"Totalmente Inocentes" parodia filmes de favela, mas esquece de fazer rir

Faltam piadas e criatividade para a primeira produção brasileira do gênero, que tem Fábio Assunção e Ingrid Guimarães no elenco

Marco Tomazzoni - iG São Paulo |

Hollywood é tão pródiga em paródias que surpreende o fato de o Brasil não ter investido antes no formato. "Corra que a Polícia Vem Aí", "Todo Mundo em Pânico" e até uma animação, "Deu a Louca na Chapeuzinho", são alguns exemplos do gênero, não raro de qualidade duvidosa, que se deram bem nas bilheterias brasileiras ao tirar sarro de filmes de sucesso. Pois agora o cinema nacional finalmente faz sua contribuição com "Totalmente Inocentes", que estreia nesta sexta-feira (7) no país. Poderia ter demorado um pouco mais.

A ideia do diretor Rodrigo Bittencourt, também um dos autores do roteiro, era fazer graça com os "favela movies", gênero que tem como expoentes "Cidade de Deus" e os dois "Tropa de Elite". Para isso, criou a fictícia comunidade do DDC, no Rio de Janeiro, comandada pelo traficante transexual Diaba Loira (Kiko Mascarenhas). Acuada pela polícia, a Diaba é traída pelo maníaco Do Morro (Fábio Porchat), seu braço-direito, que assume a liderança da boca.

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Do Morro quer conquistar Gildinha (Mariana Rios), estudante de jornalismo e musa local, também a menina dos olhos de Da Fé (Lucas D'Jesus), herói da história. O garoto é tão apaixonado que leva no bolso um par de alianças para pedi-la em casamento. Ao seu lado, estão o irmão Torrado (Carlos Evandro) e Bracinho (Gleison Silva). O trio coloca na cabeça que a única forma de Gildinha se interessar por Da Fé é se eles virarem criminosos perigosos. Para isso, contam com a ajuda do incompetente Wanderlei (Fábio Assunção), repórter e fotógrafo da revista sensacionalista Taras e Tiros.

Eis a trama básica de "Totalmente Inocentes", e não é difícil perceber que ela não tem a menor graça. O principal problema, além da direção inexperiente, é o roteiro, carente de piadas verdadeiras dos filmes de favela. Um cartaz de "Tropa de Elite 2" e uma televisão passando "Cidade de Deus" não criam uma conexão formal para constituir uma paródia propriamente dita.

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O que existe é de uma criatividade indigente – as cenas da perseguição da galinha e da aula do capitão Nascimento sobre estratégia, nessas alturas, já estão mais do que batidas. O ator Leandro Firmino, célebre como o Zé Pequeno de "Cidade de Deus", interpreta o Cabo Tranquilo, enquanto Fábio Lago vive o Cabo Nervoso , seu parceiro. A graça? Tranquilo é nervoso e Nervoso, tranquilo. Renato Aragão faria melhor.

Sem uma história forte, o elenco acaba desperdiçado. Assunção paga mico, deslocado, e o trio de meninos protagonistas, estreantes no cinema, não sabe para onde vai. Mariana Rios, esforçada, se sai melhor, mesmo que sua caracterização de Lady Gaga fique perdida no conjunto. Humorista de talento, Fábio Porchat exagera na cara de mau e, depois de um tempo, seu personagem não convence mais. Quem sai ilesa é Ingrid Guimarães – numa participação especial como a editora lésbica da Taras e Tiros, ela se vira com o que tem nas mãos.

O pior é a participação da celebridade internética Felipe Neto. Introduzido como apresentador de um telejornal on-line descolado sobre o morro (!), ele vira uma espécie de narrador da história, com intervenções constantes. Se na vida real Neto não é das atrações mais agradáveis, na ficção, com cabelo vermelho Pica-Pau e voz estridente, se torna absolutamente insuportável.

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A grande contribuição de Bittencourt foi dar uma cara pop às imagens, através de intervenções digitais. Fã de "Scott Pilgrim Contra o Mundo", o diretor trouxe a mesma estética de videogame, com placar, animações e grafismos para ilustrar o que os personagens estão dizendo ou sofrendo. Até pode dar a impressão de modernidade, mas depois de "Scott Pilgrim" e do brasileiro "2 Coelhos", soa mais como uma cópia cansada.

Pensando em termos de indústria do cinema nacional, "Totalmente Inocentes" é sem dúvida necessário. Comédias fazem o público sair de casa, o dinheiro girar e fortalecem o setor, sem contar a intenção de explorar a paródia, um filão inexplorado por aqui. "Totalmente Inocentes", porém, evidencia a pressa para botar na rua um projeto que não estava maduro o suficiente. Um desperdício.

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