Se peca pela falta de originalidade, novo longa do diretor de "Dois Filhos de Francisco" conquista por atuações sinceras e pelas canções do Rei

Ninguém esperava que uma cinebiografia da dupla Zezé di Camargo e Luciano se tornaria uma das maiores bilheterias da história recente do cinema brasileiro. Por trás do sucesso de "Dois Filhos de Francisco" estava o diretor Breno Silveira. O cineasta resolveu voltar a apostar na música para atrair multidões - escolheu, agora, um artista que, de popular, se converteu em unanimidade: Roberto Carlos.

As músicas do Rei inspiraram "À Beira do Caminho", em cartaz a partir desta sexta-feira (10) em todo o país. O romantismo transbordante das músicas compostas por Roberto e Erasmo serviu de combustível para o roteiro de Patrícia Andrade (parceria frequente de Breno), sem se focar em nenhuma canção específica, embora "O Portão" e "A Distância" se encaixem muito bem com a ideia da trama.

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João Miguel, o ator mais constante do nosso cinema, interpreta João, caminhoneiro solitário e amargurado. Logo se percebe que para ele a estrada serve como fuga – não importa a carga e o lugar, ele só quer continuar sua rotina autodestrutiva, longe de qualquer um, se apoiando no álcool e em um único CD de Roberto Carlos. Seu lema é "mantenha distância", como adverte uma frase inicial na boleia de seu caminhão, que vai mudando ao longo do filme, nesse que é o maior exemplo da sabedoria popular brasileira.

João Miguel e o diretor Breno Silveira nas filmagens
Divulgação
João Miguel e o diretor Breno Silveira nas filmagens

O trauma do passado, esboçado em flashbacks rápidos e estilizados, teima em não vir à tona. A coisa muda de figura quando João descobre escondido no bagageiro o garoto Duda (o incrível Vinicíus Nascimento). Órfão de mãe e com uma maturidade fora do normal, o menino tem como objetivo encontrar o pai (Angelo Antônio, numa breve participação), que abandonou a família ainda na gravidez e se mudou para São Paulo.

Indócil, João pretende se livrar do moleque o quanto antes, mas todo mundo sabe que aquele jeitinho doce e o olhar desamparado vão eventualmente dobrá-lo. Assim como se espera a revelação do passado do protagonista, que envolve a ainda apaixonada Rosa (Dira Paes, irresistível).

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De inédita, a história não tem nada. O parentesco com "Central do Brasil" é evidente, mas a árvore genealógica de "À Beira do Caminho" vai bem mais longe. Afinal de contas, a premissa adulto pareado com criança é das mais exploradas pelo cinema mundial. Há "O Garoto", de Charles Chaplin, "Lua de Papel", de Peter Bogdanovich, "Gloria", de John Cassavetes, "Kolya", ganhador do Oscar de filme estrangeiro... A lista é praticamente infinita.

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Se originalidade não é o forte do filme, ele se apoia no sentimento, sem descambar para o sentimentalismo. Isso porque a dupla principal de atores extravasa sinceridade, o que por si só já é um feito e tanto, ajudando a relevar as derrapadas feias e lugares-comuns do roteiro.

Além do que, em suas andanças por rodovias poeirentas, postos de beira de estrada e feiras populares, "À Beira do Caminho" incorpora um sentimento de brasilidade que o cinema nacional teima em deixar de lado, ao menos nas produções voltadas para o grande público. Nisso, "À Beira do Caminho" se apresenta como um produto diferente em meio a uma safra quase que exclusiva de comédias rasas.

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E quem mais brasileiro do que Roberto Carlos? Espécie de primas ricas do brega, gênero bem explorado no documentário "Vou Rifar Meu Coração" , as músicas do cantor descrevem a dor de amor com uma familiaridade que atravessa barreiras culturais, de idade e classe social. Se a plateia não gostar de "À Beira do Caminho", ao menos não vai reclamar de ouvir as canções do Rei em alto e bom som, em seus arranjos originais – aí, não há como errar.

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