devendra Banhart, Gruff Rhys (Super Furry Animals), Sean O'Hagan (High Lamas) e Zach Condon (Beirut) também foram sondados, até o diretor perceber que o formato era uma "ilusão". "A história deles ia acabar se sobrepondo às dos artistas brasileiros."

Quando Alexandre Kassin, responsável pela supervisão musical, entrou no projeto, surgiu a ideia de um "filme-evento", em que vários artistas seriam reunidos numa casa para trocar ideias e assistir a vídeos, num verdadeiro "caldeirão". Não demorou para que a proposta, considerada cara e até "pretensiosa", segundo Machado, fosse deixada de lado. Felizmente, já que "Futuro do Pretérito: Tropicalismo Now!", de Ninho Moraes e Francisco César Filho, faz algo parecido.

Personagens: quem é quem na Tropicália

"Uma Noite em 67" havia deixado Machado bem mais preocupado. O longa dirigido por Ricardo Calil e Renato Terra retrata o Festival de Música Popular Brasileira de 1967, famoso por ser o embrião da tropicália e essencial, portanto, para qualquer filme sobre o movimento. Machado conta que viu uma versão inicial do documentário na casa de Calil e logo percebeu o "drama". "Saí de lá mal", lembra. "Eles já usavam uma entrevista de Caetano nos bastidores da Record que era ouro em pó, estava até no nosso teaser. Como a gente faria para falar de 'Alegria, Alegria' e 'Domingo no Parque'? Aos poucos, porém, fomos achando os nossos caminhos."

Cenas raras vieram da Europa

O diretor explica que um certo "prurido" dos protagonistas do movimento, de certa forma incomodados por ter de falar de novo sobre um tema tão abordado, fez com que a equipe esquecesse as entrevistas em um primeiro momento e passasse a se dedicar exclusivamente ao material de arquivo. "Foi uma maneira de se debruçar sobre o assunto sem precisar fazer a corte dessas pessoas que tem uma agenda tão complicada", conta Machado. "Miguel Gonçalves, que fez (o documentário) 'José e Pilar' , ficou três anos vivendo com o Saramago, e em 'Coração Vagabundo', o diretor fez uma turnê com o Caetano. Não era a minha estratégia."

Aí as coisas começaram a dar certo. Isso porque os pesquisadores Eloá Chouzal e Antônio Venâncio encontraram imagens raríssimas, algumas inéditas, revirando acervos privados e públicos no Brasil e no exterior. O lançamento do disco manifesto "Panis et Circenses", o casamento hippie de Caetano Veloso e Dedé Gadelha em Salvador, uma festinha de aniversário no exílio de Caetano e Gil em Londres, curtas e longas-metragens diversos, tudo contribuiu para criar um painel colorido daquela época, reunido pela primeira vez.

As cenas mais curiosas vieram de fora. Pouco depois de deixar o Brasil em 1969, após dois meses na cadeia e outros quatro em prisão domiciliar, a dupla Gil e Caetano participou de um programa português antes de seguir para a Inglaterra. Machado viu a referência ao ler o Pasquim, numa carta enviada por Caetano ao jornal, e foi atrás. "O vídeo está lá, digitalizado, na cara do gol, esperando alguém chutar", diz o diretor, que usou as imagens para abrir o documentário.

Os dois, ao lado de uns 20 brasileiros, também fizeram uma participação esquisitíssima em 1970 no Festival da Ilha de Wight, no interior inglês, no mesmo ano em que tocaram artistas como Miles Davis, The Doors e Jimi Hendrix. O show, filmado, nunca havia vindo a público.

O preço alto das imagens, nas mãos de um cinegrafista britânico, impediu que a versão final pudesse usar o material na íntegra – desde o início, um time de advogados se encarregou de cuidar dos direitos autorais –, mas a equipe desembolsou dinheiro mesmo foi para pagar as performances dos Mutantes e de Caetano na televisão da França, de propriedade do Instituto Nacional do Audiovisual (INA), órgão estatal francês. "Não acho legal como política pública", condena Machado, "ainda mais que trata da imagem de artistas nossos".

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Ao mesmo tempo, o cuidado que os europeus têm com sua história revela um contraste gritante com a realidade brasileira. Enquanto por lá arquivos históricos estão recuperados e digitalizados, por aqui o trabalho ainda engatinha – vide a situação calamitosa da Biblioteca Nacional . Se as imagens do Festival da Record de 1967, restauradas pela emissora, estão cristalinas, as do evento no ano seguinte são sofríveis – no filme, no que o diretor chama de "uma homenagem à nossa precariedade", elas aparecem projetadas num painel, afixadas com fita crepe.

Registros de momentos importantíssimos, como o show happening de Caetano e Mutantes na boate Sucata, no Rio, o célebre discurso do cantor no primeiro Festival Internacional da Canção de 1968 – aquele em que, vaiado pela plateia ao cantar "É Proibido Proibir", ele retruca gritando "vocês não estão entendendo nada" – e o amalucado programa "Divino Maravilhoso", que reuniu os tropicalistas na televisão, não existem mais.

"A gente fez um esforço imenso, inclusive animando fotos, para mostrar tudo isso", comenta o diretor. "Essa, inclusive, era uma das maiores restrições do Caetano, que dizia ser muito duro saber que muita coisa havia se perdido."

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Capa de disco de Gilberto Gil de 1968 combinada com cores e outras imagens: tipo de "mashup"

Diretor "pronto para levar pau"

Além de dar maior clareza para o formato que "Tropicália" teria no final, as imagens raras serviram de chamariz para os entrevistados. A grande maioria dos artistas – Caetano, Gil, Arnaldo Baptista, Sérgio Dias, Rogério Duarte – aceitou gravar seu depoimento. Apesar de dar um verdadeiro show diante das câmeras quando enfim topou aparecer, Tom Zé, meio desconfiado, foi o único que pediu para ver o material dos outros, não só o seu.

"Você vê que são cuidados que ele toma meio que de gato escaldado. Tom Zé ficou mais de década esquecido, é notório que ele ficou magoado", afirma Machado, lembrando o período de ostracismo que o cantor viveu até a década de 1990, quando foi "redescoberto" por David Byrne. O diretor, no entanto, diz que preferiu não explorar o assunto na conversa. "Ia fazer um filme sobre intrigas, o que particularmente nunca me estimulou."

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Tom Zé segura claquete do documentário: cantor ficou desconfiado no início

É por isso que o diretor fica um pouco reticente ao assumir Caetano como o líder tropicalista. "Acho que ele assume essa responsabilidade, mas será que a gente precisa de uma figura assim? Não queria cometer de novo uma injustiça. Caetano é um músico talentosíssimo. Gosta de música e de ideias, discute, está interessado no Brasil. Você pode discordar, dizer que o Caetano está dizendo merda, mas ele fala, não foge do debate, desde aquela época. Mas não se pode tirar o mérito de outras pessoas que não se expressam tão bem verbalmente. Gosto de pensar a tropicália como um coletivo."

Rita Lee (avessa àqueles tempos) e Gal Costa não quiseram colaborar. Por conta disso, se recorreu a entrevistas antigas, algumas nunca utilizadas, o que Machado sugere ser uma forma de "cinema sustentável". No caso das duas cantoras, as imagens saíram de "Tropigal", documentário de Carlos Ebert e Marcelo Bartz. O mesmo procedimento foi utilizado para cenas de Hélio Oiticica, Glauber Rocha e Chacrinha, gravadas por Silvio Da-Rin nos anos 1970 para um filme inacabado sobre o tropicalismo.

A versão final da montagem, no entanto, com uma hora e 20 minutos de duração, é bem mais complexa do que simplesmente combinar o antes e depois. Centrada entre 1967 e 1972, quando Caetano e Gil voltam do exílio, a narrativa une imagens de arquivo, fotos, áudio e entrevistas atuais, costurados com efeitos psicodélicos e grafismos diversos.

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"Foi um processo de edição insano, infernal, de busca, acerto e erro", confessa o diretor, que no meio do caminho convocou o roteirista Di Moretti. Profissional experiente, ele teria trazido um "olhar novo" e ajudado a distinguir o real valor de algumas cenas que Machado e o montador Oswaldo Santana já não tinham tanta certeza – a interpretação de Caetano para "Asa Branca" na TV francesa, por exemplo, um dos melhores momentos do filme, quase ficou de fora.

Muita coisa, no fim das contas, acabou ficando de fora do filme, que deve ganhar no final do ano uma versão recheada de extras em DVD. Machado cita como exemplo as entrevistas com o maestro Julio Medaglia e Manoel Barenbein, produtor de muitos dos discos do período, dois dos personagens que acabaram cortados ou que ganharam pouco espaço. "São figuras importantíssimas, que abri mão. Vou levar pau, com certeza, assim como dos torquatistas e capinanzistas", diz o diretor, citando também os admiradores de Torquato Neto e José Carlos Capinam, letristas da tropicália.

"Tropicália" estreia primeiro em oito cidades (São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Recife, Porto Alegre, Brasília, Cotia e Barueri), mas nas próximas semanas deve ampliar o circuito, com cópias digitais e em película. Machado usa o desempenho de dois documentários musicais recentes, "Uma Noite em 67" (80 mil espectadores) e "Raul: O Início, O Fim e o Meio" (170 mil), como parâmetro para a carreira nos cinemas. "Se ficarmos no meio disso, consideramos um sucesso." O diretor ainda brinca ao falar da concorrência do filme com blockbusters hollywoodianos: "Nós temos nossos próprios super-heróis".

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