Som de banda cover prejudica exibição de filme no Festival de Gramado

Projeção de "Eu Não Faço a Menor Ideia do que Eu To Fazendo com a Minha Vida" sofreu com música de grupo que tocava em bar ao lado do prédio

Marco Tomazzoni enviado a Gramado | - Atualizada às

Divulgação
Clarice Falcão e Leandro Hassum em 'Eu Não Faço a Menor Ideia do que Eu To Fazendo com a Minha Vida'

O primeiro dia de competição do Festival de Gramado teve um filme jovem, feito por um cineasta com idade condizente. Aos 24 anos, Matheus Souza exibiu na noite de sexta-feira (10) seu segundo longa-metragem, "Eu Não Faço a Menor Ideia do que Eu To Fazendo com a Minha Vida", que segue uma universitária carioca indecisa com o que fazer no futuro. Se reflete uma dúvida universal, vem embalada pelo prisma da classe média e do mundo pop, mais ligada à cultura internacional do que à realidade brasileira.

Foi uma noite de falhas na infra-estrutura do festival, que completa 40 anos. "360", filme de Fernando Meirelles exibido na abertura, teve problemas na projeção e, depois que o diretor desceu do palco do Palácio dos Festivais, passaram-se 15 minutos de expectativa para que as luzes finalmente se apagassem.

A sincera homenagem a Eva Wilma depois do intervalo fez o público pôr de lado a má impressão, mas durante a exibição de "Eu Não Faço a Menor Ideia...", as cenas do filme ganharam um acompanhamento musical inesperado: Beatles, Pink Floyd e Rolling Stones, tocados por uma banda cover no bar ao lado do prédio. Inexplicavelmente o show continuou durante todo o filme, sem que ninguém tomasse alguma providência. Restou ao diretor e à equipe, nas primeiras fileiras da sala, ficarem suspirando ao ouvir o rock 'n' roll clássico embalar momentos dramáticos da história.

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Já a boa trilha sonora escolhida por Matheus parece uma coletânea do que a cena independente brasileira produz de mais interessante. Tiê, Mallu Magalhães, Pélico e Marcelo Camelo foram alguns dos que emprestaram suas músicas para embalar a jornada de autodescobrimento da protagonista. A corruptela "indie", aliás, é a que melhor descreve a estética do filme – descolada e com ar despreocupado, mas com plena consciência de que tudo é friamente calculado, inclusive a esquisitice.

Estudante de medicina, Clara (Clarice Falcão) mata as aulas todas as manhãs, desiludida com o curso logo no primeiro semestre na faculdade. Na pista de boliche que frequenta para passar o tempo, conhece o filho do dono (Rodrigo Pandolfo), com quem passa a inventar tarefas análogas para descobrir uma profissão, numa espécie de teste vocacional nada corriqueiro.

Medicina? Tente ajudar pessoas. Jornalismo? Tome café-da-manhã em hoteis, como uma crítica gastronômica. Engenharia? Construa uma casa na árvore. Direito? Minta para seus pais ao contar como foi seu dia. É essa rotina que leva a história, montada como se em forma de esquetes, com um elenco repleto de convidados especiais: Daniel Filho, Augusto Madeira, Nelson Freitas, Bianca Byington, Gregório Duvivier, Priscila Rozembaum e um bocado de outros.

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Em sua estreia como diretor, aos 20 anos, Matheus Souza surpreendeu com "Apenas o Fim", retrato verborrágico de um final de namoro, defendido com propriedade por Gregório Duvivier e Erica Mader. Na época, foi refrescante ver nas telas uma juventude que não se via representada, que cresceu sob influência de doses cavalares de cultura pop. O diretor e roteirista manteve o mesmo tom, com personagens que usam camisetas dos X-Men, Caça-Fantasmas, fazem piadas com Nicolas Cage ("a única pessoa que fez escolhas piores do que eu") e conseguem inserir o herói Aquaman num diálogo. É o orgulho nerd se manifestando no cinema brasileiro.

Ao mesmo tempo, o filme também enfoca, ainda que involutariamente, a apatia de uma geração. Clara tem como frases constantes "é a vida" e "pode ser", uma postura resignada, que, mais do que o drama pessoal da personagem, reflete um contexto bem maior.

Diálogos elaborados

Fã de Woody Allen, Matheus Souza opta pelos mesmos diálogos elaborados, em fluxo de consciência, e a comédia de seu mentor, só que por enquanto ele só consegue emular a graça rasteira dos primeiros filmes do mestre norte-americano. Há, sem dúvida, talento em cenas como a do filho que dá o fora na mãe ou numa que inverte as expectativas e mostra os pais, cheio de dedos, anunciando para a filha sua reconciliação, não o divórcio.

No mais, "Eu Não Faço a Menor Ideia do que Eu To Fazendo com a Minha Vida" parece tão perdido e disperso quanto a sua protagonista. Com isso, uma experiência que devia ser agradável pode se tornar rapidamente desinteressante. Se o que faz é único no cinema nacional, o diretor ainda precisa maturar seu estilo. Tempo, ainda bem, não falta.

A competição prossegue neste sábado com o uruguaio "Artigas - La Redota", de Cesar Charlone, primeiro competidor latino, e a ficção brasileira "Super Nada", de Rubens Rewald.

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