Filme "Sob o Sol de Satã" é lançado em DVD no Brasil

Dirigido pelo francês Maurice Pialat (1925-2003), longa ganhou a Palma de Ouro no festival de Cannes em 1987

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Cena do filme "Sob o Sol de Satã"

Ao ser premiado com a Palma de Ouro em Cannes, em 1987, "Sob o Sol de Satã" trouxe mais dissabores que alegrias ao diretor francês Maurice Pialat (1925-2003). Os críticos, refratários ao academicismo de Pialat, preferiam ver premiado o 'experimental' "Asas do Desejo", do alemão Wim Wenders, certamente um bom filme, mas sem a dimensão dessa obra-prima que Pialat realizou com base no romance de Bernanos (1888-1948).

Seu lançamento em DVD permite rever cenas antológicas como a ressurreição de um garoto pelas mãos do padre Donissan (Gérard Depardieu), sequência tão perturbadora quanto a do morto que se levanta no clássico "A Palavra", de Dreyer. É uma daquelas cenas na história do cinema que colocam o espectador diante mesmo de um milagre.

Críticas da época provaram ser injustificadas. Embora a revista "Positif" tenha reconhecido sua genialidade, após a morte de Pialat, muitas outras publicações confundiram o naturalismo de "Sob o Sol de Satã" com um engenhoso formalismo fílmico, quando Pialat usa a luz - oblíqua, quase sempre - segundo uma concepção alegórica que não despreza a ambivalência do próprio título do livro de Bernanos.

Escrito quando o autor tinha 40 anos, "Sob o Sol de Satã" ousa - sob o risco de heresia - colocar um ser que pertence ao mundo das sombras no lugar do Cristo, a luz do mundo, o sol regenerador, segundo a tradição bíblica. Por certo, Bernanos não agiu assim por cinismo: predomina em sua obra um sentimento apocalíptico de que o domínio do mal sobre o mundo irá se alastrar até que seu poder venha a ser derrotado, como garantem as Escrituras.

Tanto uma leitura atenta do livro de Bernanos (relançado no ano passado pela Editora É Realizações) como a revisão do filme de Pialat demonstram que não há possibilidade de uma leitura existencialista da obra: o mal, tanto num como no outro, é vencido numa dimensão atemporal. Nem a sintaxe literária nem o cinema são capazes de registrar a presença misteriosa desse mal, mas Bernanos e Pialat tentam.

No cinema, parece mais fácil. Pialat tem o chiaroscuro da tradição barroca holandesa para facilitar a tarefa. A luz, nesse filme escuro, que parece emergir das trevas, assume uma função metafórica e reconfortante, abjurando o próprio título do filme ao identificar o sol como uma luz que cega e faz errar seres como Mouchette (Sandrine Bonnaire). A originalidade da visão de Pialat está justamente em interpretar o primeiro romance de Bernanos, de 1926, como a escritura de um profeta que descreve o sobrenatural encarnado.

Para Bernanos, a autonomia do homem moderno não passava da prova inconteste de sua trágica solidão. Sem o sentimento do sagrado ele estaria à deriva. Pialat faz um filme sobre esse desencanto - mais precisamente, sobre as incertezas e a falta de vocação de um jovem pároco de aldeia, Donissan (Gérard Depardieu). Ele se mortifica, indo ao encontro de Satã, incorporado na figura de um sedutor estrangeiro que revela ser, numa encruzilhada, a encarnação do próprio mal.

Ainda que Donissan resista, recebe dele o dom de ver através dos seres. É assim que o padre percebe sua presença no corpo de uma adolescente mitômana com tendências suicidas, Mouchette. Sentido-se culpado por sua morte, ele deposita seu corpo sobre o altar, para escândalo dos provincianos. Meses depois, veremos Donissan sendo venerado como um santo por outros camponeses.

Antes de ser uma obra de difusão religiosa, "Sob o Sol de Satã" é um aggiornamento da obra de Bernanos (sem que isso implique mudança de época) que privilegia um tema caro aos místicos espanhóis, como o da noite escura da alma, em que esta não pode ser consolada pela presença de Deus. É dessa trágica ausência que trata essa obra-prima, que honra o catálogo da maranhense Lume Filmes.

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