Argentino Juan José Campanella ganha Kikito pelo conjunto da obra em Gramado

Diretor de "O Segredo dos Seus Olhos" e "O Filho da Noiva" defendeu maior proximidade entre Brasil e Argentina, falou de seu próximo filme, Ricardo Darín e de Hollywood

Marco Tomazzoni - enviado a Gramado | - Atualizada às

Edison Vara/PressPhoto
Juan José Campanella segura o troféu Kikito de Cristal no Festival de Gramado

A festa de 40 anos do Festival de Gramado deu sequência a sua série de homenagens na noite desta terça-feira (14), com a entrega do troféu Kikito de Cristal ao cineasta argentino Juan José Campanella.

Ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro por "O Segredo dos Seus Olhos", o diretor, um dos grandes responsáveis pela popularização do cinema argentino no país, disse que esta era a primeira vez que recebia um prêmio pelo conjunto de sua obra.

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"Nós sabemos que os brasileiros são exagerados, mas isso já é demais", disse ele, pouco depois de subir ao palco do Palácio dos Festivais. Sem falar português, Campanella defendeu no microfone uma maior proximidade entre Brasil e Argentina, inclusive o ensino de português e espanhol nas escolas, em vez do francês, "que não serve para nada".

"Sempre que venho ao Brasil me pergunto por que nossos países não tem um maior intercâmbio cultural, restrito a uma rivalidade futebolística, embora nós sempre ganhemos", brincou.

Esta é a segunda vez do diretor em Gramado: ele esteve na cidade há dez anos, quando exibiu "O Filho da Noiva" na competição latina (na época, levou os prêmios da crítica, do público e de melhor atriz para Norma Aleandro). Seu primeiro longa em espanhol, "O Mesmo Amor, A Mesma Chuva" (1999), também concorreu no festival.

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Antes da homenagem, Campanella conversou rapidamente com a imprensa, até porque, envolvido com seu novo filme, a animação "Metegol", ficará menos de 24 horas na serra gaúcha. Aliás, ele atribui ao projeto o fato de poucas coisas terem mudado depois da vitória no Oscar.

"Duas semanas depois, comecei a trabalhar em 'Metegol'. Se soubesse o que era animação, não teria feito. É como dirigir um longa com atores, só que em vez de durar três, quatro semanas, se estende por três anos. Demanda dedicação total. Não tenho férias, feriado, não tenho vida", disse, bem humorado.

Edison Vara/PressPhoto
Campanella: "Não teria problemas em filmar minha vida inteira em Buenos Aires"

O argentino admitiu, no entanto, ter recebido muitas ofertas de projetos após o triunfo na Academia de Hollywood. Nada que o tenha atraído de verdade – "Não tenho vontade de deixar 'Metegol' para fazer filmes de super-heróis ou de invasão de extraterrestres". Além disso, Campanella confessou ter receio de entrar na máquina de Hollywood depois da liberdade criativa que adquiriu na Argentina.

"Me acostumei a fazer meus filmes do meu jeito", disse. "Não quero trabalhar com um executivo que tenha feito filmes ruins ou que saiba menos do que eu. E além disso, não gosto de Los Angeles, tenho saudade de casa, filho pequeno. Não teria problemas em filmar minha vida inteira em Buenos Aires."

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Isso não quer dizer que a indústria norte-americana seja novidade para Campanella. Formado pela New York University Film School, seus dois primeiros longas foram em inglês (os desconhecidos "The Boy Who Cried Bitch", de 1991, e "Love Walked In", de 1997) e trabalhou por um bom tempo dirigindo séries como "House", "30 Rock" e "Law & Order: Special Victims Unit".

"A TV norte-americana tem feito nos últimos anos alguns dos melhores momentos do audiovisual no mundo, com boas histórias e roteiristas. Dá mais prestígio trabalhar em televisão, que concede mais liberdade e riscos do que o cinema", afirmou ele, que não tem planos de voltar a curto prazo de voltar a trabalhar lá.

Com relação à alardeada superioridade dos roteiros argentinos em comparação aos brasileiros, que seria o motivo de o cinema deles ser teoricamente melhor do que o nosso , Campanella se mostrou surpreendido. "Acho que é um mal-entendido. No meu ponto de vista, esse parece ser nosso ponto mais fraco, embora nos últimos anos tenha havido uma melhora notável em relação aos anos 1980 e 1990. Lamentavelmente, não chega lá muito cinema brasileiro."

Sobre Ricardo Darín, estrela de todos os seus longas-metragens em espanhol, o cineasta disse ser uma coincidência e negou a ideia de ele ser um "alter ego". "Ricardo é um enorme ator, nos damos muito bem, temos um senso de humor e de dramaturgia bastante parecido. Ele consegue levar um filme mesmo com os aspectos negativos do personagem. Não é um ator fetiche: está nos meus filmes por sua capacidade e talento."

A animação em 3D "Metegol", que estreia em 2013, segue um grupo de jogadores de pebolim, alheios à ideia de que são controlados no momento do jogo. Não que o filme seja sobre futebol. "Tenho uma confissão: não me interesso por futebol", disse Campanella. "Isso parece um pecado para um argentino ou brasileiro. Me interessa, isso sim, a paixão que o futebol desperta nas pessoas."

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