Com imagens raras, "Tropicália" recupera momento essencial da cultura brasileira

Documentário de Marcelo Machado é obrigatório para entender a influência de Caetano Veloso, Gilberto Gil e companhia nas artes do país

Marco Tomazzoni - iG São Paulo |

Antes de ser medalhões da música brasileira, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Tom Zé e Rita Lee, junto com Os Mutantes, eram jovens. Jovens revolucionários dos anos 1960, que, se não carregavam armas e vestiam roupas camufladas, pelo menos com sua postura libertária, em rede nacional, ofereciam perigo.

Personagens: quem é quem na Tropicália

Ao mesmo tempo em que balançavam as bases do conservador establishment tupiniquim com rock e palavras de ordem, eram estrelas da mídia, numa combinação curiosa e poderosa. Esse era o mundo do tropicalismo, que o documentário "Tropicália", em cartaz a partir desta sexta-feira (14), se esforça em retratar.

Movimento cultural mais importante do país dos últimos 50 anos, o tropicalismo nunca havia ganhado um filme, digamos, formal. Exibido em festivais neste ano, "Futuro do pretérito: Tropicalismo now!" , de Ninho Moraes e Francisco César Filho, se aventurou por esse universo, mas de forma bem mais livre, sem compromisso com fatos e nomes. Nesse sentido, o longa-metragem de Marcelo Machado ("Ginga") se torna de cara essencial por ser justamente único.

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Ainda bem que essa não é a sua única qualidade. Desde o início "Tropicália" enche os olhos por trazer farto material de arquivo, boa parte pouco conhecido – em se tratando de figuras tão midiáticas quanto Gil e Caetano, é um feito e tanto.

O filme recua um pouquinho no tempo para contextualizar seus personagens, mas se mantém essencialmente entre 1967 e 1969, período em que o movimento aconteceu de verdade. Depois disso, avança até o início da década de 1970 para acompanhar o exílio de Caetano e Gil na Inglaterra. O foco faz bem à narrativa, embora não garanta que o documentário escape de uma certa superficialidade.

Seria impossível fazer um filme definitivo sobre o tropicalismo com uma hora e 20 minutos de duração. Um momento tão complexo da cultura e do país, com tantos personagens, renderia facilmente uma minissérie em capítulos para, aí sim, comportar entrevistas, história e números musicais a contento.

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"Tropicália" abre mão do didatismo para mostrar um painel amplo. Está tudo lá, mas nem tudo recebe a atenção que merece e quem não está familiarizado com o assunto pode facilmente não perceber a citação, às vezes restrita a uma foto que aparece por segundos. É o caso, por exemplo, do escritor José Agrippino de Paula, do artista Rubens Gerchman, de Jorge Ben e até mesmo de figuras importantes do tropicalismo, como os letristas Torquato Neto e José Carlos Capinam. De certa forma, funciona quase como um grande videoclipe com ambições documentais.

Mesmo assim, o filme compila um bocado de informação e serve como um excelente cartão de visitas para quem quiser se aprofundar mais. A apresentação dos fatos que culminaram no tropicalismo é exemplar, um turbilhão do qual fizeram parte a Jovem Guarda, o cinema de Glauber Rocha em "Terra em Transe", os parangolés e instalações de Hélio Oiticica (autor da expressão "tropicália") e o teatro de Zé Celso Martinez Corrêa, cuja montagem de "O Rei da Vela" trouxe à tona o ideário antropofágico de Oswald de Andrade – ingerir as influências estrangeiras e regurgitá-las na forma de um produto original.

O início de tudo foi o Festival de Música Popular Brasileira da TV Record – recuperado com excelência em "Uma Noite em 67" –, quando Gilberto Gil, acompanhado pelos Mutantes, combinou Beatles, Banda de Pífaros de Caruaru (nas palavras do autor, o "folk pernambucano"), a agressividade do rock e roda de capoeira em "Domingo no Parque", enquanto Caetano abraçava a cultura pop e as guitarras em "Alegria, Alegria".

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O sucesso do experimento fez o grupo apostar cada vez mais alto, uma radicalidade bem exemplificada no discurso inflamado de Caetano no Festival Internacional da Canção, debaixo de vaias ao cantar "É Proibido Proibir", e o amalucado programa de TV "Divino Maravilhoso", em que plantar bananeira era tão trivial quanto ver a banda passar.

Para os já iniciados, além da chance de ouvir uma trilha sonora dos sonhos no cinema e ver entrevistas atuais com toda essa gente, o grande atrativo são as imagens. Nas mãos do montador Oswaldo Santana ( "Bruna Surfistinha" , "Natimorto" ), até mesmo as fotos da época, a maioria em preto e branco, ganham cadência e movimento, através de cores psicodélicas que invadem a tela, ou com animações criativas que utilizam até canetinha e recortes de jornal para ilustrar cenas que se perderam com o tempo.

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Não tem preço assistir a Roberto Carlos, de cartola, cantar "Se Você Pensa" num cenário com castelos e cogumelos gigantes. Ou acompanhar o casamento hippie de Caetano e Dedé Gadelha em Salvador, na beira da praia, com biquini, plumas e um exército de fotógrafos. Ver Os Mutantes, no mesmo programa jovem em que estão os Novos Baianos e Tom Zé (usando um lenço de caubói), tocando "Panis et Circenses", e depois na TV francesa, combinando guitarras wah wah e pandeiro em "Batmacumba".

Os pontos altos, porém, são as raríssimas apresentações de Caetano e Gil no Festival da Ilha de Wight, na Inglaterra, em 1970, e a performance de Caetano num programa francês – com cabelos a la Maria Bethânia e apresentado como "um mito, um dos músicos mais maravilhosos do mundo", ele defende, sozinho no violão, "Asa Branca" .

Pérolas como essas só foram possíveis graças a um hercúleo processo de pesquisa e restauração, levado a cabo ao longo de cinco anos. O resultado final é um filme colorido e coeso, de acabamento internacional, que recupera e presta tributo a um capítulo primordial de nossa história, além de escancarar sua influência até hoje. Obrigatório para entender a cultura brasileira.

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