Em "A Rebelião", Mathieu Kassovitz acerta a mão

Cineasta francês utiliza insurgência na Polinésia Francesa para retratar a postura de seu país diante do neocolonialismo

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Ator e diretor consagrado na França, Mathieu Kassovitz já passou por Hollywood , assinando "Na Companhia do Medo" (2003) e "Missão Babilônia" (2008) - filmes que podem ter acrescentado dólares à sua conta bancária, mas não lustraram a estrela do magistral diretor de "O Ódio", vencedor do prêmio de melhor direção em Cannes e de três César, inclusive melhor filme, em 1995.

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Em seu novo trabalho, "A Rebelião", em que atua e dirige, além de assinar em parceria a produção, o roteiro e a montagem, Kassovitz voltou para a cultura francesa e a política, campos em que exercita o melhor de seu talento.

Sempre em cena, ele cria um clima tenso e envolvente ao recontar um episódio verídico, uma rebelião ocorrida em 1988 na Polinésia Francesa, baseando-se em livro de um participante direto dos fatos, o capitão Philippe Legorjus, "Ouvéa, La Republique et Lamorale".

Kassovitz interpreta o capitão da GIGN, uma força altamente preparada e especializada na negociação de crises. Ele e seu pelotão são chamados a agir quando um grupo de 30 militares franceses é tomado como refém por rebeldes Kanak, que procuram a independência da ilha de Ouvéa, Nova Caledônia - até hoje, país ultramarino dependente da França.

Chamada para evitar um banho de sangue, a GIGN não vem só. Centenas de militares franceses de outras unidades, fortemente armados, já desembarcaram. O comando da operação não é da GIGN, o que obriga Legorjus e seus homens a acatar ordens num contexto político delicado.

Nesse momento, está para acontecer o segundo turno das eleições presidenciais francesas, opondo o então presidente socialista François Mitterrand e seu primeiro-ministro centrista, Jacques Chirac.

É o ponto de vista do capitão, onipresente em cena e, em alguns momentos, participando pela narração em off, que comanda a narrativa. Suas exaustivas idas e vindas no território conflagrado procuram criar um diálogo entre todas as partes, que terão voz no decorrer da trama, fornecendo um retrato límpido de uma crise extremamente complicada.

O esforço incessante do capitão, tendo como interlocutor o líder rebelde Alphonse Dianou (Iabe Lapacas), evidenciará também seu isolamento diante das intrigas de gabinete cujas origens conduzem ao Champs Elysées, sede do governo central francês - onde salta aos olhos a pouca diferença entre esquerda e direita quando se trata de uma postura diante do neocolonialismo.

Não por acaso, o filme pode evocar a situação da Argélia colonial, mostrada à perfeição no clássico do cinema político "A Batalha de Argel" (1966), do italiano Gillo Pontecorvo.

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