Em entrevista ao iG, diretor comenta épico da imigração japonesa pós-Segunda Guerra no Brasil

Mais de um ano depois de sua primeira exibição pública, na abertura do Festival de Paulínia , "Corações Sujos" finalmente estreia em território brasileiro, nesta sexta-feira (17). Adaptação do livro-reportagem de Fernando Morais , o filme conta a pouco conhecida história de imigrantes japoneses no Brasil que, alheios à derrota na Segunda Guerra Mundial, dão origem nos anos 1940 a uma onda de violência que extermina quem se atreve a duvidar do triunfo nipônico no conflito.

Trata-se de um épico histórico, falado em japonês e, à exceção de alguns poucos atores, caso de Eduardo Moscovis, com elenco totalmente de lá. Apesar de a trama ser situada e filmada no Brasil, é uma proposta ousada para atrair a atenção do público.

"O fato de ser falado em outra língua certamente não ajuda. Querer que um filme em japonês faça um sucesso tremendo no Brasil é maluquice", admitiu ao iG o diretor Vicente Amorim, no Festival de Paulínia. "Mas não acho que seja um problema especial, porque o público brasileiro está mais do que acostumado, pelos motivos errados, a ver filme com legenda."

Isso não chega a ser novidade na carreira do cineasta, de cidadania brasileira mas nascido na Áustria, durante as andanças do pai, o diplomata e atual ministro da Defesa Celso Amorim . Por anos assistente de Cacá Diegues, Vicente estreou em longa-metragem com "O Caminho das Nuvens" (2003), em que Wagner Moura pedala do Nordeste para o Rio de Janeiro em busca de um emprego melhor, mas na sequência foi para o exterior filmar em inglês "Um Homem Bom", estrelado por Viggo Mortensen.

Como era um projeto independente, sem o envolvimento de grandes estúdios, o diretor diz ter tido a mesma liberdade dos filmes que fez no Brasil, embora o orçamento fosse de US$ 15 milhões, bem superior à média nacional. Fora isso, Amorim nega ter tido qualquer choque ao voltar à realidade brasileira.

Violência funciona como veículo para extravasar vergonha e frustração após a derrotsa do Japão na Segunda Guerra Mundial
Divulgação
Violência funciona como veículo para extravasar vergonha e frustração após a derrotsa do Japão na Segunda Guerra Mundial

"Existe muita mistificação sobre fazer cinema norte-americano ou europeu. Hoje em dia, para uma produção como 'Corações Sujos', a estrutura é praticamente igual a de um filme médio nos EUA. A diferença é que você tem que ser mais preciso e mais rápido, porque tem menos dinheiro, mas as condições para se chegar ao resultado do filme são quase as mesmas. O cinema brasileiro atingiu um nível de profissionalismo muito parecido ao de produções internacionais."

Sem vergonha de emocionar

A trama de "Corações Sujos" enfoca a ação do Shindo Renmei, grupo paramilitar que se reúne na clandestinidade para punir aqueles que acreditam na derrota do Japão na Segunda Guerra, quando não se tinha acesso à informação. Numa cidade não-identificada do interior brasileiro, o pacato fotógrafo Takahashi (Tsuyoshi Ihara, de "Cartas de Iwo Jima") se converte num justiceiro sanguinário, para tristeza de sua mulher, a professora Miyuki (Takako Tokiwa).

O diretor contou que essa negação sistematizada da realidade foi um fenômeno exclusivo do Brasil, já pesquisado por sociálogos e historiadores. "Houve muito sofrimento no Japão. O que se ouvia falar era de soldados japoneses perdidos no Pacífico e que não sabiam que a guerra tinha acabado. Até onde sei, uma organização como a Shindo Renmei foi única no mundo."

Vicente Amorim declarou mais de uma vez não ter vergonha de se comunicar com a plateia, seja nos closes nos momentos dramáticos, seja na trilha sonora superlativa. "Privar o público da emoção que eu senti ao ler o livro e ao ouvir relatos dos sobreviventes seria uma traição. Por que eu ia esconder isso e fazer um filme hermético, difícil, de comunicação truncada?", indagou.

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"Obviamente nenhum dos filmes que eu fiz são fáceis, óbvios, mas nenhum deles foi feito à revelia de se comunicar com o maior público possível. Se a ideia fosse fazer um filme só por satisficação pessoal, era melhor ficar em casa escrevendo poesia, muito mais barato."

"Corações Sujos" entra em cartaz com cerca de 50 cópias em todo o país. Amorim acredita que, se transposto o estranhamento inicial por ser uma produção falada em japonês, o filme pode cair no gosto popular.

"Se a gente conseguir divulgá-lo e fazê-lo chegar ao público, provocar a curiosidade necessária, acho que as chances dele são reais. É um filme certamente mais denso do que as neochanchadas lançadas atualmente, mas não vejo problemas além da dificuldade de lançar um filme dessa natureza, seja qual for a temática."

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