David Cronenberg faz metáfora do isolamento em "Cosmópolis"

Novo filme do diretor canadense retrata jovem magnata, vivido por Robert Pattinson, que vive dentro de sua limusine

Agência Estado |

Agência Estado

Divulgação
Robert Pattinson em "Cosmópolis"

Universo em desencanto. Talvez esta poderia ser a sinopse de "Cosmópolis", novo e aguardado filme de David Cronenberg, que integrou a competição oficial do Festival de Cinema de Cannes em maio e que chega aos cinemas nacionais em 7 de setembro.

Adaptação do romance homônimo de Don DeLillo, o longa chega em hora oportuna. Não só por tratar com frescor o tema da crise financeira e de valores por que passa atualmente o mundo, mas também por detectar, ainda que de forma metafórica, a forma como celebridades vivem cada vez mais desconectadas do chamado mundo real.

"É este um dos grandes dramas de Parker. Tudo que ele domina, domina em seu universo, no caso, a sua limusine. Quando está fora dela, da sua zona de conforto, é desconectado e frágil. E não seria esta uma realidade dos nossos astros de cinema, dos jovens milionários do sistema financeiro, tecnológico?", questionou o diretor em entrevista à reportagem, em Cannes.

Leia também:  Robert Pattinson surpreende em "Cosmópolis", de David Cronenberg

Parker, no caso, é Eric Parker, um jovem magnata às voltas com uma Nova York à beira do colapso. Interpretado com competência pelo "vampiro" Robert Pattinson, é um milionário que, após cismar que tem que cortar o cabelo, atravessa toda a cidade em sua limusine, enfrentando toda sorte de eventos, apenas para chegar no bairro em que cresceu, onde ainda mora e trabalha o barbeiro que o atendia na infância.

"Parker é um jovem que não se comunica com o mundo, que usa seu dinheiro para construir microcosmos em que se sente seguro (a limusine) e para quem dar uma volta a pé na rua é perigoso. Aparentemente, ele só quer cortar o cabelo, mas ele está tão fechado em seu pequeno mundo que o filme é uma metáfora para esta volta à inocência. O longa tenta detectar algo que nos está fugindo e para o qual tenhamos de voltar", comentou o diretor canadense.

Quando fez tal comentário, acrescentou também que não via nenhuma semelhança entre o personagem e o ator que lhe dava vida, ainda que, como Parker, Pattinson fosse obrigado a viver em espaços fechados e ter pouco acesso à "liberdade de circular".

"Há semelhanças nas vidas deles porque ambos vivem tipos de isolamentos. Mas Pattinson o faz porque tem de lidar com o peso de ser uma celebridade. Parker não é famoso. É um cara que força todos a virem para o seu mundo. Criou a limusine para ser seu barco, viver ali completamente isolado. Gosto da estrutura de que ele força todo mundo a fazer tudo para ele. É estranho e silencioso."

Se a mesma pergunta tivesse sido feita há pouco, quando Pattinson, após um período em que foi obrigado a se fechar e silenciar para se proteger dos comentários em razão da traição de sua ex-namorada Kristen Stewart , vai "se abrir" pela primeira vez diante das câmeras do "The Daily Show" (de Jon Stewart) para justamente promover "Cosmópolis", talvez Cronenberg tivesse outra resposta, mas, em Cannes, apenas completou: "Vivemos uma época em que a juventude enfrenta um colapso de valores. É preciso mudar."

Ouvir o diretor que é conhecido como niilista e mestre do terror físico, de obras perturbadoras como "Crash" e "A Mosca", falar em ventos de mudança é, no mínimo, surpreendente. Mas é justamente nesta capacidade de mudar as velas de acordo com o vento que reside sua genialidade.

    Leia tudo sobre: CosmópolisRobert PattinsonDavid Cronenbergcinema

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG