Fernando Meirelles tenta abraçar o mundo em "360"

Com roteiro do celebrado Peter Morgan, filme com Anthony Hopkins e Jude Law não vai longe ao cruzar histórias de um punhado de personagens

Marco Tomazzoni - iG São Paulo | - Atualizada às

A união entre Fernando Meirelles e o roteirista Peter Morgan em "360" havia gerado um bocado de expectativa. Afinal de contas, o diretor de "Cidade de Deus" ia filmar uma história escrita pelo autor de "A Rainha" e "Frost/Nixon" com um elenco estrelado – Anthony Hopkins, Jude Law e Rachel Weisz estão na linha de frente. Isso sem falar do sentimento de Copa de Mundo que vem atrelado ao fato de ter um brasileiro filmando no exterior.

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Desta vez, porém, a sensação é de ver a Seleção perdendo mais uma vez. Com estreia nacional nesta sexta-feira (17), depois de passar pelos cinemas dos Estados Unidos, França e Alemanha, "360" se torna um capítulo pouco memorável na filmografia de Meirelles, que havia se saído bem melhor em "O Jardineiro Fiel" e "Ensaio sobre a Cegueira", seus outros projetos internacionais.

Livremente baseado na peça "Ronda", do austríaco Arthur Schnitzler, "360" reprisa a estrutura polifônica que Morgan já havia esboçado em "Além da Vida" (2008), na qual personagens de histórias diferentes acabam, de alguma forma, cruzando seus destinos. Se no drama sobrenatural de Clint Eastwood havia três arcos dramáticos, em países diferentes, agora Morgan foi bem mais ambicioso: são nove histórias sendo contadas paralelamente, filmadas nos EUA, França, Áustria, Inglaterra e Eslováquia.

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Em Londres, Rachel Weisz mantém um caso com o fotógrafo brasileiro interpretado por Juliano Cazarré. Maria Flor, namorada dele na trama, descobre tudo e embarca de volta para o Brasil, sentando ao lado de Anthony Hopkins, que procura pela filha desaparecida. Durante uma conexão nos EUA, Flor esbarra em Ben Foster ("O Mensageiro"), estuprador recém-saído da cadeia que está fazendo de tudo para não ter uma recaída. Ainda há Jude Law, no papel do marido de Weisz, que contrata uma prostituta na Eslováquia, um casal apaixonado na França e dois mafiosos russos.

Divulgação
Meirelles e Anthony Hopkins no set de "360"

É um bocado de gente. A ideia de que estamos todos conectados é a mesma por trás de todos os "filmes coral", expressão criada para denominar essas produções em que diversos personagens têm direito a uma voz. Os expoentes desse gênero são o norte-americano Robert Altman, que depurou seu estilo principalmente em "Nashville" e "Short Cuts - Cenas da Vida", e o mexicano Alejandro González Iñárritu, de "Babel" e "21 Gramas".

No caso de "360", o filme fica martelando, além da questão da fidelidade, a proposta de que quando se chega a uma bifurcação é necessário escolher um caminho, metáfora simplista para a importância que uma decisão trivial pode ter no destino de cada um.

Meirelles declarou em entrevista sobre o filme que nunca mais faria um filme coral , pela frustrante falta de tempo para contar cada história. Além disso, disse estar consciente antes de assumir o projeto do risco de não conseguir se aprofundar em nenhuma delas a contento. E é justamente o que acontece.

O tempo vai passando, os personagens se sucedem na tela e quando se vê, o filme chega ao final sem que nenhum deles crie empatia. É fato que a superficialidade é quase que inerente a esse tipo de produção, mas em "360" isso é ainda mais agudo. Sobra a frieza, e para um filme com ambição para ser também uma comédia romântica, dentro de um leque muito maior de estilos, isso é fatal.

A culpa recai principalmente nos ombros de Morgan. Se o diretor tentou melhorar a cadência do longa-metragem, apostando numa edição mais fluída de Daniel Rezende, com telas divididas e truques de montagem (nada muito original), o roteiro decerto não ia muito longe desde o início. Das histórias apenas esboçadas às muletas dramáticas para falar dos personagens, não parece o trabalho de um profissional disputado em Hollywood.

Até dá para tirar alguma coisa de "360", mas é preciso se esforçar.

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