Fernando Meirelles reclama da exibição de "360" no Festival de Gramado

"Assistimos a um filme que não era aquele que eu fiz", disse o cineasta; leia entrevista do iG

Marco Tomazzoni - enviado a Gramado |

Itamar Aguiar/PressPhoto
O diretor Fernando Meirelles no Festival de Gramado

Fernando Meirelles não ficou muito contente com a projeção de "360" em Gramado. Exibido na abertura do festival, na noite de sexta-feira (10), o filme do diretor enfrentou problemas técnicos que deixaram o público esperando por 15 minutos no escuro .

Neste sábado (11), ao falar sobre a sessão, Meirelles continuava insatisfeito. "A gente assistiu a um filme ontem que não era aquele que eu e o (diretor de fotografia) Adriano Goldman fizemos", disse, comentando a diferença de cores e contraste.

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Não seria a primeira vez em que ele enfrenta uma sessão complicada do longa-metragem. No Festival de Toronto, em setembro, quando "360" foi exibido pela primeira vez, uma caixa de som da sala estragou e teria provocado mal-estrar na plateia. Meirelles atribui a isso uma crítica virulenta publicada no jornal britânico The Guardian, que teria prejudicado o futuro do longa-metragem desde então. "Não dá chance para o filme ter uma carreira", lamentou.

A reportagem do iG conversou com o cineasta brasileiro momentos antes da projeção de "360" na serra gaúcha, uma pré-estreia, já que o filme entra em cartaz na próxima sexta-feira (17). O Brasil será o terceiro país a exibi-lo comercialmente, depois de França e Estados Unidos.

Trata-se de um projeto internacional, filmado nos EUA, França, Áustria, Inglaterra e Eslováquia. Escrito pelo britânico Peter Morgan (indicado ao Oscar por "Frost/Nixon" e "A Rainha"), conta histórias encadeadas de diversos personagens, um "filme coral", gênero celebrizado pelos diretores Robert Altman e Alejandro González Iñárritu. Meirelles conta que se surpreendeu ao perceber que o roteiro não tinha nenhum vilão. "O antogonista somos nós mesmos, pessoas tendo que lidar com impulsos, desejos. Todos os personagens têm um momento em que precisam tomar uma decisão que transformará suas vidas completamente. "

O elenco é repleto de estrelas. Estão lá Anthony Hopkins, Jude Law e Rachel Weisz, além dos brasileiros Maria Flor e Juliano Cazarré e um timaço estrangeiro – o norte-americano Ben Foster, a inglesa Marianne Jean-Baptiste, o francês Jamel Debbouze, o alemão Moritz Bleibtreu e Vladimir Vdovichenkov, o "Wagner Moura da Rússia".

Na entrevista a seguir, Fernando Meirelles revelou que considera "360" um filme também de Peter Morgan, tamanho o envolvimento do roteirista nas filmagens, e que essa foi a experiência mais tranquila de sua carreira.

O cineasta brasileiro também fala sobre suas andanças por Hollywood, conta que José Padilha está passando maus bocados em "Robocop" e adianta detalhes sobre "Nemêsis", seu próximo projeto, sobre o magnata grego Aristóteles Onassis.

iG: Como você entrou no projeto de "360"? Peter Morgan entregou o roteiro na sua mão?
Fernando Meirelles: Recebi por e-mail. Sempre recebo roteiros desse jeito e quando vi o nome do Peter, já achei interessante. Passei, porque estava fazendo outro filme na época, sobre a Janis (a cantora Janis Joplin, a cinebiografia "Get It While You Can"). Trabalhei nele seis, sete meses e deu perda total. O cara que tem os direitos das músicas dela é um ex-guitarrista do Jimi Hendrix (Ron Terry), não sei por que são dele, mas ele mesmo escreveu o roteiro e fui convidado a dirigir. Falei: 'Olha, essa história é incrível, mas esse roteiro é muito linear, acho que dá para fazer outra coisa'. Aí trabalhei no roteiro com o José Eduardo Belmonte. O cara leu a nossa versão, que eu acho melhor do que a dele, não quis mais fazer e acabou o projeto. Quando o Peter e o produtor David Linde souberam, me contataram de novo, disseram que tinham o dinheiro para fazer "360" e eu embarquei.

iG: O que primeiro te atraiu no roteiro?
Fernando Meirelles: Foi uma mistura de várias coisas. A primeira acho que o próprio Peter Morgan. Esse é um projeto pessoal dele, não foi pago para fazer esse roteiro, queria escrever uma história que tivesse um pouco a ver com a vida dele - ele mora ao mesmo tempo em Viena, Londres e Estados Unidos, vive em hotel e dentro de avião. O outro estímulo é que eu achei curiosa, e muito arriscada, essa estrutura de muitas histórias, pode acabar não sendo satisfatório, nenhuma história vai fundo. Sabia que tinha esse risco, e por outro lado gosto de risco, nunca tinha feito um filme assim. Mas não faria outro filme coral, é sofrido e um pouco frustrante a falta de tempo para contar as histórias. Gostaria de voltar e contar a vida pregressa de cada personagem.

iG: Foi complicada a estrutura de filmar em cinco países diferentes?
Fernando Meirelles: Foi uma das coisas que me atraiu, a possibilidade de em três meses trabalhar como se estivesse fazendo nove filmes diferentes, com atores incríveis, que eu admiro e de quem só precisaria por pouco tempo. Para comprometer o Jude Law por seis meses você precisa pagar, e bem. Agora, um projetinho mais leve, que só leva uma semana, sabia as pessoas que iam topar e toparam. E também por ser um filme muito leve. Fiz quatro filmes muito pesadões, queria fazer um filminho – como se ao invés de escrever um romance, escrevesse uma crônica de jornal. Uma experiência muito agradável.

iG: A versão final do filme é a mesma do roteiro?
Fernando Meirelles: Tem duas ceninhas que cortei na montagem. E as transições, a maneira que vai de uma história para outra, não estavam no roteiro, que era mais blocado, acabava uma história e começava outra. De tudo o que fiz na vida, foi o projeto mais fiel ao roteiro. É um filme do Peter Morgan, na verdade. Ele não só escreveu, como estava junto na hora de escolher elenco, apareceu em muitas diárias de filmagem e acompanhou quase que diarimente a edição. Muito, muito presente. Sugeri colocar na abertura "um filme por Fernando Meirelles e Peter Morgan", mas os produtores acharam que era esquisito e não deixaram.

iG: O filme estreou no Festival de Toronto em setembro levando uma bomba da crítica britânica. O que achou disso?
Fernando Meirelles: Demos sorte de ter adiado o filme aqui. Essa mulher do (jornal inglês) The
Guardian foi quem publicou a primeira crítica do filme. A sessão em Toronto foi desastrosa:
estourou um subwoofer na frente da tela e na última meia hora de projeção ficou ressoando um som para criar tensão, como no Rambo. Aí aparecia um casal em clima de flerte, mas parecia que a qualquer momento ia entrar um caminhão para matar alguém, criava-se uma tensão que nunca acontecia. Muda muito. A gente tentou parar a sessão no meio, tentaram arrumar e não arrumaram. Não teve sessão para a imprensa, que assistiu junto e aí, no dia seguinte... Não sei se foi por isso, mas escreveram esse troço e quando você dava um Google, a primeira coisa que vinha era essa matéria do Guardian esculachando o filme. Então de cara se estabeleceu que o filme não funciona. É incrível como um pequeno incidente transforma a coisa inteira. Foi ótimo esse tempo, porque agora você dá um Google e só aparece na página seis, sete.

Divulgação
O cineasta brasileiro no set de '360'

iG: Você fica procurando pelo filme no Google?
Fernando Meirelles: Não, não, eu não leio crítica. Não faz muito tempo fui fazer a promoção do filme na Europa e resolvi dar uma olhada onde estava o texto. E fomos muito bem recebidos – na Alemanha, por exemplo –, porque o texto já desapareceu.

iG: Você acha que uma resenha assim pode influenciar a carreira de um filme?
Fernando Meirelles: Total, ainda mais hoje. Vamos supor que você vá pesquisar alguma coisa no Google e a primeira coisa que apareça seja o texto do Guardian, e você começa por lá: "o filme não funciona, Peter Morgan perdeu a mão...". Daí ou você vai ver o filme ou lê aquilo e já assume como certo. É isso. Acho muito ruim porque não dá chance para o filme ter uma carreira. O Peter Morgan ficou arrasado, pensou em escrever só para a televisão e não fazer mais cinema. Tirou a energia do cara. Claro que podem criticar, mas parece que foram violentos.

iG: Você tem receio de ler críticas?
Fernando Meirelles: Não tenho, porque não leio. Podem descer o pau que quiserem, não leio. Estava lendo o jornal hoje e tinha lá uma fotinho do "360" – pulei direto. Os dois lados são ruins, já caí nessa cilada. Quando vejo algo muito crítico, não tem jeito, me afeta. E se elogia muito,
também é muito ruim, porque você corre o risco de acreditar. E o que eu tenho de amigo que lê e acredita... Até leio de outros filmes. Sobre o meu trabalho, não quero aprender com crítico. É a estratégia da avestruz: enfia a cabeça debaixo da terra e finge que não existe.

iG: Quando você começou a fazer isso?
Fernando Meirelles: Tem uma história curiosa. Quando "Ensaio sobre a Cegueira" passou em Cannes (em 2008), três horas depois da sessão, que foi muito boa, durante a festa, ficamos sabendo que saiu na Variety uma crítica dizendo que era um filme que nunca devia ter sido feito. Saramago devia estar lamentando ter vendido os direitos – depois ele assistiu ao filme e adorou –, fiquei bem mal. Na manhã seguinte, tinha uma reunião com um ator de Hollywood, cheguei cedo e ele viu que eu estava jururu, perguntou o que era. Ele me contou que não lê mais nada. Quando começou a fazer cinema, só jogavam ele para cima, mas depois de três anos, escreviam que tudo o que ele fazia era péssimo, chamavam de galãzinho. Aí resolveu não ler mais. Me contou que leu as coisas daquela época recentemente e que se tivesse feito isso antes, não teria continuado. Ele foi muito claro: "não leia nada". E tem me ajudado, estou feliz.

Divulgação/Pressphoto
Fernando Meirelles apresenta '360' no palco do Festival de Gramado

iG: Você gosta de trabalhar também como produtor?
Fernando Meirelles: Não, prefiro muito mais quando não sou produtor. "360" foi tão agradável
porque eu não era produtor, era só diretor. Por outro lado, como faço filmes independentes, as
coisas funcionam em parceria, seu produtor é seu parceiro. É diferente da estrutura de estúdio,
que a relação é de contratante e contratado. O cara é seu patrão e tem a palavra final. Aí é muito
difícil.

iG: Esse é o seu grande receio de fazer um filme lá dentro, na indústria de Hollywood?
Fernando Meirelles: É. Porque não tem jeito, funciona assim. Falei com o Padilha (o diretor José Padilha, de "Tropa de Elite) duas semanas atrás. Ele está em Toronto, fazendo "Robocop", e me disse que está sendo a pior experiência da vida dele, nunca sofreu tanto. Contou que passa de segunda a quinta tendo ideias, melhorando o filme, para na sexta fazer uma reunião com os produtores e eles jogarem nove das ideias que criou no lixo. Na semana seguinte, acorda na segunda, continua inventando, para na sexta eles virem e derrubarem tudo. Disse que é um inferno, que nunca mais vai querer fazer isso. Garantiu que o filme vai ficar bom porque ele está brigando, mas que detesta aquilo e se soubesse, não teria ido. Ele é jovem, mais jovem do que eu, então pode aguentar. O Heitor Dhalia também andou falando sobre isso , é muito difícil.

iG: Você ainda tem agente em Hollywood? Recebe convite para muitos projetos de estúdio?
Fernando Meirelles: Tenho, recebo, mas nada vai para frente. Recebo também alguns projetos
independentes, ainda estou analisando alguns. O Adam Sandler me mandou um projeto no ano passado que era muito simpático, um ótimo filme para ter feito no lugar do "360". Bem simples, pequenino. É a história do 17º homem mais gordo do mundo, muito legal. Tem um humor triste, que não chega a ser negro, engraçado. E agora tem outro projeto dele (Adam Sandler) também pequeno, autoral. Acho que ele quer uns papeis em que não seja só o palhaço, é um bom ator.

iG: Você já sofreu algum tipo de preconceito por ser latino?
Fernando Meirelles: Não. Acho que ninguém me vê como brasileiro, devo ser visto como alguém do mercado internacional, genérico. O cachê é meio padrão, por volta de 3,5%, 4% do valor do orçamento. Se é um diretor que traz público só com nome dele, independentemente de elenco, como o Woody Allen, aí pode chegar a 10%, mas no caso dele são filmes baratos, de US$ 14 milhões.

iG: Você considera "360" um filme brasileiro?
Fernando Meirelles: Não, considero um filme austríaco e inglês. Ele é uma coprodução brasileira e tem pessoal brasileiro, foi finalizado aqui, a edição, efeitos especiais. É um filme europeu. Estranhei muito me convidarem para abrir Gramado, mas fiquei feliz com o convite.

iG: Em que pé está "Nêmesis", seu próximo filme?
Fernando Meirelles: É uma biografia do (magnata grego) Aristóteles Onassis. Na verdade, é uma história de ódio entre Onassis e Bob Kennedy. Tem pedaços da vida dele, mas é focado na
polarização entre os dois, além da Jackie Kennedy, Maria Callas e toda a maluquice que era a vida dele. Vai ser rodado em Budapeste, na Croácia e na Inglaterra, devo começar em novembro e a gente vai anunciar o elenco no Festival de Toronto, uma produção de US$ 30 milhões. Estou muito feliz com esse projeto porque, desde "Cidade de Deus", foi o primeiro em que me envolvi desde o começo. Me mandaram o roteiro, gostei da história, mas não gostei do roteiro. Propus que se a gente contratasse outro roteirista e começasse do zero, toparia. Então chamamos o Bráulio (Mantovani) em julho do ano passado e o roteiro ficou pronto agora, um ano depois. Está sensacional. Depois desse vou fazer um filme no Brasil. Só não vai ser "Grande Sertão: Veredas" – o público brasileiro não está interessado em ver jagunço.

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