Hollywood é território inóspito para diretores brasileiros

Cineastas como Fernando Meirelles e Walter Salles não conseguem repetir no exterior o sucesso alcançado no País

iG São Paulo | - Atualizada às

Filmes nacionais que conciliam sucesso de público e de crítica funcionam como um trampolim para seus diretores, que entram na mira dos estúdios internacionais. Mas um orçamento maior e estrelas de Hollywood no elenco não são garantia da repetição do sucesso atingido nos cinemas brasileiros.

Há vários casos. Como o de Walter Salles, que após ganhar notoriedade com "Central do Brasil" (1998) arriscou-se sem sucesso no remake americano do terror japonês "Água Negra" (2005). Estrelado por Jennifer Connelly, o filme recebeu críticas severas e arrecadou apenas US$ 49 milhões (R$ 99 milhões), a um custo de US$ 60 milhões (R$ 121 milhões).

"Almodóvar já recebeu um monte de propostas para filmar em Hollywood. Por que não aceita? Ele diz que quando vai para lá deixa de ser Almodóvar e entra no sistema de produtor, onde o diretor é quase coadjuvante", disse Celso Sabadin, crítico e diretor do futuro documentário sobre Mazzaropi.

De acordo com ele, Hollywood não faz mal apenas aos cineastas brasileiros. "Na história do cinema, salvo raras exceções, como Hitchcock, isso aconteceu muito. Fritz Lang, por exemplo: por melhor que sejam seus filmes americanos, e são bons, nunca tiveram a mesma força dos filmes que ele fez na Alemanha. Quando ele vai para os EUA, vira a peça de uma engrenagem, troca o cinema autoral por um cinema indústria".

Após o lançamento de "12 Horas", seu primeiro trabalho em Hollywood, o diretor Heitor Dhalia classificou a contratação de um cineasta brasileiro como "comprar uma ação em baixa". "O talento estrangeiro entra como mão de obra barata e é mais fácil de controlar. A partir daí depende da sorte ou do destino para ver qual será seu limite criativo", disse em entrevista ao iG .

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Heitor Dhalia, Amanda Seyfried e o produtor Tom Rosenberg: problemas para filmar "12 Horas"

Avaliando a experiência, Dhalia afirmou que só volta a filmar no exterior com outro tipo de contrato. "Só vou topar um filme se for para fazer melhor do que aqui, não tem mais sentido em passar por isso: morar fora um ano, trabalhar com um cara que só me f*, depois tomar porrada por ele... Para quê?"

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Produtora de "O Que Se Move", de Caetano Gotardo, e de filmes como "Trabalhar Cansa" e "Girimunho", Sara Silveira acredita que os compromissos artísticos e criativos de filmes feitos no Brasil e em Hollywood são diferentes. "Quando você faz coisas fora de seu lugar, talvez a sua responsabilidade se modifique, porque você não está em seu território natural."

Fernando Meirelles, o premiado diretor de "Cidade de Deus" (2002), disse em entrevista ao iG que prefere trabalhar em produções independentes para evitar a "estrutura de estúdio, em que a relação é de contratante e contratado". "O cara é seu patrão e tem a palavra final. Aí é muito difícil. Nunca topei fazer um filme de estúdio por esta razão, mas também nunca digo nunca."

"Há uma grande diferença entre fazer um filme de estúdio (Hollywood, como a turma chama) ou um filme independente, como os que eu faço. Para um filme de estúdio os caras te contratam, então de cara a relação que se estabelece é de contratado e contratante ou de empregado e patrão. Num filme independente o que se faz são parcerias, os produtores neste caso não são patrões, mas sócios. Todo mundo tem o mesmo nível de decisão e joga junto, todos são sócios na empreitada. Por causa desta diferença dá para entender porque as relações são bem melhores".

Mesmo assim, Meirelles sofreu com a má recepção de seu segundo trabalho internacional, a adaptação de "Ensaio Sobre a Cegueira" (2008). Críticas severas, como a de Roger Ebert, que classificou o longa como "um dos mais desagradáveis e insuportáveis já vistos", atrapalharam seu desempenho, que não superou o orçamento de US$ 25 milhões (R$ 50.5 milhões).

Meirelles citou uma conversa que teve com José Padilha, diretor de "Tropa de Elite" , como exemplo de como Hollywood é um local difícil. "Ele está em Toronto, fazendo 'Robocop', e me disse que está sendo a pior experiência da vida dele, nunca sofreu tanto. Contou que passa de segunda a quinta tendo ideias, melhorando o filme, para na sexta fazer uma reunião com os produtores e eles jogarem nove das ideias que criou no lixo".

Divulgação
O diretor José Padilha (esquerda) no set de "Tropa de Elite": filme foi passaporte para o novo "Robocop"

Para Paulo Sérgio de Almeida, diretor do Filme B, é difícil imaginar uma mudança nesse panorama. "Acho que não é fácil para o Fernando achar outro 'Cidade de Deus'. Não só achar, mas construir aquele sucesso. E se eu fosse o Padilha, não sei se faria 'Robocop'. Realmente ele vai ser mais usado do que vai usar".

Apesar disso, há quem discorde da possibilidade de sucesso no exterior. Crítico e curta-metragista premiado, o pernambucano Kleber Mendonça Filho, que apresentou em Gramado seu primeiro longa, "O Som ao Redor" , cita Roman Polanski como um diretor estrangeiro que funcionou fora de sua cultura. "Ele fez 'Faca na Água' (1962) na Polônia, depois foi para Londres fazer 'Repulsa ao Sexo' (1965) e nos EUA, 'Bebê de Rosemary' (1968), 'Chinatown' (1974), um diretor com visão fortíssima".

"Cada filme tem de ser analisado de acordo com o que o filme foi. Observo às vezes que um diretor sai de seu elemento, e isso acontece com várias nacionalidades, inclusive com brasileiros: vai para Hollywood, e quando não dá certo, culpa exatamente o sistema para o qual aceitou trabalhar. 'Ah, não, o filme é do produtor'. Sim, mas você já sabia disso, então não deveria reclamar porque se propôs a isso", diz Kleber.

Divulgação/Agência Foto
O diretor Cláudio Assis, de "Febre do Rato"

Conhecido por trabalhos autorais como "Baixio de Bestas" (2006) e "Febre do Rato" (2011), o cineasta pernambucano Cláudio Assis quer distância de Hollywood. "O Heitor (Dhalia) dizia que queria ir para Hollywood e voltou frustrado. Não podia mexer em nada e mal falar com o ator. Como eu não posso falar com meu ator? Eu quero esse negócio pra mim? Claro que não."

"Não faço cinema de produtor, meu cinema é de diretor. Hollywood é tudo mentira. Eles querem que a gente seja igual a eles, e nós não somos. Temos de falar com a nossa aldeia, ser honesto com o nosso povo e conquistar a América Latina. Não temos que ser escravos."

Além de Padilha com o remake de "Robocop", outro diretor brasileiro que deve estrear em Hollywood é Afonso Poyart, de "2 Coelhos". Em entrevista ao iG , o cineasta, "praticamente fechado num projeto para rodar no ano que vem", mostrou empolgação e ressalvas à indústria.

"Ouvi histórias de todos os tipos, do produtor mandar em tudo até do estúdio 'filmmaker
friendly' (amigável para o realizador). Com certeza não é simples. É uma indústria, bem
diferente do Brasil. São milhões e milhões de dólares em jogo. O objetivo é primeiro ganhar
dinheiro e de repente fazer um bom filme. Ninguém quer perder."

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